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nº 333 - Nave Mundo


 

Autor: Brian Aldiss
Título original: Non-Stop
1ª Edição: 1958
Publicado na Colecção Argonauta em 1985
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca 

Súmula - Foi apresentada no livro nº332 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

De Brian W. Aldiss pode-se dizer tudo numa frase: é o melhor autor de ficção-científica britânico na actualidade... e ninguém dirá que na Grã-Bretanha escasseiam os bons autores de FC. De Non-Stop - que na versão portuguesa, por motivos que os leitores bem compreenderão, recebeu o título de Nave-Mundo - basta que se repita o que disse um jornal bem conhecido, o "The Observer": leitura fascinante do princípio ao fim, e então, quando se descobre a razão de tudo, o leitor volta ao princípio.

Nota: uma obra fantástica do Brian Aldiss sobre uma nave que perdeu o rumo e sobre as pessoas que lá vivem em condições muito especiais. Um twist final muito interessante e um livro agradabilíssimo de ler. Recomeçam também neste número os resumos nas contra-capas, a meu ver bem.

nº 354 - A Outra Ilha do Dr. Moreau



Autor: Brian Aldiss
Título original: Moreau's Other Island
1ª Edição: 1980
Publicado na Colecção Argonauta em 1986
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca

Súmula - Foi apresentada no livro nº353 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":
Brian Aldiss é um dos mais brilhantes autores britânicos de FC - talvez o mais notável. Que ele tenha retomado um dos mais célebres temas de Herbert George Wells - A Ilha do Dr. Moreau - é um acontecimento, não só na ficção-científica, mas também na literatura em geral. Mais importante ainda, porque Aldiss, sem imitar precisamente o espírito de Wells, respeitou-o.
Poderá perguntar-se que interesse houve - para além do literário - em reviver a estranha história do médico louco que transformava os animais em homens. Sem desvendar um segredo que, como é hábito de Aldiss, se mantém impenetrável até final, notaremos apenas que, depois de Wells, muita coisa mudou no mundo e pode ainda mudar.
Que papel poderá ter a engenharia genética numa futura guerra global? O que era uma fábula, pode um dia tornar-se numa terrível realidade.  

nº 369 - Frankenstein Libertado



Autor: Brian Aldiss
Título original: Frankenstein Unbound
1ª Edição: 1978
Publicado na Colecção Argonauta em 1988
Capa: A. Pedro
Tradução: Raul de Sousa Machado

Súmula - Foi apresentada no livro nº368 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Uma obra de Brian Aldiss é sempre um acontecimento, mas Frankenstein Unbound tem a particularidade de ter entre as suas personagens Lorde Byron e Percy e Mary Shelley. E importa notar que Aldiss partilha a sua fama como autor de ficção-científica com a de um dos maiores conhecedores da obra de Mary Shelley, a autora de Frankenstein.
Quando Joe Bodenland se vê súbita e inexplicavelmente transportado da preocupante América do ano 2020 à calma Suíça de 1816, julga ter encontrado a paz que ambicionava. Até conhecer Victor Frankenstein - e então vê-se perante um dilema. Na vivenda de Byron, no Lago de Genebra, o manuscrito de Mary Shelley sobre Frankenstein ainda vai em meio. Victor é, pois, um produto da imaginação. E Joe Bodenland, o que será?

nº 416 - Os Negros Anos Luz



Autor: Brian Aldiss
Título original: The Dark Light Years
1ª Edição: 1964
Publicado na Colecção Argonauta em 1992
Capa: A. Pedro
Tradução: António Porto

Súmula - Foi apresentada no livro nº415 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Através de séculos de séculos, num planeta a anos-luz do nosso, criaturas nasceram num delta lamacento e evoluíram até se tornarem em jardineiros astutos para os quais a madeira e a cerâmica eram como metais e a filosofia religiosa uma ocupação.
Não conheciam o mal nem sabiam o que fosse a dor, porque não a sentiam.
Três sóis governavam os movimentos do seu mundo natal.
O seu sexo mudava com cada sol e a sua vida era longa, muito longa, oscilando agradavelmente entre uma mediania de luxo e necessidade.
Suponha-se que essas criaturas, tendo desenvolvido uma maneira muito peculiar de viajar no espaço, se encontraram um dia com os homens, entre as estrelas. Que aconteceria?

nº 463 - Os Últimos Dias da Terra 1



Autor: Brian Aldiss
Título original: Hothouse
1ª Edição: 1962
Publicado na Colecção Argonauta em 1996
Capa: A. Pedro
Tradução: Clarisse Tavares

Súmula - Foi apresentada no livro nº462 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

A acção deste romance excepcional - aliás galardoado com o prestigiado Prémio Hugo e tido pela crítica como "uma verdadeira obra de arte" - situa-se num futuro muito afastado, quando o Sol se aproxima do fim e quase todo o planeta Terra se encontra coberto por uma árvore gigantesca, cujas ramagens ciclópicas conseguem atingir a própria Lua.
A vida animal quase desaparecera por completo e apenas alguns humanos conseguem sobreviver, após uma fase de adaptação que deixou estigmas em todos eles.
A estes sobreviventes, caberá enfrentar, num calor de fornalha, enormes plantas carnívoras e insectos monstruosos, entre os quais se contam as temíveis aranhas vegetais que colonizaram a Lua.
Indiscutivelmente a obra-prima de Brian Aldiss, e um dos livros mais importantes de toda a literatura de ficção-científica - Hothouse, no título original - é agora apresentada a todos os leitores da Colecção Argonauta.

nº 464 - Os Últimos Dias da Terra 2



Autor: Brian Aldiss
Título original: Hothouse
1ª Edição: 1962
Publicado na Colecção Argonauta em 1996
Capa: A. Pedro
Tradução: Clarisse Tavares

Súmula - Foi apresentada no livro nº463 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

No segundo e último volume desta obra magistral, Brian Aldiss - um dos grandes mestres da ficção-científica contemporânea - prossegue a recriação de uma Terra onde a vida animal quase desapareceu por inteiro e em que os poucos humanos sobreviventes sofreram mutações drásticas. A certa altura porém, e movidos por um natural sentimento de revolta, decidiram tentar empreender a grande ascensão até ao nosso satélite, na esperança de nele descobrir um asilo mais hospitaleiro. 

Vendo que estavam a ser arrastados para longe, os Pescadores iniciaram um coro de lamentos. Yattmur passeou-se diante deles com a faca na mão, esforçando-se por não mostrar compaixão pelos seus ferimentos.
- Homens da árvore-barriga! Filhos de cauda longa de plantas inchadas! Parai com essa berraria! Morreu uma pessoa verdadeira, e vós tereis que respeitar essa morte, senão atiro-vos pela borda fora com as minhas próprias mãos.
Ouvindo isto, os Pescadores caíram num silêncio abjecto. Humildemente encostados uns aos outros, confortavam-se entre si e lambiam as feridas uns dos outros. Correndo para Gren, Yattmur passou o braço em volta dos ombros dele e encostou o seu rosto ao do rapaz. Ele só tentou resistir-lhe por um momento. 
- Não chores demais por Poyly. Ela foi uma pessoa óptima em vida... mas chega o momento em que todos temos que morrer. Agora eu estou aqui e vou ser a tua companheira.
- Hás-de querer voltar para a tua tribo, para os Pastores - disse Gren, com ar infeliz.
- Ah! Já estão muito longe de nós. Como posso voltar? Põe-te de pé e repara na velocidade com que estamos a ser arrastados! Já mal se vê a Boca Negra - não é maior do que um dos meus mamilos. Estamos em perigo, Gren. Acorda! Pergunta ao teu amigo mágico, o cogumelo, para onde vamos.
- Não me interessa o que possa acontecer.
- Escuta, Gren...
Elevou-se um grito entre os Pescadores. Aparentavam uma espécie de interesse apático, apontando para a frente e chamando, o que foi suficiente para pôr Yattmur e Gren de pé imediatamente. O barco estava a ser arrastado de um lado para outro.

nº 480 - Renascimento



Autor: Brian Aldiss
Título original: Earthworks
1ª Edição: 1965
Publicado na Colecção Argonauta em 1997
Capa: A. Pedro
Tradução: Clarisse Tavares

Súmula - Foi apresentada no livro nº479 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Brian Aldiss dispensa apresentações - é não só um dos grandes nomes da FC, mas também da literatura comum, vencedor dos prémios Hugo e Nébula, o mais popular dos autores britânicos segundo um inquérito realizado pela British Science Fiction Association.
A sua obra está amplamente representada na Colecção Argonauta, e Renascimento, a versão portuguesa de Earthworks, não é inferior em qualidade a qualquer das anteriores. o que nela se descreve, como disse o Times Literary Suplement, é "um mundo de pesadelo". Uma Terra que enfrenta um eco-desastre, coberta de lixo e com uma população excessiva e cheia de doenças. Uma Terra em que os produtos químicos envenenaram o meio ambiente e levaram a maior parte das pessoas à beira da morte pela fome. Só há uma solução, tão terrível que ninguém quer adoptá-la - ninguém, excepto Knowle Nolan, ex-condenado, ex-viajante e comandante do Trieste Star. Nolan está pronto para fazer o disparo que desencadeará o Armagedão, ao qual os sobreviventes herdarão um mundo renascido. Se houver sobreviventes...

nº 490 - A Árvore da Saliva



Autor: Brian W. Aldiss
Título original: The Saliva Tree
1ª Edição: 1966
Publicado na Colecção Argonauta em 1998
Capa: A. Pedro
Tradução: Alexandra Tavares

Súmula - Foi apresentada no livro nº489 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

A Árvore da Saliva - (The Saliva Tree), é uma colectânea de contos de Brian W. Aldiss, a primeira figura da ficção-científica britânica contemporânea e um consagrado Mestre a nível mundial. O primeiro - o que deu o nome ao livro - é um dos mais célebres títulos da FC, pois marcou uma viragem fundamental, quer no estilo do autor, quer de toda a literatura do género, introduzindo nesta uma qualidade de estilo nunca antes vista e que não prejudica e antes se alia a uma imaginação excepcionalmente rica. Embora tenha sido publicado pela primeira vez em 1966, sob o título de The Saliva Tree and Others Strange Growths, o tema não podia ser mais actual - os estranhos efeitos de um meteorito caído numa granja. E por detrás da história há toda uma poesia e uma filosofia que, segundo os críticos, tem raízes shakespeareanas.

Índice dos Contos:

A Árvore da Saliva - (pág. 7)

Perigo: Religião! - (pág. 105)

A Origem - (pág. 157)

O Hábito Solitário - (pág. 177)

nº 498 - O Enigma de Malacia 1



Autor: Brian Aldiss
Título original: The Malacia Tapestry
1ª Edição: 1976
Publicado na Colecção Argonauta em 1999
Capa: A. Pedro
Tradução: Alexandra Santos Tavares

Súmula - Foi apresentada no livro nº497 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Brian Aldiss, um dos melhores estilistas em qualquer género literário, não necessita de qualquer apresentação pois encontra-se largamente representado na Colecção Argonauta.
Por seu turno, O Enigma da Malacia (versão portuguesa de The Malacia Tapestry) é uma das suas obras mais famosas, apontada até como a melhor.
Dividido em dois volumes devido à sua extensão, este romance conta a história de Malacia, uma cidade-estado velha como o tempo, vista através dos olhos de Perian de Chirolo, actor e aventureiro, que consegue penetrar nos seus mais negros segredos.

nº 499 - O Enigma de Malacia 2



Autor: Brian Aldiss
Título original: The Malacia Tapestry
1ª Edição: 1976
Publicado na Colecção Argonauta em 1999
Capa: A. Pedro
Tradução: Alexandra Santos Tavares

Súmula - Foi apresentada no livro nº498 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Em Malacia - uma cidade-estado parada no tempo e entregue aos caprichos dos seus mágicos que não permitem quaisquer mudanças - encontra-se de tudo nos seus arruamentos: duques e mercadores, actrizes e sacerdotes, soldados e comediantes.
Verdadeiro conto de fadas para adultos, O Enigma de Malacia - cuja história se completa neste volume - revela um mundo cheio de sonhos de glória mas também assombrado por terrores inquietantes. E é precisamente nos segredos deste mundo que Perian de Chirolo consegue um dia penetrar.

nº 506 - Criptozóica



Autor: Brian Aldiss
Título original: Cryptozoic
1ª Edição: 1967
Publicado na Colecção Argonauta em 1999
Capa: António Pedro
Tradução: Alexandra Santos Tavares

Súmula - foi apresentada no livro nº505 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Brian Aldiss é um dos mestres, um autor de ficção-científica com um estilo sem igual em beleza e significado, que sabe escolher temas de uma profundidade tal que põem em causa não apenas o futuro da espécie humana para além de todos os horizontes, mas também a sua própria razão de ser.
Criptozóica - cujo primeiro volume agora se apresenta - constitui a versão portuguesa de Cryptozoic e não foge à regra, sendo uma das obras mais importantes que alguma vez se escreveram, no género e além dele. A história, em si, parece simples: Edward Bush é um perito em viagens no tempo e também um assassino recrutado por um regime totalitário para ir até às origens dos tempos. 

Estavam por ali amontoados ao acaso, e, no entanto, com um significado terrível que sugeria a força que os havia atirado para lá. Pareciam algo entre o inorgânico e o orgânico. Proliferavam nas margens do tempo, personificando todas as formas espantosas que o mundo possui; a Terra estava a ter um pesadelo de pedra sobre a descendência que iria enxameá-la.
Aquelas formas copromórficas sugeriam elefantes, focas, diplodocos, estranhos animais de escamas e saurópodes, escaravelhos, morcegos, fragmentos de octópodes, pinguins, vermes da madeira, hipopótamos, vivos ou mortos.  
Surgiram também desajeitadas recordações da psique humana: torsos, ancas, virilhas ligeiramente côncavas, colunas vertebrais, peitos, uma sugestão de mãos e dedos, ombros maciços, formas fálicas: todas diferentes e no entanto todas bem fundidas com as anatomias estranhas em volta naquela agonia solitária da natureza - e todas moldadas ao acaso no betume cinzento, e ao acaso para serem obliteradas.  
Estendiam-se a perder de vista, empilhadas umas sobre as outras, como se tivessem enchido todo o Criptozóico... ou como se fossem as sinistras previsões daquilo em que se iriam tornar, assim como as pós-imagens daquilo que fora havia muito o passado... 

nº 524 - Inteligência Artificial


Autor: Brian Aldiss
Título original: Supertoys Last All Summer Long - and Other Stories of Future Time
1ª Edição: 1969
Publicado na Colecção Argonauta em Abril de 2001
Capa: António Pedro
Tradução: Alexandra Santos Tavares
Revisão: Dália Moniz

Súmula - foi apresentada no livro nº523 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":  

Inteligência Artificial é a história envolvente de um rapazinho a quem perturba e entristece o facto de não ser capaz de agradar à sua mãe. Um rapazinho que ignora que não é humano de verdade e que a sua inteligência é artificial...
Esta história que tanto fascinou o realizador Stanley Kubrick e que Steven Spielberg adaptou ao cinema, é o tema básico dos três primeiros contos da presente selecção de fábulas futuristas de Brian Aldiss. Aqui encontrará o leitor vários exemplos da capacidade profética de Aldiss, bem como da sua visão do modo como a inteligência e a tecnologia poderão vir no futuro a colaborar. Desde o pessimismo de III, onde a ganância empresarial acaba por tomar o controlo dos recursos naturais, até ao optimismo de O Botão de Pausa, onde os progressos da medicina conduzem a uma sociedade mais razoável, as  interrogações do autor concentram-se numa questão no fundo essencial: será que a humanidade é capaz de evoluir ao mesmo tempo do que a ciência e a tecnologia? 

***

No jardim de Mrs. Swinton, era sempre Verão. As adoráveis amendoeiras estavam sempre em flor. Monica Swinton pegou numa rosa cor de açafrão e mostrou-a a David. 
- Não é adorável? - disse ela.
David olhou para ela e sorriu, sem responder. pegou na flor e correu com ela através do jardim, desaparecendo atrás da casota do cão onde o cortador de relva se encontrava agachado, pronto para cortar, varrer ou correr conforme o momento. Mónica permanecia sozinha no seu impecável caminho plástico de saibro.
Ela tinha tentado amá-lo. 
Quando se decidiu a seguir o rapaz, descobriu-o no quintal a fazer flutuar a rosa na sua piscina, agitando a água com as mãos. Permaneceu lá dentro absorto, ainda com as sandálias calçadas.
- David, querido, porque tens de ser assim? Vem para dentro já e muda de meias e sapatos.
David seguiu-a sem protestar, com a cabeça escura a oscilar ao nível da cintura dela. Com cinco anos, David não tinha receio do secador ultra-sónico da cozinha. Mas antes que a sua mãe lhe fosse buscar uns chinelos, David encolheu-se e desapareceu no interior da casa.
Devia ter ido provavelmente à procura de Teddy.
Monica Swinton, de vinte e nove anos, de formas graciosas e olhos cintilantes, saiu e sentou-se na sala, numa posição elegante. Começou por sentar-se e pensar; em breve, estava apenas sentada. O tempo retardava-se nos seus ombros com a lentidão maníaca que reserva para as crianças, para os loucos, e para as mulheres cujos maridos se encontram fora a melhorar o mundo. Quase por reflexo, Monica estendeu o braço e mudou a decoração das janelas. O jardim desvaneceu-se e, no seu lugar, o centro da cidade ergueu-se com a sua mão esquerda, repleto de gente, barcos voadores e edifícios - mas ela manteve o som baixo. Permaneceu sozinha. Um mundo sobrelotado é o local ideal para se estar só.
[...]
David sentou-se ao lado da janela longa do seu quarto, brincando com uma toalha de papel e um lápis. Parou por fim de escrever e começou a fazer rolar o lápis para cima e para baixo da encosta da tampa da secretária.
- Teddy! - Chamou.
Teddy encontrava-se em cima da cama, encostado à parede, debaixo de um livro com imagens que se moviam e de um soldado gigante de plástico. O padrão da voz do seu dono activou-o e ele sentou-se.
Teddy, não sei o que escrever! 
Descendo da cama, o urso caminhou rigidamente para se ir agarrar à perna do rapaz. David ergueu-o e colocou-o em cima da secretária.
- O que é que escreveste até aqui?
- Escrevi... - pegou na carta e olhou para ela. - Escrevi: "Querida mamã, espero que estejas bem agora. Gosto muito de ti."
Fez-se um longo silêncio no quarto, até que o urso disse:
- Isso parece-me bem. Vai lá abaixo e dá-lho.
Houve mais um silêncio.
- Não está bem. Ela não irá compreender.
Dentro do urso, havia um pequeno computador que avaliou o caso através do seu programa de possibilidades. 
- Porque não o fazes de novo em lápis de cera?
David estava a olhar lá para fora. 
- Teddy, sabes no que é que eu estava a pensar? Como é que se distinguem as coisas verdadeiras das que não são verdadeiras?
O urso pesou as alternativas.
- As coisas verdadeiras são boas.
- Pergunto a mim próprio se o tempo é bom. Não me parece que a mamã goste muito do tempo. Uma vez, há muitos dias, ela disse que o tempo passava por ela. O tempo é real, Teddy?
Os relógios dizem que sim. O tempo é real. A mamã tem relógios, por isso deve gostar deles. Ela tem um relógio no pulso perto do seu mostrador.
David tinha começado a desenhar um cão nas costas da carta.
- Nós dois somos reais, Teddy, não somos?
- Nós somos reais, David. - O urso era especializado em reconfortar crianças.
Monica pôs-se a passear lentamente pela casa. Estava quase na hora de chegar o correio da tarde. marcou o número do O.L. no mostrador que usava no pulso, mas nada apareceu. Alguns minutos mais.
Podia voltar à sua pintura. Ou podia ligar para as suas amigas. Ou esperar até que Henry voltasse para casa. Ou então ir brincar com David...
Dirigiu-se ao átrio e postou-se ao fundo das escadas.
- David!
Não obteve resposta. Chamou uma segunda e uma terceira vez.
Teddy - gritou, num tom mais agudo.
- Sim, Mamã! - Após uma pequena pausa, a cabeça de pelo dourado de Teddy apareceu no cimo das escadas.
- David está no quarto, Teddy?
- David foi para o jardim, Mamã. 
- Vem cá, Teddy!
Aguardou, impassível, vendo a pequena figura peluda descer degrau a degrau, com as suas pequenas patas. Quando chegou ao fundo, Monica pegou nele e levou-o para a sala. Teddy ficou imóvel nos seus braços, olhando para ela. Sentia apenas a ligeira vibração dos seu motor.
- Fica aqui, Teddy. Quero falar contigo. - Pousou-o sobre a mesa e ele ficou à espera, como ela solicitara, com os braços estendidos para a frente e abertos no seu eterno gesto de abraçar.
- Teddy, David disse-te que me dissesses que ele tinha ido para o jardim?
Os circuitos do cérebro do urso eram demasiado simples para permitir artifícios. 
- Sim, Mamã.
- Então mentiste-me.
- Sim, Mamã.
- Pára de me chamar Mamã! Por que razão anda David a evitar-me? Tem medo de mim, ou quê?
- Não. Ele ama-a.
- Porque não conseguimos comunicar?
- Porque David está lá em cima.
A resposta obrigou-a a deter-se. Para quê perder tempo a conversar com aquela máquina? Porque não ir muito simplesmente lá acima e tomar David nos braços e conversar com ele como uma mãe que ama o seu filho faz ao filho que a ama?
Escutou o puro peso do silêncio na casa, com um tipo diferente de silêncio provindo de cada sala. No andar de cima, algo se movia muito silenciosamente - era David a tentar esconder-se dela...

Prólogo
Tentando Agradar 

I.A. (Os Super-brinquedos Duram Todo o Verão) é a história de um rapazinho que, faça ele o que fizer, não consegue agradar à sua mãe. O rapaz sente-se intrigado com isso, não se apercebendo de que é um andróide, uma construção engenhosa de inteligência artificial, tendo como o seu único aliado o seu ursinho de peluche.
Esta foi a história que mais impressionou Stanley Kubrick e que o fez decidir-se a transformá-la num filme. Cedendo a alguma persuasão, acabei por lhe vender os direitos do filme. Durante algum tempo, trabalhei no argumento com ele.
Sem me surpreender muito, achei-o genial mas preciso. Afinal, a sua independência tinha custado a ganhar. Stanley era tão duro consigo próprio como com toda a gente.
Vi um exemplo dessa sua independência quando o chefe máximo da Warner Brothers quis conhecer Kubrick. Desculpando-se com o terror de voar, Kubrick fez com que os directores, de cujo apoio financeiro ele dependia, viessem a Londres. Quando chegaram, convidaram-no a encontrar-se com eles no hotel. Kubrick disse que estava muito ocupado. Por isso, os executivos da Warner Brothers fizeram mais uma viagem a St. Albane, para o conhecer.
O tratamento do seu pessoal estava marcado pelo mesmo estigma: genial, mas preciso. Kubrick necessitava não só de confirmar a sua independência como de alimentar o seu mito, o mito de um génio eremita criativo e excêntrico.
O meu relacionamento com Stanley foi amistoso. Mencionei os seus três filmes de ficção-científica na minha história de ficção-científica, Billion Years Spree, comentando que "Dr. Estranho Amor, 2001: Uma Odisseia no Espaço e Laranja Mecânica o tinham tornado no grande escritor de ficção-científica da nossa Era." Por acaso, Kubrick comprou o livro e ficou satisfeito com o comentário. 
Telefonou-me certo dia, nos anos setenta. Foi uma surpresa. Começou por um monólogo longo, presumivelmente para testar as minhas capacidades de escuta. Fosse como fosse, devo ter passado no teste, porque me convidou para almoçar com ele. Encontrámo-nos em Julho de 1978, num restaurante em Boreham Wood.
Nessa altura, Kubrick era parecido com Che Guevara, usando botas, calças da tropa verdes, uma boina sobre o cabeço encaracolado, e barba. Falámos sobre filmes, ficção-científica, e bebemos. Foi uma conversa muito interessante, bastante prolongada. 
O Barry Lyndon de Stanley Kubrick tinha sido lançado no ano anterior e embora a fotografia seja de uma beleza incomparável, a sua frieza perfeita não conseguiu conquistar o gosto popular. Talvez Kubrick estivesse indeciso quanto ao que ia filmar a seguir. A nossa relação era cordial; encontrámo-nos para um ou dois almoços nos anos seguintes, e conversámos sempre sobre que tipo de filme poderia ter sucesso. 
Recomendei-lhe o Deslize do Tempo Marciano, um conto dos anos sessenta de Philip K. Dick. Stanley não ficou interessado. Mais tarde, passei dois anos da minha vida ocupado a tentar conseguir passar este conto para o ecrã, escrevendo o argumento em cooperação com o meu agente de media da altura, Frank Hatherley. 
Visitei, com a minha mulher Margaret, o Castelo Kubrick algumas vezes e almoçámos com Stanley e a sua mulher, Christiane, uma artista cujas telas brilhantes iluminavam as paredes. Stanley gostava de actores, e admirava-os. Achava Peter Sellers um génio. Tinha um repertório em quem confiava, que incluía Sterling Hayden, Philip Stone, Norman Rossiter, e Sellers. "Não precisas deste pedaço de diálogo", disse certa vez. "Deita-o fora. Um bom actor pode transmitir tudo apenas com um olhar".
Enquanto filmava o romance de Stephen King, The Shining, Kubrick foi necessariamente ardiloso. Emergiu novamente em Agosto de 1982, referindo numa carta em relação ao nosso almoço anterior "quando passámos a maior parte do tempo a falar da Guerra das Estrelas e no motivo pelo qual as histórias razoavelmente tolas podiam ser realmente uma forma de arte". Tínhamos certamente tido uma conversa absorvente, a tentar enumerar os elementos que fariam um filme de ficção-científica tipo conto de fadas ter sucesso. Esses elementos incluíam um rapaz de origem humilde que deveria lutar com um mal monstruoso, um grupo de companheiros diversificados, derrotar vários desafios, derrotar o mal contra todas as possibilidades, e acabar por ganhar a mão de uma princesa. Rimo-nos então, na altura: tínhamos acabado de descrever a Guerra das Estrelas quase passo a passo. 
Aquela carta de Stanley continuava a falar da minha história, a dos super-brinquedos. A pedido dele, enviei-lhe mais alguns dos meus livros, incluindo A Tapeçaria de Malácia, o O Momento do Eclipse, um colecção dos meus contos publicados por Faber & Faber, que contêm Os Super-Brinquedos Duram Todo o Verão. Stanley escreveu: "O que me ficou, no entanto, foi a crença persistente de que o conto é um excelente início de uma história mais longa, embora, infelizmente, não tenha mais ideias de como poderá ser desenvolvida. De qualquer forma, começo a pensar que o velho subconsciente não começa realmente a trabalhar em algo que não lhe pertence..."
Esta história - uma vinheta, na realidade - foi inicialmente publicada no Harper's Bazaar em Dezembro de 1969; em 1982, tive que lidar com problemas de aumentos dos impostos, de forma que a vendi com alguma relutância a Kubrick. Este comprou a maioria dos direitos, recordo-me que a palavra "perpetuidade" ocorria no contrato com bastante frequência. Em retrospectiva, vê-se que ser proprietário da história não fazia grande diferença aso processos criativos de Stanley Kubrick. Ainda não conseguira fazer um filme com ela. 
Após uma grande movimentação entre os agentes, o contrato foi assinado em Novembro de 1982. Fui então trabalhar com ele no argumento.
Uma limusina vinha buscar-me todos os dias a minha casa em Boars Hill e levava-me para o Castelo Kubrick, uma habitação do tamanho de Bienheim no exterior de St. Albane. Stanley ficava frequentemente acordado durante metade da noite, vagueando pelas suas enormes salas solitárias cheias de aparelhagens. Materializava-se de uma forma amarrotada, dizendo: "vamos apanhar um pouco de ar fresco, Brian."
Abríamos a porta que dava para os seus terrenos. Stanley acendia um cigarro e caminhávamos metade da distância de um campo de críquete, com Stanley a ofegar à minha frente. "Já chega de ar fresco", dizia então. E regressávamos novamente. Era uma espécie de piada. A nossa relação era também uma espécie de brincadeira.
A certa altura, após ter criado um novo personagem no guião, Stanley perguntava: "Brian, o que fazem as pessoas quando não estão a fazer filmes ou a escrever livros de ficção-científica?" Stanley era muito inteligente, e dedicava-se muito à sua profissão. Infelizmente, era também impaciente e não admitia discussões ou a consideração de qualquer linha de desenvolvimento de que não gostasse de imediato. 
De início, não consegui visualizar como esta vinheta se poderia transformar num filme a toda a escala. Foi então, numa manhã em que tomava o pequeno-almoço, que vi subitamente como. Já sei! - disse a Margaret. Telefonei para Stanley. Vem cá, disse ele. 
Fui lá. Contei-lhe. Ele não gostou.
E o assunto ficou encerrado. Ele nunca aceitava as coisas contrariado, dava-lhe a volta, para ver se não havia qualquer mérito nelas. Apesar de isso ser um indício de um homem inteligente, talvez houvesse também uma fraqueza na sua abordagem. 
De uma forma algo profética, quando fui de início trabalhar com ele, Stanley deu-me uma cópia maravilhosamente ilustrada da história de Pinóquio. Não vi ou não quis ver a analogia entre o David, o meu andróide de cinco anos, e a criatura de madeira que se tornou humana. Sucedia que Stanley desejava que David se tornasse humano, e desejava, também, que a Fada Azul se materializasse. Nunca se devem reescrever de forma consciente contos de fadas, é o que eu digo.
Trabalhar com Stanley era certamente instrutivo. O meu único problema era que eu tinha gozado a minha independência durante mais de trinta anos; não gostava de trabalhar com, e certamente não sob as ordens de qualquer outra pessoa. Mas o nosso relacionamento era amistoso. Se não conseguíamos sair de um impasse, íamos geralmente dar uma volta e conversar com Christiane. Ela estava geralmente a pintar numa enorme sala vazia, com janelas magníficas que davam para a estepe kubrikiana. Stanley também gostava de cozinhar o nosso almoço, que geralmente consistia em bife e feijão verde. 
Eu tinha-me recusado a ver a minha vinheta como um filme a toda a escala. Mas Stanley tentou deixar-me descansado. Disse que era mais fácil prolongar uma história curta do que encurtar um romance para fazer um filme. Um filme continha no máximo sessenta cenas, enquanto um romance podia conter centenas, que se encaixavam umas nas outras sem custos extra.
Além disso, dizia ele, tinha pegado no conto de Arthur C. Clarke, A Sentinela, que tal como os Super-Brinquedos tinha duas mil palavras, e tinha-o transformado num grande filme. Podíamos fazer o mesmo com o meu conto. Só mais tarde vi a falha nessa sua linha de raciocínio: enquanto a história de Arthur se volta para o exterior, para o sistema solar, a minha volta-se para o interior.
Começámos a trabalhar a sério. Comecei a anotar os nossos progressos num grande livro vermelho. Quando regressei a casa nessa noite, Margaret e eu tivemos uma conversa sobre estas coisas enquanto tomávamos uma bebida. Em seguida, ceámos, após o que eu regressei ao estúdio e escrevi as notas na forma de diálogo sem guião, como Stanley insistia em que eu fizesse. Essas passagens então eram enviadas por fax a Stanley. Nessa altura, era ainda invulgar ter uma máquina de fax; não podíamos ter trabalhado com tanta facilidade sem ela. 
Com essa tarefa cumprida, eu apontava num diário privado os acontecimentos importantes e triviais do dia. Havia por exemplo, a semana em que parecia que o mundo estava a cair numa recessão. Stanley manteve-se atento aos mercados de dinheiro. Chegou à sala onde eu estava a trabalhar, e aconselhou-me, taciturnamente: "Brian, se estivesse no teu lugar, vendia todas as minhas acções e quotas e comprava barras de ouro." A minha barra de ouro teria o tamanho de uma barra de pastilha elástica da Wrigley. 
No dia seguinte, quando nos juntávamos, ele era muito capaz de pegar no trabalho do dia anterior e pô-lo completamente de parte. Não admira que fumássemos muito e bebêssemos chávenas e chávenas de café...
Mas, durante algum tempo, as coisas correram bem. Escrevi um episódio de ligação chamado Levado para Fora em Fevereiro de 1983, e enviei-lho por fax nessa noite. Stanley telefonou-me imediatamente, cheio de entusiasmo. "É brilhante. Estou muito entusiasmado. A forma de se fazer ficção-científica deve ser contá-la como se fosse uma coisa vulgar, sem nada que precise de ser explicado."
Eu: "Por outras palavras, tratas o leitor/espectador como se ele também fizesse parte do mundo futuro que se está a descrever."
Stanley: "Creio que sim, só não entro é nos detalhes científicos sangrentos."
Eu: "Quanto mais se explica, menos convincente se torna."
Stanley: "Pareces ter duas formas de escrever - a brilhante, e a que não é assim tão brilhante."
Tivemos os nossos impasses. Nunca o deixei tão satisfeito como com o Levado para Fora. Embora nos fartássemos de rir por vezes enquanto trabalhávamos, não conseguíamos avançar. As coisas pareciam ficar encalhadas na areia.
Stanley não queria ter nada a ver com a minha confiança na narrativa. Salientou que enquanto um filme continha no máximo sessenta cenas, um livro continha mais, e afirmou que necessitava apenas de cerca de oito "unidades não-submersíveis", como ele lhes chamava (chegámos a três antes de nos separarmos, adaptando dois dos meus contos anteriores, Todas as Lágrimas do Mundo e Blighted Profile à linha do conto original. 
Aquele método das unidades não-submersíveis surge em 2001. Parte do mistério do filme deriva dos contrastes entre as suas secções díspares. O método funciona no seu melhor no The Shining. Aqui, quadros negros a anunciar severamente "Um mês mais tarde", ou, simplesmente, "terça-feira, quatro da tarde" avisam o público aprazivelmente que algo terrível irá acontecer e que Jack Nicholson irá estar um  pouco mais fora de si do que o habitual. 
Stanley era um homem reservado. Nunca falava a mais alguém sobre o que estava a fazer. Até agora, o livro mais perceptível sobre o trabalho de Kubrick é o de Thomas Allen Nelson, "Kubrick: no interior de um labirinto de um artista de filmes" (Indiana University Press, de 1982). Nelson faz afirmações bastante convincentes para o que os outros possam ver apenas como sendo meras inconsistências em The Shining (1980), explicando-as como pontos assentes em qualquer fantasia de horror. Apesar disso, o filme podia ter melhorado bastante se tivesse sido dada alguma sombra ao personagem de Wendy Torrance (representado por Shelley Duvall). Quer parecer-me que a senhora fala demais. 
Foi surpreendente descobrir que Stanley não tinha a certeza de para onde ir em seguida. Perguntou-me certa vez que tipo de filme poderia fazer que pudesse ter a consistência da Guerra das Estrelas, permitindo no entanto que mantivesse a sua reputação de ter uma consciência social. 
Certa ocasião, quando cheguei ao Castelo Kubrick, só falava do E.T. de Spielberg. Talvez ele admirasse a forma de como grande parte desse filme foi filmada a partir da altura da cintura, de forma a poder comunicar a visão de uma criança, assim como parte do The Shining foi filmada com uma câmara fixa através do ponto de vista do jovem Danny Torrance. Ele adorava filmes de ficção-científica. Ficámos a ver quase em silêncio grande parte do filme Blade Runner, de Ridley Scott em CD.
Stanley estava convencido de que algum dia a inteligência artificial iria dominar e a humanidade iria ser suplantada. Os seres humanos não eram suficientemente inteligentes. Durante um dos nossos impasses frequentes, discutimos a possibilidade de um colapso da União Soviética e do Ocidente enviar tanques robôs e andróides para salvar o que pudesse ser salvo. Era um acontecimento suficientemente dramático para excitar a nossa imaginação. Isto passou-se em 1982 e apercebemo-nos que poderia vir a haver um colapso económico na União Soviética - mas como iria ele suceder? Quais seriam as suas circunstâncias?
Desistimos da ideia ao fim de um ou dois dias. Mas suponhamos que tinhamos deixado evoluir os nossos pensamentos, e tivéssemos sido capazes de reproduzir os acontecimentos reais de 1989, apenas sete anos no futuro. Suponhamos que tivéssemos criado uma figura como Gorbachev como presidente da União Soviética, que tivéssemos feito a Hungria abrir os seus portões aos alemães de leste para que estes entrassem em Berlim e no Ocidente, que tivéssemos contado que o Muro de Berlim tinha sido derrubado, que os governos comunistas se tinham retirado do poder, os ditadores tinham sido executados, que tinha sido declarado o fim na Guerra Fria e do maior movimento de sempre num único dia dos povos europeus. Na realidade, tinha sido um momento ímpar na história do mundo. 
E se nós tivéssemos posto tudo isso no ecrã  em 1982? Ninguém teria acreditado. A ficção-científica é a arte do plausível. De forma que, podiam dizer os críticos, é aí que se encontra a sua fraqueza. É a vida real que segue a arte do incrível, como sucedeu no final dos anos oitenta - e continua a ser assim com a ascensão e expansão da União Europeia. 
Os anos foram-se passando. Não estávamos a chegar a lado algum. Stanley tornou-se cada vez mais impaciente. Apesar disso, a Fada Azul ressuscitou. Eu tinha a sensação de que estava a ser engolido, enquanto tentava permanecer um marido e um pai. 
Stanley apercebeu-se de um problema-chave com David, o rapaz andróide. David podia ser apresentado em filme a fingir. Mas o perfeccionismo de Stanley sugeria que teria de ser construído um verdadeiro andróide. Analisámos essa possibilidade com alguma profundidade. O primeiro obstáculo tecnológico a ser superado era fazer com que o boneco se movesse de uma forma parecida com a de um rapazinho verdadeiro - andar, voltar-se, sentar-se, etc. A tecnologia dos filmes tem progredido muito, muito desde então, é claro, e hoje em dia, a simulação por computador iria resolver o problema.
Em 1987 foi lançado o Full Metal Jacket. Este último filme sobre a Guerra do Vietname tornou-se um êxito no Japão, embora tenha tido pouco sucesso nos outros lados. Com a ajuda de trinta e seis palmeiras importadas de Espanha, Kubrick criou o Vietname no interior de umas ruínas no East End de Londres (anterior à construção de Canary Wharf). "É quase impossível construir ruínas plausíveis," dizia Stanley, "e o pôr-do-sol em Inglaterra é bastante parecido com o pôr-do-sol no Vietname." Os actores quase despidos foram filmados sob um frio de Inverno, com aquecedores para impedir que ficassem com pele de galinha. Ah, a magia dos filmes!
Por volta de 1990, encontrávamo-nos em dificuldades. Os agentes e os advogados trocavam missivas. Eu e Stanley estávamos a trabalhar num esboço sobre a ideia de inundar Nova Iorque, para que a Fada Azul pudesse emergir das profundezas. Tentei convencer Stanley de que devia criar um grande mito moderno para rivalizar com o Dr. Estranho Amor e 2001, e para evitar contos de fadas. Stanley nunca se despediu ou murmurou uma palavra de agradecimento não intencional. Em vez disso, acendeu um novo cigarro, e voltou-me as costas. E o conto dos Super-Brinquedos foi nomeado A.I. - e destinado a nunca ser feito por ele.
Stanley tinha dois tipos de génio. Para além dos seus filmes, com a sua variedade obrigatória, tinha a capacidade de manter o mundo fora da sua porta criativa, e de cultivar a sua lenda como eremita. Sempre soube que tinha pouco tempo. 
Os génios não se preocupam com as cortesias vulgares. Têm outras coisas em mente. O melhor é não nos ressentirmos com os seus maus hábitos. E nem sequer Arthur C. Clarke, o companheiro de Stanley em 2001, pôde expandir a minha vinheta num filme maior. Deve haver aqui uma lição para todos nós, se ao menos eu conseguisse descortiná-la.
Para mim, foi um grande alívio poder continuar a trabalhar à minha maneira. Tinha escrito durante anos como um dos tentáculos de Kubrick. Ele tinha muitos tentáculos. Certa ocasião, enquanto andávamos a lutar contra o conceito de usarmos um andróide verdadeiro, Stanley afirmou que os americanos apenas viam os andróides como ameaças. Eram na realidade os japoneses que gostavam de robots; por isso, seriam eles a criar os mágicos electrónicos que construiriam provavelmente os primeiros andróides genuínos. Mandou chamar Tony Frewin, a sua fiel mão direita. 
- "Ligue-me à Mitsubishi" (Vamos considerar que foi a Mitsubishi, uma vez que me esqueci de que companhia era na realidade).
- "Com quem queres falar na Mitsubishi, Stanley?"
- "Liga para o senhor Mitsubishi."
Pouco tempo depois, o telefone tocou. Stanley atendeu. A voz do outro lado disse: 
- "Oh, Mr. Stanley Kubrick? Daqui fala Mr. Mitsubishi. Em que posso ajudá-lo?"
Toda a gente no planeta conhecia o nome de Stanley Kubrick. É de esperar que um tal homem seja diferente dos outros.
Então, porque não foi o Super-Brinquedos filmado? As pessoas que se seguiram, tentando cada uma delas sem sucesso fazê-lo, foram forçadas a seguir as linhas que Stanley Kubrick tinha marcado. 
Creio que ele estava basicamente enganado. Estando obcecado com o grande sucesso dos filmes de ficção-científica da época, Stanley estava determinado a transportar a minha dolorosa cena doméstica para a galáxia. Afinal, ele tinha feito o mesmo, com grande sucesso, com a história de Clarke. 
Mas a Sentinela está voltada para o exterior, para começar. Fala de um mistério num outro local, enquanto os Super-Brinquedos falam de um mistério interior. David sobre porque não sabe que é uma máquina. É este o verdadeiro drama: como Mary Shelley disse sobre o seu Frankenstein, fala aos "misteriosos receios da nossa natureza". 
Poderia fazer-se, possivelmente, um filme sobre os Super-Brinquedos que exibisse David a confrontar a sua verdadeira natureza. Com um choque ao aperceber-se que é uma máquina. Avaria-se. Talvez o seu pai o levasse a uma fábrica onde um milhar de andróides idênticos saíssem de uma linha. Iria ele autodestruir-se? O público iria ser sujeito a um drama tenso e alarmante de claustrofobia, e deixado com as perguntas finais: "Será que tem importância o facto de David ser uma máquina? Deverá ter alguma importância? E até que ponto não seremos todos máquinas?"
Por detrás de tais labirintos metafísícos jaz a história simples - a história que atraiu Stanley Kubrick - a história de um rapazinho que nunca conseguiu agradar à sua mãe. A história de um amor rejeitado.
Stanley Kubrick morreu em 1999. O homem misterioso era agora notícia. Fiquei farto de dar entrevistas filmadas. Estava a tentar escrever um conto. Ocorreu-me ler outra novamente a minha história dos Super-Brinquedos. E, em seguida, dei comigo a contar o que se passaria a seguir. Trinta anos após aquela primeira prestação, escrevi uma segunda história, a continuação das aventuras de David e de Teddy.
Alguém veio visitar-me. Um visitante bastante jovial, Jan Harlan, o cunhado de Stanley, e seu sócio. Jan queria que eu aparecesse num documentário que estava a fazer sobre a vida de Kubrick. No final da tarde, dei-lhe a história nova, Super-Brinquedos Quando Chega o Inverno.
Jan enviou o conto para Steven Spielberg, que tinha herdado os trabalhos inacabados de Stanley. 
Entretanto, eu tinha escrito a Spielberg. Na minha carta, sugeria que David podia encontrar-se com um milhar de réplicas de si  próprio. Spielberg gostou da ideia e Jan ofereceu-se para comprar a frase com essa ideia. É claro que se fica encantado e divertido com a ideia de vender uma frase, uma única frase. Mas por essa altura, eu já tinha visto como iria terminar o ciclo de David, e tinha escrito um terceiro conto. Os três contos entre si, contêm um delinear de tudo o que é necessário para a minha ideia de um filme. Não havia necessidade de inundar Nova Iorque, ou da Fada Azul. Apenas um drama intenso e poderoso de amor e inteligência.
A história Super-Brinquedos em Outras Estações foi enviada por Jan a Spielberg. Incluía a tal frase mágica. 
Através de um acordo amigável com a Warner Brothers, Spielberg adquiriu todas as três histórias.
Apesar de me sentir satisfeito por ter sido o único homem a vender histórias a dois excelentes produtores de cinema, Kubrick e Spielberg, soube que Spielberg concordou em filmar o Super-Brinquedos - agora intitulado I.A. - como Kubrick tinha planeado fazer.
A produção começou em Long Island, em Junho de 2000. O filme será lançado, adequadamente, em 2001. 


Nota: O conto escrito por Brian Aldiss em 1969 e intitulado Super-Brinquedos, foi a obra que no ano 2001 foi adaptada para o Cinema pelo realizador Steven Spielberg, através do filme com o título A.I. - Inteligência Artificial.



Índice de contos da obra:

- Prólogo: Tentando Agradar -  pág. 5
- Os Super-Brinquedos Duram um Verão Inteiro - pág. 19
- Os Super-Brinquedos Quando o Inverno Chega - pág. 31
- Os Super-Brinquedos em Outras Estações - pág. 42
- Apogeu Novamente - pág. 57
- III - pág. 66
- A Velha Mitologia - pág. 71
- Sem Cabeça - pág. 89
- Carne - pág. 96
- Nada na Vida é Suficiente - pág. 101
- Uma Questão de Matemática - pág. 120
 - O Botão de Pausa - pág. 140
- Três Tipos de Solidão - 1) A Felicidade ao Contrário - pág. 144
- Três Tipos de Solidão - 2) Um Artista Original - pág. 154
- Três Tipos de Solidão - 3) Cubos Falantes - pág. 159
- Steppenpferd - pág. 168
- A Capacidade Cognitiva e a Lâmpada - pág. 186
- Sociedade das Trevas - pág. 189
- Galáxia Zê - pág. 219
- As Maravilhas da Utopia - pág. 228
- Tornando-se uma Borboleta Completa - pág. 231
- Um Marte mais Branco - pág. 261

nº 544 - A Primavera de Helliconia 1



Autor: Brian Aldiss
Título original: Helliconia Spring
1ª Edição: 1982
Publicado na Colecção Argonauta em Maio de 2003
Capa: António Pedro
Tradução: Alexandra Rolão Tavares
Revisão: Dália Moniz

Súmula - foi apresentada no livro nº543 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Este é o primeiro volume de uma trilogia. O segundo irá chamar-se O Verão de Helliconia, e o terceiro, O Inverno de Helliconia
Uma obra preciosa de um autor consagrado, diversas vezes publicado na Colecção Argonauta, A Primavera de Helliconia começa assim:

Foi assim que Yuli, filho de Alehaw, chegou a um local chamado Oldorando, onde os seus descendentes prosperaram nos dias melhores que estavam para vir.
Yuli tinha sete anos, era virtualmente um rapaz crescido, quando se agachou sob uma cobertura de pelo com o seu pai e olhou para a imensidão de uma terra conhecida até nessa altura como sendo Campanniat. Tinha despertado de um sono breve com o cotovelo do pai nas suas costelas e a sua vez grossa a dizer:
- A tempestade está a diminuir. 
A tempestade tinha estado a soprar vinda do oeste havia três dias, trazendo consigo neve e partículas de gelo vindas das Barreiras. Encheu o mundo com uma energia uivante, transformando-o numa escuridão cinzento-esbranquiçada, como uma voz potente a que homem algum podia resistir. O rebordo onde as coberturas de pele se encontravam assentadas pouca protecção oferecia à parte pior da tempestade; o pai e o filho nada mais podiam fazer a não ser deitarem-se ali sob a pele, adormecidos, mastigando de vez em quando um pedaço de peixe fumado, enquanto o tempo fustigava a natureza sobre as suas cabeças. 
À medida que o vento enfraquecia, a neve chegava em jorros, retorcendo-se em flocos que pareciam penas através da paisagem monótona. Embora Freyr estivesse bem alto no céu - pois os caçadores encontravam-se dentro dos trópicos - parecia ali estar suspensa e gelada. As luzes ondulavam acima deles num xaile dourado após outro, cujas franjas pareciam tocar o solo, enquanto as dobras se erguiam cada vez mais até terem desaparecido no zénite cor de chumbo do céu. As luzes pouca iluminação davam, e nenhum calor. 
Tanto o pai como o filho se levantaram por instinto, esticando-se, e batendo com os pés, lançando os braços violentamente sobre os cilindros maciços que eram os seus corpos. Nenhum deles falou. Nada havia para dizer. A tempestade tinha terminado. Tinham ainda de esperar. Em breve, sabiam, os "yelks" ali chegariam. Não teriam de manter a vigilância durante muito mais tempo. 
Embora o solo estivesse enfraquecido, não possuía quaisquer características, estando coberto de gelo e neve. Por detrás dos homens havia um solo mais elevado, também ele coberto pelo mesmo tapete branco. Só para o norte é que o terreno tinha tomado um tom cinzento escuro e sorumbático, no local onde o céu caía como um braço magoado para se encostar. No entanto, o olhar dos homens continuava voltado para leste. Após um período em que se dedicaram a darem palmadas em si próprios, quando o ar em seu redor se encheu com os vapores nebulosos da sua respiração, os homens instalaram-se novamente sob as peles enquanto aguardavam.
Alehaw tinha-se instalado com um cotovelo coberto de peles na rocha, de forma que pôde aconchegar o polegar na parte oca da sua face esquerda, apoiando o peso do seu crânio no osso zigomático, enquanto tapava os olhos com quatro dedos enrolados. 
O seu filho esperou com menos paciência. Retorceu-se no interior das peles cosidas. Nem ele nem o seu pai tinham nascido para aquele tipo de caça. A caça aos ursos nas Barreiras era a sua forma de subsistência, e a dos seus pais antes deles. Mas o frio intenso, exalado pelas bocas gélidas e altas dos ciclones tinha-os levado, assim como a enferma Onesa, para o clima mais suave dos planaltos. Por isso, Yuli sentia-se inquieto e excitado. 
A sua mãe enferma e a sua irmã, assim como a família da sua mãe, encontravam-se a alguns quilómetros de distância, e os seus tios tinham-se aventurado esperançadamente na direcção do mar gelado, com o trenó e as suas lanças de marfim. Yuli perguntou a si próprio como teriam eles viajado naquela tempestade que durara dias, se estariam a festejar naquele momento, a cozinharem peixe ou pedaços de foca no caldeirão de bronze da sua mãe. Sonhava com o sabor da carne na sua boca, na sensação áspera desta mistura com a saliva à medida que era engolida, o sabor... O seu estômago vazio deu um ronco, ao pensar em tal.
- Ali, estás a ver?
O pai deu-lhe uma cotovelada nos bíceps.
Um frente alta de uma nuvem cor de ferro ergueu-se rapidamente no céu, obscurecendo Freyr, espalhando as sua sombra sob a paisagem. Tudo se transformou num borrão branco, sem qualquer definição. Abaixo da escarpa onde se encontravam deitados, estendia-se um enorme rio congelado, o Vark, segundo Yuli tinha ouvido chamarem-lhe. Estava de tal modo coberto de neve espessa que ninguém poderia dizer que se tratava de um rio, a não ser pela ponte que o atravessava. Cobertos até aos joelhos pela neve fria, ouviram um som fraco a zunir sob os seus calcanhares; Alehaw tinha-se detido, e tinha espetado a ponta aguçada da sua lança no gelo e tinha encostado a ponta romba ao ouvido, e estava a escutar o fluxo escuro de água algures sob os seus pés. A margem longínqua do Vark estava vagamente marcada por pequenas colinas, quebradas em algumas zonas por manchas negras, onde as árvores caídas jaziam semi-ocultas pela neve. Para além disso, apenas existia o planalto monótono, infindável, até se poder observar uma linha castanha sob os xailes ameaçadores do céu longínquo a leste. 
A pestanejar, Yuli observou aquela linha fixamente. Claro que o seu pai tinha razão. O seu pai sabia tudo. O seu coração inchou de orgulho ao pensar que ele era Yuli, filho de Alehaw. Os "yelks" estavam a chegar.
Alguns minutos depois, conseguiram vislumbrar os primeiros animais, que viajavam solidamente numa frente ampla, avançando com uma vaga em arco atrás deles, onde os seus cascos elegantes levantavam a neve. Prosseguiam com as cabeças baixas, e atrás deles vinham mais da sua espécie, e ainda mais, numa vaga sem fim. Yuli teve a sensação de que eles o tinham visto e ao seu pai e que estavam a avançar directamente sobre eles. Olhou ansioso para Alehaw, que fez sinal com um dedo para que tivesse cuidado.
- Espera. 
Yuli estremeceu no interior das peles dos ursos. A comida estava a aproximar-se, comida suficiente para alimentar cada pessoa de cada tribo sobre quem Freyr e Batalix jamais brilharam, ou para Wutra tinha sorrido.
À medida que os animais se aproximavam, de uma forma firme como num passo rápido de um homem, Yuli tentou aperceber-se do quão enorme era aquela manada. Naquele momento, já metade da paisagem se encontrava coberta pelos animais que se moviam, com a textura branca e castanho-clara das suas peles, à medida que surgiam cada vez mais animais sobre a linha do horizonte. Quem é que sabia o que se encontrava naquela direcção, que mistérios, que terrores? E no entanto, nada podia ser pior do que as Barreiras, com o seu frio seco, e aquela enorme boca vermelha que Yuli tinha vislumbrado uma vez através do colapso rasgado das nuvens, a jorrar lava pela encosta fumegante...
Agora era possível ver que a massa viva dos animais não consistia apenas de "yelks", embora fosse composta por eles em grande parte. No meio da manada havia emaranhados de animais maiores, que sobressaíam como grupos de pedregulhos num planalto em movimento. Aqueles animais, maiores eram parecidos com "yelks", com o mesmo crânio longo com chifres elegantemente curvados de forma protectora para cada um dos lados, a mesma crina desgrenhada sobre uma capa de pelo espesso malhado, e o mesmo alto nas costas, situado na direcção da garupa. Mas aqueles animais tinham mais de metade da altura dos "yelks" que os encabeçavam. Eram os gigantes "biyelks", animais formidáveis capazes de levar dois homens na garupa ao mesmo tempo - segundo tinha contado um dos tios de Yuli. 
E havia mais uma terceira espécie de animal associado á manada. Era o "gunnadus", e Yuli viu os seus pescoços erguidos em todos os sítios ao longo dos lados da manada. À medida que o grupo de "yelks" se movimentava para a frente de forma indiferente, os "gunnadus" corriam excitados para os flancos, com as suas cabeças pequenas a penderem na extremidade dos seus pescoços longos. A sua característica mais notável era um par de orelhas gigantes, que oscilavam de um lado para o outro, à escuta de alarmes inesperados. Aquele era o primeiro animal de duas pernas que Yuli jamais vira; sob o seu corpo de pelos compridos, havia duas imensas pernas parecidas com êmbolos que o impulsionavam. O "gunnadu" movimentava-se com duas vezes a velocidade do "yelk" e do "biyelk", cobrindo duas vezes mais terreno, e no entanto, cada um dos animais permanecia no seu lugar em relação à manada.
Um trovão pesado e contínuo marcava a aproximação da manada. Do local onde Yuli se encontrava junto ao seu pai, aquelas três espécies podiam ser distinguidas apenas porque ele sabia onde procurar. Todas elas se misturavam umas nas outras, sob aquela luz pesada e matizada. A nuvem negra da frente tinha avançado com mais rapidez do que a manada, e cobria agora completamente Batalix: aquela corajosa sentinela não voltaria a ser vista durante dias. Uma carpete amarrotada de animais rolava sobre a terra, sendo os seus movimentos individuais distintos como as correntes de um rio turbulento.
Havia uma névoa a pairar sobre os animais ,a envolvê-los ainda mais. Era composta por suor, calor e pequenos insectos voadores cortantes que apenas conseguiam procriar no calor da manada. 
A respirar com mais rapidez, Yuli espreitou novamente e - olhai! - as criaturas da frente estavam já a confrontar-se com as margens do Vark coberto de neve. Estavam próximo, estavam a aproximar-se cada vez mais - o mundo era um inescapável e prolífero animal. Voltou a cabeça para olhar para o seu pai. Embora tivesse visto o gesto do seu filho, Alehaw permaneceu rigidamente  a olhar em frente, com os dedos cerrados, os olhos semi-fechados por causa do frio sob as suas pesadas rugas. 
- Quieto - exigiu ele.
A maré de vida encapelou-se ao longo das margens do rio, transbordou, e caiu em cascata sob o gelo oculto. Algumas criaturas, adultos que se deslocavam pesadamente, faunos que pulavam, tropeçaram nos troncos ocultos das árvores, e as suas pernas elegantes agitaram-se furiosamente antes de eles serem esmagados pela pressão da marcha. 
Agora já era possível ver os animais individualmente. Traziam as cabeças baixas. Tinham os olhos fixos, orlados de branco. Restos espessos e verdes de saliva escorriam pelas suas bocas. O frio congelava o vapor das suas narinas voltadas para cima, manchando de gelo a pele dos seus crânios. A maior parte dos animais corria, em más condições, com o pelo coberto de lama, excrementos, e sangue, ou em faixas soltas, onde os chifres de um dos outros animais os tinham espetado.
Os "biyelks" em especial, que avançavam cercados pelos seus irmãos mais pequenos, com os ombros enormes cobertos de pelo cinzento, caminhavam com uma espécie de inquietação controlada, com os olhos a girar ao ouvirem os guinchos de perigo que os ameaçava, na direcção em que eles avançavam inevitavelmente.
A multidão de animais estava a atravessar o rio congelado, a fazer agitar a neve. O som que causavam surgiu claro aos dois observadores, não só o som dos seus cascos como o som áspero das suas respirações, e um coro contínuo de grunhidos, do seu resfolegar, e tosse, o tinir dos chifres contra chifres, o batimento claro das orelhas a serem agitadas para afastarem as moscas sempre persistentes. 
Três "biyelks" avançaram juntos sobre o rio gelado. Com um som agudo, o gelo quebrou-se. Fragmentos com quase um metro de espessura surgiram à vista assim que os pesados animais caíram para a frente. Os "yelks" entraram em pânico. Os que se encontravam sobre o gelo tentaram dispersar-se em todas as direcções. Muitos deles tropeçaram e foram trucidados pelos outros. O estalar do gelo começou a espalhar-se. A água, cinzenta e feroz, ergueu-se no ar - rápida e friamente, o rio estava ainda a fluir. Avançou, quebrou-se e ergueu-se em espuma, como se estivesse satisfeito por estar livre, e os animais afundaram-se com as bocas abertas, a bramirem.
Nada deteve os animais que continuavam a avançar. Eram uma força tão natural como o rio. Não paravam de avançar, esquecendo-se dos seus companheiros que tinham caído, esquecendo-se dos ferimentos demasiado profundos abertos no Vark, fazendo uma ponte de corpos caídos, até emergirem na margem seguinte. 

***

Meu caro Clive,  

No meu romance anterior, A Vida no Oeste, procurei descrever uma situação em que a depressão se espalhava pelo mundo, pintando uma tela ampla à medida que sentia que podia tactear com segurança. 
O meu sucesso parcial provocou-me ambição e descontentamento. Resolvi começar de novo. Toda a arte é uma metáfora, mas algumas formas de arte são mais metafóricas do que outras; talvez, pensei, conseguisse um melhor resultado com uma abordagem mais oblíqua. Desenvolvi então Helliconia: um local muito parecido com o nosso mundo, com apenas uma diferença - a duração do ano. Esta era para ser o palco do tipo de drama em qeu estamos enredados no nosso século.
Para poder obter alguma verosimilhança, consultei peritos, que me convenceram de que a minha pequena Helliconia era uma mera fantasia; precisava de algo mais sólido. 
A invenção tomou conta da alegoria. O que até foi bom. Com a sugestão dos factos científicos, a minha mente consciente encheu-se de toda uma série relacionada de novas imagens. Desenvolvi-as o melhor que pude. Quando me afastava da minha concepção original - no apastron das minhas primeiras invenções - descobri que estava a exprimir dualidades que eram tão relevantes para o nosso século como para Helliconia
Não podia ser de outra forma. Pois as gentes de Helliconia, os que não são pessoas, os animais, e os outros personagens, interessam-nos apenas se reflectirem as nossas preocupações. Ninguém quer um passaporte para uma nação de lesmas falantes. 
Dedico-te então este livro para teu divertimento, esperando que o aprecies mais do que em relação à A Vida no Oeste - e talvez ainda mais para te divertir.

Do teu carinhoso Pai
Begbroke, Oxford