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nº 276 - O Feiticeiro de Terramar



Autor: Ursula Le Guin
Título original: A Wizard of Earthsea
1ª Edição: 1968
Publicado na Colecção Argonauta em 1980
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca 

Súmula - Foi apresentada no livro nº275 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":  

A chamada American New Wave, que teve como figuras de vanguarda autores como Thomas Disch, Samuel R. Delany, Roger Zelasny, etc, é por muitos considerada como uma reacção à crise daquilo que se pode chamar a "ficção-científica mecanicista", perante a realização de muitas das suas previsões, nomeadamente no campo da exploração do espaço cósmico. A New Wave caracterizou-se, de facto, pela busca de novos estilos literários e também de novos assuntos - substituindo de certo modo a science-fiction pela speculative-fiction. Daí resultaram obras de choque como Camp Concentration, de Disch - uma história simbólica e filosófica sobre o desenvolvimento da inteligência humana através de uma droga extraída da bactéria da sífilis. No entanto, a expansão deste movimento literário foi muito prejudicada pelo abuso do jogo de palavras - e, por vezes, de ideias -  intraduziveis ou muito dificilmente compreensíveis noutras línguas e culturas. No fim dos anos 60, a New Wave - de leitura difícil, mesmo na língua inglesa, dada a sua forte carga de surrealismo - acabou por se tornar uma sub-categoria da SF, e a rebelião por ela anunciada extinguiu-se. Tudo quanto dela ficou foi uma perspectiva mais larga, uma maior aceitação de temas até então ignorados ou desprezados.
Um desses temas é o da feitiçaria. Até à década de 60 - até ao aparecimento da New Wave, ninguém considerava como de SF uma novela em que a feitiçaria ou a magia tivessem um papel importante ou dominante. Mas hoje já não se pensa assim, o que explica que autores como Randall Garrett e Cliford D. Simak o tenham escolhidos para algumas das suas obras. No entanto, será dificil dizer que O Feiticeiro de Terramar  - a próxima obra da Colecção Argonauta - versa também o tema da feitiçaria e da magia. Só na aparência isso acontece. A realidade é outra - a sua autora, Ursula Le Guin, pela primeira vez traduzida na nossa língua, foi um dos elementos mais importantes da New Wave e é hoje um dos maiores nomes da SF. O Feiticeiro de Terramar (A Wizard of Earthsea) é a primeira obra da célebre Earthsea Trilogy, uma descrição maravilhosa e extremamente meticulosa de um mundo diferente, em que os valores mais íntimos - mais humanos -são focados de uma maneira sem igual.
Acrescente-se que Ursula Le Guin, longe das experiências estilísticas dos outros membros da New Wave, usa uma linguagem fácil embora magistral - afirma-se hoje que ela, em matéria de qualidade, é a "pedra-de-toque" da SF. Por isso, muito embora quando da sua publicação, em 1968, A Wizard of Earthsea fosse apresentado como uma novela juvenil, certo é que esse carácter foi desde logo ignorado, e o mesmo aconteceu com as outras obras da trilogia - The Tombs of Atuan (1971) e The Fasthest Shore (1972).
No entanto, a Trilogia de Terramar foi apenas o começo de uma carreira que se pode considerar sem igual. Já em 1969, em The Left Hand of Darkness, Le Guin mostrara a sua capacidade para tornar a SF num autêntico instrumento de intervenção social. Em 1972, essa tendência definiu-se com uma pequena novela de grande impacto: The Word for World is Forest, uma denúncia da exploração imperialista em torno da descrição de uma cultura alienígena, fascinante, em que o sonho tem um papel determinante, pois é considerado como tão válido como a realidade.
Em 1974 surgiu a obra máxima de Le Guin: The Dispossessed. Tendo por subtítulo Uma Utopia Ambígua,  é a descrição de uma sociedade anarquista - e é uma obra  perfeitamente integrada na corrente tradicional - científica - da SFThe Dispossessed obteve os prémios Hugo e Nebula. Não vulgar que uma obra consiga obter os dois prémios, mas mais raro ainda é que isso aconteça pela segunda vez a um mesmo autor: Ursula Le Guin obtivera cinco anos antes os mesmos galardões com The Left Hand of Darkness! Dito isso, tudo estará dito.

Introdução: (reproduz com ligeiras diferenças a súmula)
A chamada American New Wave, que teve como figuras de vanguarda autores como Thomas Disch, Samuel R. Delany, Roger Zelasny, etc, é por muitos considerada como uma reacção à crise daquilo que se pode chamar a "ficção-científica mecanicista", perante a realização de muitas das suas previsões, nomeadamente no campo da exploração do espaço cósmico. A New Wave caracterizou-se, de facto, pela busca de novos estilos literários e também de novos assuntos - substituindo de certo modo a science-fiction pela speculative-fiction. Daí resultaram obras de choque como Camp Concentration, de Disch. No entanto, a expansão deste movimento literário foi muito prejudicada pelo abuso do jogo de palavras - e, por vezes, de ideias - que tornava intraduzíveis ou muito dificilmente adaptáveis as obras por ela produzidas. No fim dos anos 60, a New Wave - de leitura difícil, mesmo na língua inglesa, dada a sua forte carga de surrealismo - acabou por se tornar uma sub-categoria da SF, e da rebelião por ela anunciada ficou apenas uma perspectiva mais larga, uma maior aceitação de temas até então ignorados ou desprezados.
Um desses temas é o da feitiçaria. Até à década de 60, ninguém considerava como de SF uma novela em que a feitiçaria ou a magia tivessem um papel importante ou dominante. Mas hoje já não se pensa assim, o que explica que autores como Randall Garrett e Cliford D. Simak o tenham escolhidos para algumas das suas obras. No entanto, será dificil dizer que O Feiticeiro de Terramar tenha também por tema predominantemente a feitiçaria e a magia. Só na aparência isso acontece. A realidade é outra - a sua autora, Ursula Le Guin, pela primeira vez traduzida na nossa língua, foi um dos elementos mais importantes da New Wave e é hoje um dos maiores nomes da SF. O Feiticeiro de Terramar (A Wizard of Earthsea) é a primeira obra da célebre Earthsea Trilogy, iniciada em 1968, completada com The Tombs of Atuan, em 1971, e The Farthest Shore, em 1972. A trilogia, destinada inicialmente ao público juvenil, acabou por se tornar num dos grandes clássicos da nova SF - nomeadamente pela descrição ímpar, em linguagem clara, mas muito rica, do estranho mundo de Terramar, um arquipélago vivendo na noite dos tempos, em que as dimensões humanas atingem uma amplitude e uma profundidade poucas vezes conseguidas em qualquer tipo de literatura.
Importa dizer que a Trilogia de Terramar é apenas o princípio de algo ainda maior - muito maior. Em 1969, com a sua segunda novela - The Left Hand of Darkness - Ursula Le Guin obteve os prémios Hugo e Nebula. A sua capacidade de tornar a SF num autêntico instrumento de intervenção social acentuou-se em 1972 com uma novela pequena, mas de grande impacto: The Word for World is Forest, uma denúncia da exploração imperialista, num mundo em que existe uma cultura fascinante, na qual o sonho tem um papel determinante, pois é considerado como uma forma de realidade. Em 1974 surgiu a obra máxima de Le Guin: The Dispossessed, que tem por subtítulo Uma Utopia Ambígua e é a descrição, muito cuidada, de uma sociedade anarquista, integrando-se todavia perfeitamente na corrente tradicional - científica - da SF. The Dispossessed obteve também os prémios Hugo e Nebula. Não é de modo nenhum vulgar - pode-se mesmo dizer que é único - o facto de um autor ver duas das suas novelas receberem os galardões máximos da SF, e isso explica que se diga que Ursula Le Guin é hoje a "pedra-de-toque", o padrão máximo de qualidade - de tal género literário.

Nota: a saga de Ged, o jovem feiticeiro, acompanhou-me durante toda a minha infância e juventude. Este livro e os dois que se seguem na saga, Os Túmulos de Atuan (nº 284) e O Outro Lado do Mundo (nº 293), foram talvez os livros que li mais vezes da Colecção Argonauta. Tenho sempre saudades desta saga e releio-a sempre com imenso gosto. Posteriormente, foram lançados pela Ursula Le Guin um 4º livro e depois um 5º que revisitam a saga, mas que ainda não li. Sinceramente, até tenho medo de os ler. Estes três livros formam um conjunto perfeito. E por vezes não se deve mexer no que é perfeito.
Também me questionei algumas vezes sobre se a J.K.Rowling não se terá inspirado neste livro para criar a história de Harry Potter.

nº 284 - Os Túmulos de Atuan


Autor: Ursula Le Guin
Título original: The Tombs of Atuan
1ª Edição: 1971
Publicado na Colecção Argonauta em 1981
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca 

Súmula - Foi apresentada no livro nº283 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Publicado pela primeira vez em 1971, The Tombs of Atuan (versão portuguesa, Os Túmulos de Atuan) é o 2º volume de The Earthsea Trilogy (A Trilogia de Terramar), de Ursula K. Le Guin, cuja primeira parte - O Feiticeiro de Terramar - foi publicada na Colecção Argonauta com o número 276. 
Do inestimável sabor da Trilogia, tudo foi dito então. Da autora, poderá acrescentar-se que Ursula Kroeber Le Guin - que usa indistintamente os pseudónimos de Ursula Le Guin e de Ursula K. Le Guin (o segundo com maior frequência nos últimos tempos) - nasceu em Berkeley, Califórnia, filha do antropólogo Alfred L. Kroeber e da escritora Theodora Krebler, autora de Ishi in Twow Worlds e outros livros. Frequentou o Colégio Radcliffe e a Universidade de Colômbia, e esteve durante um ano, como bolseira Fullbright em paris, onde casou com um jovem historiador, Charles Le Guin.
Tal como em O Feiticeiro de Terramar, o estilo inconfundível de Ursula K. Le Guin está presente em Os Túmulos de Atuan - o que se compreende pelo facto de a autora ser tão célebre nos domínos da fantasia e da ficção-científica como no da poesia. Registe-se, por exemplo, o seguinte trecho, que é apenas um de entre muitos do mesmo tipo:

Na última esquina do corredor ela deteve-se; depois, muito lentamente, deu o último passo, olhou e viu:
- Viu o que nunca tinha visto, nem esperaria ver mesmo em cem vidas; a grande caverna abobadada por baixo das Pedras Tumulares, não escavada pela mão do homem, mas pelos poderes da Terra. Estava coberta de cristais e ornamentada com pingentes e filigranas de calcário branco que as águas sob a terra tinham trabalhado durante séculos e séculos; imensa, com um tecto e paredes resplandescentes, brilhantes, delicadas, intrincadas, um palácio de diamantes, uma casa de ametista e cristal, da qual as velhas trevas tinham sido expulsas pela glória. 

Introdução:

Esta é a segunda parte da Trilogia de Terramar, a célebre obra de Ursula Kroeber Le Guin. A primeira parte foi publicada em volume da Colecção Argonauta, o nº276, sob o título O Feiticeiro de Terramar.

Nota: o segundo volume de uma das melhores sagas que já li ligadas à feitiçaria. Prosseguem as aventuras de Ged, o jovem mago.

nº 293 - O Outro Lado do Mundo



Autor: Ursula Le Guin
Título original: The Farthest Shore
1ª Edição: 1972
Publicado na Colecção Argonauta em 1981
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca 

Súmula - Foi apresentada no livro nº292 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta": 

The Farthest Shore (O Outro Lado do Mundo), na versão portuguesa, é o último volume da trilogia de Earthsea (Terramar), que tornou célebre Ursula Kroeber Le Guin. Tal como O Feiticeiro de Terramar (nº276 da Colecção Argonauta) e Os Túmulos de Atuan (nº284 da mesma colecção), é uma história estranha, que muitos considerarão mais próxima da magia ou da fantasia que da ficção-científica, mas que resulta imprescindível para a compreensão das obras posteriores de Le Guin. O mundo de Terramar - um arquipélago perdido - ressurge com toda a sua maravilha e todos os seus enigmas, com a sua civilização em que alguns vislumbram uma ideia da legendária Atlântida, de uma Atlântida em que a tecnologia teria sido substituída pela feitiçaria, enquanto outros a olham antes como uma recriação da não menos lendária Islandia, dos tempos de São Brandão e das suas não menos lendárias viagens. Seja como for, a verdade é que o estilo inimitável de Le Guin concede à narrativa um tom de realidade que nos leva a pensar que, no fim, Terramar não é a Atlântida, nem as Ilhas de São Brandão, mas sim algo de muito verdadeiro e de muito actual, num mundo muito distante, à luz de outro Sol, e sob outras leis da Natureza... 

Introdução:

O Outro Lado do Mundo (The Farthest Shore) é o último volume da Trilogia de Terramar (Earthsea Trilogy), de Ursula K. Le Guin, iniciada com O Feiticeiro de Terramar e com Os Túmulos de Atuan (nº276 e nº 284 da Colecção Argonauta). 
Do valor de tais obras, bastará dizer que a primeira obteve o prémio literário Horn por excelência (Horn Book Award for Excelence); enquanto Os Túmulos de Atuan obtiveram o Newberry Award e O Outro Lado do Mundo recebeu o National Book Award de 1973.
Na verdade, não se trata apenas de um tema, talvez mais perto da fantasia que da ficção realmente científica, mas mesmo assim sugestivo - Terramar será de facto um mundo de fantasia, um mundo inspirado na velha Irlanda e nas lendas de São Brandão, como alguns querem, ou um mundo paralelo, ou ainda um mundo girando em torno de outra estrela? Isso é belo, mas há mais do que isso: Ursula K. Le Guin tem um estilo inimitável, o mais belo estilo entre todos os autores modernos de fantasia e ficção - e não falta quem diga: o mais belo ou pelo menos um dos mais belos estilos em qualquer tipo de literatura.

Nota: o encerrar da trilogia sobre Ged. Posteriormente, a Ursula Le Guin viria a revisitar o mundo que criou em mais dois volumes, que todavia não chegaram a ser publicados na Colecção Argonauta. Mas durante muitos anos, esta trilogia manteve-se intocável. Não li os livros posteriores, mas considero esta trilogia das melhores obras que existem na Colecção Argonauta.

nº 319 - Expulsos da Terra



Autor: Ursula K. Le Guin
Título original: The Eye of the Heron
1ª Edição: 1978
Publicado na Colecção Argonauta em 1984
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca 

Súmula - Foi apresentada no livro nº318 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Expulsos da Terra é a versão portuguesa de The Eye of the Heron, uma das obras mais recentes de Ursula K. Le Guin. É a história de duas comunidades degredadas das Terra, que vivem noutro planeta. De um lado, os violentos e exploradores habitantes da Cidade. Do outro, os herdeiros de um movimento pacifista iniciado séculos antes na Terra, não violentos por natureza, amontoados no Bairro da Lata, na fronteira do desconhecido.
Luz, uma jovem da Cidade, não aceita os privilégios e a segurança que a sua existência de prisioneira ali lhe daria e cria uma nova identidade entre a liberdade, o companheirismo e o amor - e o duro trabalho físico - que caracteriza a vida entre os Lateiros. Por fim, dirige-se a uma expedição destas às Terras Selvagens, para fundar uma nova colónia e construir ali uma vida nova e independente.
Eis uma passagem de Expulsos da Terra

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A jovem Luz, estranha, a auto-exilada: a sua presença entre os Lateiros aguçava aquela sensação de perfeita comunidade pelo contraste, e moldava-a com a compaixão. Sabiam porque ela viera e tentavam ser bondosos para ela.
Estava sózinha entre eles, assustada e desconfiada, agarrando-se ao seu orgulho e à sua arrogância de filhinha-do-Chefe sempre que não compreendia. Mas Lev pensava que ela compreendia, ainda que as suas razões a pudessem confundir; compreendia com o coração porque ela viera até eles, confiante.
Quando lhe disse isso, quando lhe disse que ela era e fora sempre, em espírito, um deles, um dos da Gente da Paz, ela adoptou o seu olhar de desdém e disse: - Nem sequer sei quais são essas vossas ideias. Mas na verdade, aprendera muito com Vera, e durante aqueles estranhos, tensos e inactivos dias passados a aguardar uma palavra ou um ataque da Cidade, Lev falara com ela tantas vezes quantas pudera, ansiando por a integrar tanto quanto possível entre eles, no centro onde havia tanta paz e força e onde ninguém estava só.

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Introdução:

O tema da presente obra de Ursula K. Le Guin - uma das mais recentes - é ao mesmo tempo muito simples e muito profundo.
A não violência poderá ser uma resposta à violência? Até que ponto?

nº 370 - O Mundo de Rocannon



Autor: Ursula LeGuin
Título original: Rocannon's World
1ª Edição: 1966
Publicado na Colecção Argonauta em 1988
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca

Súmula - Foi apresentada no livro nº369 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Uma obra de Ursula K. LeGuin é sempre um hino à liberdade e à dignidade humana. O Mundo de Rocannon não podia ser uma excepção. É a história de um pacífico planeta, povoado por humanóides de pele escura e cabelos dourados, em que o antropólogo Rocannon trabalha calmamente - até que o planeta é invadido por forças com uma tecnologia superior, que os nativos de algum modo podem igualar. O único factor que os invasores não tomaram em conta é a presença de Rocannon. Reunindo os nativos, ele consegue voltar o poder do inimigo contra as suas próprias forças, provando que a tecnologia da guerra nada pode contra a coragem e a força de vontade.

Nota: penso que a Ursula K. Le Guin escreveu a sua obra maior com a saga de Ged, o Feiticeiro. É uma obra incontornável, maravilhosa e que penso ter sido possívelmente muito inspiradora para a J.K. Rowling. Independentemente disto, o Mundo de Rocannon é também bastante agradável. Curioso o facto da personagem principal ser um antropólogo, visto ser a profissão de ambos os pais de Ursula. Sem dúvida, uma homenagem por parte dela aos pais. 

nº 383 - Planeta do Exílio



Autor: Ursula K. LeGuin
Título original: Planet of Exile
1ª Edição: 1966
Publicado na Colecção Argonauta em 1989
Capa: A. Pedro
Tradução: Raul de Sousa Machado

Súmula - Foi apresentada no livro nº382 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta"

Ursula K. LeGuin, uma das grandes escritoras de ficção-científica, com renome mundial, é a autora do próximo volume da Colecção Argonauta, intitulado Planeta do Exílio. Texto inigualável, quer como curioso exercício de estilo quer como exemplo da mais ousada imaginação, ela como que nos introduz no fantástico universo que o Inverno domina durante anos seguidos. 
Nos últimos dias da última fase da Lua de Outono, o vento começou a soprar vindo das cordilheiras setentrionais, varrendo as florestas moribundas de Askatevar, um vento que trazia consigo o cheiro a fumo e a neve. Ligeira e furtiva como um animal selvagem, agasalhada nas suas peles, a rapariga Rolery esgueirava-se entre o arvoredo, fazendo esvoaçar as folhas caídas, mantendo-se afastada das muralhas de pedra se erguiam no flanco da colina de Tevar, evitando também as leiras despidas da última colheita.
Seguia sozinha, e ninguém a chamou. Prosseguiu ao longo de uma trilha quase invisível, virada a poente, debaixo de inúmeras raízes, desviando-se de troncos caídos ou de enormes montículos de folhas mortas.
Quando a trilha se bifurcou, no sopé da montanha da fronteira, a rapariga seguiu a direito mas, antes de ter podido dar dez passos que fosse, rodou lesta sobre os calcanhares, ao ouvir um restolhar ritmado que se aproximava por detrás.
Um corredor surgiu a descer a trilha do norte, pés descalços a martelarem o solo recoberto de folhas, a longa fita que lhe amarrava o cabeço a esvoaçar nas suas costas. Vinha do norte, sempre na mesma passada calma, ágil e incansável, e nem sequer olhou para Rolery, escondida entre as árvores; pouco depois desaparecia da vista. Levava-o o vento, seguia para Tevar com as novidades - tempestade, desastre, Inverno, guerra... Desinteressada, Rolery virou costas e seguiu o seu caminho evasivo, ziguezagueando colina acima por entre os descomunais troncos mortos e gemebundos, até que por fim, ao chegar à crista, viu o céu clarear à sua frente, e por baixo do céu o mar azul.
O flanco poente do monte fora limpo de árvores. Abrigada debaixo de uma laje, a rapariga podia contemplar o remoto e radiante ocidente, o cinzento infindável da planície alagadiça e, um pouco abaixo dela e à direita, muralhada e com os seus telhados vermelhos, alcandorada nos penhascos da orla marítima, a povoação dos nascidos-distantes. 
Altas, pintadas de cores garridas, as casas em pedra amontoavam-se umas a seguir às outras, janelas viradas para janelas, tectos seguidos por tectos, descendo os rochedos até à beira do precipício. Do lado de fora das muralhas, para lá dos penhascos, do lado sul da povoação, o solo alisava-se em campos de cultivo e em pastagens, todas elas aos socalcos, cheias de represas e canais de irrigação, cuidadosamente alinhadas como o padrão geométrico de um tapete. Da muralha da cidade, à beira das falésias, passando por cima de dunas e diques, a direito, a caminho da praia e das brilhantes línguas de areia, estendendo-se por mais de quinhentos metros, sobressaía uma ponte assente em imensos arcos de pedra, ligando o povoado a uma estranha ilha negra isolada no meio do areal. Um penhasco agreste, negro e cheio de sombras negras, qual dedo a sair das areias límpidas e reverberantes, um rochedo obscuro e tenebroso, com o topo curvado e esguio, uma escultura demasiado fantástica para poder ter sido feita por ventos e marés. Seria uma casa? Uma estátua? Um forte, um monumento funerário? Que magia teria sido capaz de o esventrar para depois construir aquela ponte incrível, nos dias remotos em que os nascidos-distantes eram poderosos e amantes da guerra?
Rolery nunca prestara grande atenção às vagas lendas de feitiçaria que andavam normalmente associadas aso nascidos-distantes, mas agora, ao contemplar o dedo negro saído do areal, pôde reconhecer toda a sua surpresa - a primeira coisa verdadeiramente estranha que ela vira em toda a sua vida: construída num passado tão remoto que nada tinha a ver com o seu, construída por mãos que nada tinham a a ver com a carne e o sangue do seu povo, imaginada por mentes alienígenas. Era sinistro, mas atraía-a. Fascinada, a rapariga quedou-se a observar uma minúscula figura que caminhava ao longo da ponte, insignificante àquela altura e, por contraste com a imensidão da construção, um pequeno ponto negro como breu, avançando lentamente na direcção das torres negras nascidas das areias brilhantes. 
O vento aqui não era tão frio; o sol brilhava por entre as abertas das nuvens, arrancando reflexos dos tectos e ruas por baixo dela. A cidade atraía-a devido à sua estranheza; sem se deter para arranjar coragem ou decisão, indomável, Rolery desceu a saltitar o flanco da montanha e entrou pelo alto portão da cidade murada. 
Lá dentro manteve o mesmo passo leve e ágil, o andar descuidado que o orgulho a obrigava a adoptar, se bem que o coração lhe parecesse querer sair do peito quando olhava para as lajes cinzentas, lisas e perfeitamente alinhadas da rua alienígena. Olhava para a esquerda e para a direita, de esguelha, para as casas altas e esguias, com os seus telhados esquinudos, reparando, admirada, nas janelas de rocha transparente... afinal a lenda era verdadeira! À frente de algumas das casas havia um rectângulo de terra onde despontavam flores multicoloridas; vinhas virgens roxas e cor de laranja trepavam pelas paredes pintadas de azul ou verde, vividas no meio das tonalidades cinzentas da paisagem outonal. Junto ao portão nascente, a maior parte das casas estavam vazias, soturnas na sua solidão, sem aquelas curiosas janelas brilhantes e transparentes. Mais abaixo, contudo, as casas estavam habitadas, e quando lá chegou começou a cruzar-se nas ruas com alguns dos nascidos-distantes.

nº 391 - A Cidade das Ilusões



Autor: Ursula K. LeGuin
Título original: City of Illusions
1ª Edição: 1967
Publicado na Colecção Argonauta em 1990
Capa: A. Pedro
Tradução: Raul de Sousa Machado

Súmula - Foi apresentada no livro nº390 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":
No meio da floresta, um homem nu, de olhos estranhos cor de âmbar, coberto de lama, arranhado, olha em redor para os habitantes da floresta, estranhos habitantes que o fitam com estupefacção. Quem seria este estranho que nunca viram antes? Que vinha ele fazer à Terra, onde viviam pequenos grupos isolados em completo estado de semi-barbarismo? Que destino era o desse homem de olhar estranho não-humano e como iria ele salvar a Terra dos devastadores e dos mentirosos que a invadiam? Tratava-se de um homem adulto, sem rasto, sem memória, sem passado, com um olhar que não seria humano, mas que era inteligente. Os habitantes da floresta nunca tinham visto nada semelhante. Nada sabiam da Idade de Ouro da Liga dos Mundos. Sempre que um dos grupos de homens da Terra tentava renascer das cinzas, os invasores destruíam tudo num círculo vicioso de aniquilação e medo, de paralisia e horror. Como sair do círculo infernal, como abater o inimigo que tudo parecia dominar de fora, dos mundos extraterrestres? Só um homem o podia fazer, esse homem tinha de provar à humanidade dispersa e a si próprio quem era, quais os seus poderes e qual o destino comum pelo qual tinham de combater em conjunto.