nº 540 - Renascer 2



Autor: Maureen F. McHugh
Título original: Mission Child
1ª Edição: 1991
Publicado na Colecção Argonauta em Dezembro de 2002
Capa: António Pedro
Tradução: Alexandra Rolão Tavares
Revisão: Dália Moniz 

Súmula - foi apresentada no livro nº539 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

- Jan! - disse ele. - Olá. Queria falar contigo. 
- Sim, Sasha?
- Estou a fazer chá. Queres uma chávena?
- Não, obrigada - disse eu.
- Sabes, não é chá. O chá vem da Terra, e isto, isto não sabe a chá, mas também sempre é melhor do que nada. 
Isso não me interessava, na realidade, mas acenei afirmativamente. 
- Queres falar comigo?
- Tu não gostas de mim - disse ele, e sorriu como um cachorro. - Não, não faz mal. Mas somos mais parecidos do que o que tu pensas. - Sentou-se no banco ao lado da mesa longa. - Eles, na sua maior parte, estão unidos. Falam em inglês, e pensam em inglês. Até o inglês do Henri é bom. É como se fosse um pedaço do lar deles - todos este inglês. Mas nós os dois, nós somos estrangeiros. Não temos ninguém com quem falar. Por isso, podíamos ser amigos. - Franziu o sobrolho ao ver a expressão do meu rosto. - Está bem, não somos como amigos. Estou a pensar em como definir-nos. Somos como soldados, estamos juntos. Estamos do mesmo lado, não estamos?
Encolhi os ombros.
- Vem até ao meu quarto. Tenho uma coisa para ti, e acho que vais gostar. 
Sasha não era um homem bonito, mas não era com um cachorro grande como Paul e Henri e como tantos dos homens do outro mundo. Tinha um rosto que parecia já ser demasiado velho. Tinha a pele escura e enrugada sob os olhos e o seu maxilar estava sempre azul por causa da barba. Ainda achava que havia algo de mau nele. Mas não queria ser mal-educada. 
Dirigimo-nos então para o seu quarto. Era igual ao do Jovem Chang e ao meu, só que ele tinha lá coisas. Tinha uma cama desdobrável com uma armação de metal. Os cobertores estavam em desordem, e o colchão estava à vista. Havia uma mesa, um espelho e alguns caixotes com roupa. Em todo o lado havia papéis e as suas coisas de trabalho. 
Olhei para mim no seu espelho. Havia muito tempo que não via o meu reflexo num espelho maior do que aquele de latão que eu pegava com a mão. Fiquei surpreendida. 
Se me perguntassem, eu teria dito que não pensava realmente em mim como sendo um homem ou uma mulher. Quando contei à mãe do Jovem Chang que era uma mulher, foi apenas por essa ter sido uma forma mais fácil de lhe dizer que eu não era quem ela pensava. Mas tinha o rosto duro, como o de um homem. E rugas em volta da boca. Não era assim tão velha, não mais do que Sasha, mas parecia-o.
- O que é? - perguntou Sasha.
Apontei para o espelho.
- Há muito tempo que não me via. - Tive de sorrir. - Não sou lá muito bonita, pois não?
Ele sorriu. 
- Não és. Mas és inteligente, hoje quando eles tentaram "empedrejar-nos", foste esperta.
- "Empedrejar-nos?" Foi isso que disseste?
Ele acenou afirmativamente. 
- Eles estavam a apedrejar-nos.
- Sim, o teu inglês não é mau. Precisas é de trabalhar os tempos dos verbos. - Ele encolheu os ombros. - e eu também. - Procurou algo num caixote, e retirou uma garrafa com um líquido claro. - Isto é como o uísque. É da minha terra. Chama-se vodka. 
Retirou a tampa, deu um golo, e passou-me a garrafa. Cheirei-a. Era algo acre, como o uísque, e tinha outro odor, a especiarias. Provei. 
- É uma espécie de vodka chamada vodka de pimenta. Gostas?
Não tinha bem a certeza. 
- Toma mais um pouco. Tenho estado a guardá-la, mas não é tão bom quando a bebemos a sós.
Era boa. Devia ter dois tipos de fogo. 
- Deve ser boa para a neve - disse eu. 
- É boa no Inverno - disse ele. 
- Também há neve, na tua terra?

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