nº 249 - Exilados da Terra



Autor: Ben Bova
Título original: Exiled from Earth
1ª Edição: 1971
Publicado na Colecção Argonauta em 1978
Capa: Manuel Dias
Tradução: Eurico da Fonseca

Súmula - Foi apresentada no livro nº248 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":
A Terra, no século XXI. Um governo mundial para uma população de 20.000 milhões de pessoas. Falta de alimentos e falta de água. Cidades decadentes, tornadas em covis de bárbaros. Um ambiente em explosivo - e o governo mundial a procurar, desesperadamente, manter a estabilidade.
Lou Christopher, perito em computadores, é o elemento principal de um projecto de manipulação genética. Dentro de um ano, os cientistas poderão produzir supergénios... ou autómatos vivos. Mas antes que o trabalho esteja completo, os chefes do governo mundial concluem que ele é uma ameaça para a desejada estabilidade. Prendem Lou, juntamente com os geneticistas, e anunciam que os cientistas, com as suas famílias, serão exilados da Terra. Passarão as suas vidas a bordo de um satélite artificial:
Kaufman ficou de pé por um momento, de mão no ar como se quisesse falar de mais alguma coisa. Depois, lentamente, como uma boneca pneumática com uma fuga, abateu-se sobre a cadeira.
- Ninguém lamenta mais esta acção drástica que o Conselho de Ministros - disse Kobryn à assistência silenciosa. - Vocês são os melhores cientistas deste mundo. Mas para que milhares de milhões de habitantes do mundo disponham de estabilidade, alguns milhares têm que ser sacrificados. As vossas condições a bordo da estação orbital, aidna que o espaço não abunde, serão agradáveis - serão até luxuosas, tanto quanto possível. Não queremos fazer-lhes mal. Tentámos encontrar uma alternativa. Não há nenhuma. E é absolutamente imperativo que o vosso trabalho em engenharia genética não afecte a humanidade. Estamos a tentar evitar o desastre. Espero que compreenda.
Uma condenação dura e injusta? Sem dúvida. Mas suponha-se o que poderá acontecer quando os cientistas se encontram no satélite artificial, em companhia de um especialista em propulsão interstelar...
Eis o tema de Exilados da Terra - (Exiled from Earth), de Ben Bova - não apenas um autor de ficção-científica, mas ele próprio um cientista. Aqui vos deixamos mais alguns extractos desta surpreendente obra:
Lou sentou-se com Kori, Frederick e Janda numa das últimas filas. Viu Kaufman e Stherland na fila da frente, junto ao professor DeVreis.
O grande visor começou a iluminar-se. Uma voz disse:
- Cavalheiros, vão ouvir o Excelentíssimo Ministro da Segurança, Vassily Kobryn. 
A imagem do rosto pesado e sério de Kobryn formou-se no visor.
- Russo - murmurou Kori.
- Cavalheiros - disse lentamente Kobryn. - É infelizmente meu dever explicar-vos a razão por que foram arrancados ao vosso trabalho e aos vossos lares e trazidos para este lugar. Creiam que o Conselho de Ministros pensou longa e duramente antes de se decidir a realizar esta acção drástica.
Isto vai ser mau, compreendeu Lou. Ele está a preparar-nos para qualquer coisa pior do que tudo quanto nos aconteceu até agora.
Kobryn prosseguiu, com uma expressão grave: - Como sabem, o governo trabalha há mais de trinta anos para estabelecer neste planeta um ambiente pacífico, em que se possa viver. Os nossos esforços têm sido tornados extremamente difíceis devido a dois factores: nacionalismo e crescimento populacional. Supomos que tenhamos conseguido sucesso em ambas as frentes. Não há mais exércitos nacionais e não há possibilidade de uma grande guerra entre nações. E o crescimento da população mundial estabilizou-se nos últimos dez anos. Sem dúvida que vinte mil milhões é muito mais do que qualquer pessoa pode designar por óptimo, mas estamos a tentar fornecer a essa população um ambiente em que se possa viver.
- E as cidades? - perguntou alguém.
- Silêncio!
Kobryn sentiu-se quase satisfeito pela interrupção. Respondeu: Sim, as cidades. Admito que a maior parte das maiores cidades do mundo são completamente selvagens... é impossível viver nelas segundo as regras da civilização. Para falarmos francamente, perdemos a batalha nas cidades gigantes; na verdade, começámos demasiado tarde. Mas não desistimos. Uma porção considerável do nosso trabalho está a ser devotada a programas de longo prazo, para gradualmente trazermos de novo as cidades para a civilização.
- Porque é que estamos aqui? - perguntou uma voz forte.
Com um movimento de cabeça, Kobryn disse: - Estou a chegar a esse ponto. Compreendem, vivemos num mundo perigosamente sobrepovoado. Muitos pensam que ultrapassámos o ponto do qual não se volta - que a nossa população é demasiado grande. Pensam que os bárbaros das grandes cidades nos esmagarão, mais tarde ou mais cedo. Mesmo os mais optimistas, entre os nossos, concordam que a população actual é demasiado grande, e nós estamos constantemente à beira do desastre. Se as colheitas falham em qualquer parte do mundo, se um grande tremor de terra ou uma tempestade nos escapa... as repercussões poderão ser trágicas para todo o mundo.
Eliminámos as guerras e evitámos a fome em grande escala. Mas por um fio. Podemos suportar uma poupulação de vinte mil milhões, mas somente se mantivermos a sociedade mundial absolutamente estável. 

Introdução:

Poderá um governo, por razões políticas, restringir a investigação científica, nomeadamente no campo da genética?
Dir-se-ia que essa é uma pergunta que não tem resposta no presente - uma pergunta que só poderá ser feita em tempos futuros, quando as investigações desse género forem possíveis, e tenham consequências prováveis que determinem acções governamentais, tomadas - pelo menos em princípio - em nome do bem geral. O que explicaria que Ben Bova fosse tomar esse tema para a presente obra  - Exilados da Terra.
No entanto, a verdade é que a investigação genética está já sujeita a severas restrições. O receio que essa investigação afecte os mecanismos da hereditariedade, produzindo vírus ou bactérias cujos efeitos não possam ser dominados, tem sido expresso por organizações governamentais e por instituições científicas. Fala-se menos da possibilidade da manipulação das características dos animais - nomeadamente do homem - mas é óbvio que ela também é receada. Acima de tudo.
Tão grande é esse receio, que em meados de Dezembro de 1977, os Institutos Nacionais de Saúde dos E.U.A.ordenaram - pela primeira vez - que um laboratório (o da Escola Médica de Harvard) cessasse as investigações que estava a fazer sobre a recombinação do ácido desoxirribonucleico (vulgarmente designado por DNA), a substância activa dos genes, e logo a chave química da hereditariedade de todos os seres vivos. A recombinação, é uma técnica que permite o "enxerto" de genes de espécies diferentes - de um ser humano e de uma bactéria, ou mesmo de um animal e de um vegetal. É considerada útil para o estudo da química da genética e possivelmente para a preparação de medicamentos e para o tratamento de algumas doenças de bases genética. Mas as autoridades - administrativas e científicas - receiam que, na falta de procedimentos de segurança adequados, algo de muito grave - mesmo irreparável - possa acontecer. Daí a proibição. Uma proibição que é a prova da clarividência de Ben Bova, ao escolher este mesmo tema para a sua obra.

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