nº 548 - O Verão de Helliconia 2



Autor: Brian Aldiss
Título original: Helliconia Summer
1ª Edição: 1983
Publicado na Colecção Argonauta em Outubro de 2003
Capa: António Pedro
Tradução: Alexandra Rolão Tavares
Revisão: Dália Moniz

Súmula - foi apresentada no livro nº547 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

A ignorância inalterável e bruta do povo... trabalham e não se aperfeiçoam. Ou então, não trabalham. Isso não faz qualquer diferença. Não estão interessados em nada mais para além da sua própria aldeia - não, para além dos seus próprios umbigos. Olhem para eles, para aqueles preguiçosos! Se eu fosse assim tão estúpido, ainda seria um vendedor ambulante no Parque da Cidade de Oldorando...
O filósofo que fazia tais considerações encontrava-se deitado sobre travesseiros, com almofadas atrás da cabeça, e ainda uma outra sob os seus pés descalços. Junto à sua mão direita, repousava um copo do seu Exagerador favorito, a que tinham sido acrescentados gelo e limão, enquanto o seu braço esquerdo apertava uma jovem mulher com cujo seio esquerdo ele brincava ociosamente. 
A audiência para quem ele estava a fazer tais comentários - e que excluía a mulher jovem, cujos olhos se encontravam fechados - era composta por duas pessoas. O seu filho, que estava encostado à amurada do barco onde viajavam, com os olhos semicerrados e a boca semiaberta, e que tinha ao seu lado um cacho de guingue-guingue amarelas e azuis que comia, cuspindo ocasionalmente um caroço para o rio.
Encostado ao toldo onde se encontrava protegido pela sombra, jazia um jovem pálido que transpirava bastante e que balbuciava ainda mais. Estava coberto por um lençol listrado, sob o qual movimentava incessantemente as pernas; estava cheio de febre e tinha-o estado desde que o navio partira de Matrassyl na sua viagem para sul. Sendo aquele um dos seus intervalos cada vez menos lúcidos, mal parecia capaz de compreender a filosofia do outro homem mais velho.
O que não impediu o homem de prosseguir.
- Naquela última paragem, perguntei a um velho tolo que se encontrava encostado a uma árvore se achava que estava a ficar mais calor de ano para ano. A única coisa que ele disse foi: - Sempre esteve calor, marinheiro, desde o dia em que o mundo foi feito. - E em que dia é que isso sucedeu? - perguntei-lhe. - Na Era do Gelo, segundo ouvi dizer. - Foi essa a sua resposta. Na Era do Gelo! Não têm qualquer sentido. Não conseguem aprender nada. Vejamos a religião, por exemplo. Eu vivo num país religioso, mas não acredito em Akhanaba. E não acredito em Akhanaba porque consigo pensar por mim próprio. Mas os nativos dessas aldeias não acreditam em Akhanaba - não porque conseguiram descortinar as coisas, como eu, mas simplesmente porque não pensam...
Interrompeu-se para apertar com mais firmeza o seio esquerdo da jovem e tomar mais um gole do Exagerador.
- ... eles não acreditam em Akhanaba porque são demasiado estúpidos para acreditar. Adoram todos os tipos de demónios. Outros, Nondads, e dragões. Ainda acreditam em dragões... e veneram Myrdeminggala. Pedi ao meu gerente que me mostrasse a aldeia. Há um retrato de Myrdeminggala em quase todas as cabanas. Tão parecido com ela como eu, mas que "tem como intenção" ser ela... Mas, como estava a dizer, não se interessam por nada mais para além dos seus próprios umbigos.
- Estás a magoar-me o seio - disse a jovem.

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