nº 332 - Muito Depois da Meia-Noite 2



Autor: Ray Bradbury 
Título original: Long After Midnight
1ª Edição: 1974
Publicado na Colecção Argonauta em 1985
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca 

Súmula - Foi apresentada no livro nº331 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

O segundo volume e último de Muito Depois da Meia-Noite contém também onze histórias surpreendentes - onze histórias como só Ray Bradury pode escrever. 
Eis como começa a primeira:
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Intervalo à Luz do Sol

Entraram no Hotel de Las Flores numa tarde quente e verde dos fins de Outubro. O pátio interior ardia com flores vermelhas, amarelas e brancas, como chamas, que iluminavam o pequeno quarto deles. O marido era alto, de cabelos negros e pálido, e parecia que tinha andado vinte mil quilómetros para dormir: atravessou o pátio de tijoleira, levando consigo alguns cobertores, atirou-se para o pequeno leito do pequeno quarto com um suspiro de fadiga e ficou ali. Quando cerrou os olhos, a mulher de cerca de vinte e quatro anos, com cabelos amarelos e óculos de tartaruga, sorrindo ao gerente, Mr. Gonzales, correio do quarto para o carro e deste para o quarto. Primeiro transportou duas malas, depois uma máquina de escrever, agradecendo a Mr. Gonzales, mas recusando com firmeza a sua ajuda. E depois transportou um grande pacote de máscaras mexicanas que tinha arranjado na vila do lago de Patzcuaro, e voltou ao carro outra vez para ir buscar mais caixas e pacotes pequenos, e até um pneu sobresselente que eles tinham medo que algum nativo fizesse rolar pela rua empedrada, durante a noite. O rosto corado do esforço, cantarolou baixinho quando fechou o carro, examinou as janelas e correu de volta para o quarto onde o marido estava deitado, os olhos fechados, numa das duas camas.
- Meu Deus - disse ele, sem abrir os olhos. - Disse-te para escolheres um colchão "Simmons". - Deu uma palmada fatigada na cama. - É duro como uma pedra.
- Não falo espanhol - observou a mulher, ali parada, começando a mostrar-se desesperada. - Devias ter entrado e falado tu próprio ao proprietário.
Ele abriu os olhos cinzentos apenas um pouco e, voltando a cabeça, observou:
- Olha, conduzi durante toda a viagem. Limitaste-te a permanecer sentada a olhar para a paisagem. Tu é que tratas do dinheiro, dos alojamentos, da gasolina e tudo o mais. É o segundo lugar onde chegamos e encontramos colchões duros.
- Lamento muito - disse ela, ainda de pé, nervosa.
- Gosto de pelo menos dormir de noite, é tudo quanto peço.
- Disse que lamentava muito.
- Nem sequer apalpas as camas?
- Parecem boas.
- Tens de as apalpar. - Deu uma palmada na cama e um soco do seu lado.
A mulher sentou-se na sua cama e experimentou-a:
- A mim parece-me muito bem.
- Bem, não.
- Talvez a minha cama seja mais macia.
Ele rolou sobre si próprio e estendeu a mão para dar um soco na outra cama.
- Podes ficar com esta, se quiseres - disse ela, tentando sorrir.
- Também é dura - retorquiu ele, suspirando, e deitou-se de costas, fechando de novo os olhos.
Ninguém mais falou mas o quarto estava a tornar-se frio, enquanto lá fora as flores ardiam nas moitas verdes e o céu era imensamente azul. Por fim, ela levantou-se, pegou na máquina de escrever e na mala e dirigiu-se para a porta.
- Onde é que vais? - perguntou ele?
- Vou voltar ao carro. Vamos procurar outro sítio.
- Senta-te, vamos ficar aqui esta noite, meu Deus, e amanhã mudar-nos-emos.
Ela olhou para todas as caixas, caixotes e bagagens, para as roupas, para o pneu, os olhos a faiscarem. Pousou a máquina de escrever no chão.
- Raios partam isto! - gritou ela, de repente. - Podes ficar com o meu colchão. Dormirei sobre as molas.
Ele não disse nada. 
- Podes ficar com o meu colchão - repetiu ela. - Só te peço que não fales mais nisso. Toma! - Puxou a coberta e começou a tirar o colchão.
- Talvez seja melhor - concordou ele, abrindo os olhos, muito sério.
- Tu podes ficar com os dois colchões, por Deus! Eu posso dormir num leito de pregos! - Gritou ela. - Basta que deixes de te lamentar.
-Cá me arranjarei. - Ele voltou a cabeça. - Não seria justo para contigo.
- Será muito justo se deixares de te queixar por causa da cama; não é tão duro como isso, meu Deus, e dormirás se estiveres de facto cansado. Jesus, Joseph! 

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Nota do Editor: neste segundo e último volume de Muito Depois da Meia-Noite, Ray Bradbury afasta-se algumas vezes da ficção-científica pura, entrando no domínio do insólito. Mas Bradbury é Bradbury...

Índice dos Contos:

Intervalo à Luz do Sol ........................................................................  7
Uma História de Amor .......................................................... ............. 41
O Desejo ........................................................................................... 55
Para Sempre e a Terra ...................................................................... 67
A Melhor Parte da Sabedoria ............................................................ 89
Querido Adolfo .................................................................... ........... 107
Os Milagres de Jamie ........................................................... .......... 129
Os Jogos de Outubro ........................................................... .......... 141
O Pão de Centeio ................................................................... ....... 153
Muito Depois da Meia-Noite ................................. .................... ..... 159
Trouxe Uma Barra de Chocolate para Si .............................. .......... 167

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