nº 256 - Trevas nas Estrelas



Autor: Edmond Hamilton
Título original: The Haunted Stars
1ª Edição: 1960
Publicado na Colecção Argonauta em 1978
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca

Súmula - Foi apresentada no livro nº255 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta": 

Edmond Hamilton é um dos autores mais conhecidos da Colecção Argonauta. E é também um dos nomes mais antigos e mais célebres da ficção-científica. Nascido em 21 de Outubro de 1904, no Ohio, era vinte anos depois empregado dos caminhos-de-ferro da Pensílvânia, quando resolveu dedicar-se à carreira das letras. Viu publicado o seu primeiro trabalho - The Monster of Mamurth - em Agosto de 1926, na revista Weird Tales. Nos três meses seguintes, nessa mesma revista, surgu a sua série Across Space, que desde logo lhe deu fama.
Em 1947 Hamilton publicou (entretanto, tornara-se num dos autores de maior nomeada) na revista Amazing, a sua obra The Star Kings, uma space-opera que teve um êxito invulgar e cuja sequela - Return to the Stars - foi publicada na Colecção Argonauta, com o título de Regresso aos Céus (nº237)
Edmond Hamilton foi também o criador do Captain Future, cujas aventuras, surgidas primeiro na revista do mesmo nome, em 1940, se tornaram num dos maiores êxitos da rádio e da TV nos Estados Unidos.
The Haunted Stars - que na nossa língua recebeu o título de Trevas nas Estrelas - é também uma das últimas obras de Edmond Hamilton, e também uma das mais curiosas, escrita, como sempre, num tom épico, mas já bem distante da space-opera. É uma história do "futuro próximo" - do dia em que a URSS acusa os EUA de terem violado o acordo sobre a exploração da Lua. E da descoberta - na Lua - de máquinas e inscrições deixadas por uma civilização que visitara o satélite natural da Terra por 300 séculos antes...
Eis algumas das suas páginas iniciais: 

Muito tempo depois, Robert Fairlie recordar-se-ia do simples acto de embarcar no avião da tarde no aeroporto de Boston como o momento em que começara a mover-se num novo e assustador universo. Mas então, parecera-lhe apenas uma agradável interrupção na sua calma rotina académica.
Logo depois da descolagem, abriu o jornal que comprara no terminal. Olhou somente de relance a primeira página, em que se lia um título: OS SOVIÉTICOS ACUSAM OS EUA DE VIOLAREM O ACORDO SOBRE A LUA. Não estava muito interessado naquela controvérsia continuada - os Russos estavam sempre a criar problemas por uma coisa ou outra desde que a segunda guerra mundial terminara, alguns anos antes. Passou às páginas interiores e começou a consultar as colunas.
Um pouco presumidamente, pensou: "Evidentemente que não deve haver nada sobre mim. Mas talvez haja."
Havia. No entanto era apenas um parágrafo escondido em frente à página feminina e o seu nome estava errado. Dizia que o Doutor Robert Farley, professor de linguística da Universidade de Massachusetts e autoridade notável nos "hieróglifos" carianos (ele franziu a testa ao ver tal palavra), fora chamado a Whashington para ajudar o Institudo Smithsoniano numa investigação filológica.
Não era muito, pensou Fairlie, desapontado. Mas um jornal não tinha grande importância. O Jornal de Estudos Filológicos por certo falaria mais do assunto. Para um jovem professor universitário - trinta e três anos era pouca idade, naquele campo - era uma coisa certamente prestigiante. 
Depois ele diria ocasionalmente, nas reuniões da Faculdade:
- Um tipo que conheci no Smithsonian Institute disse-me...
Perguntou a si próprio que trabalho teria o Smithsonian para ele fazer. Tinham-se limitado a escrever que o seu trabalho nas inscrições carianas os havia convencido de que ele os podia ajudar, e pediam-lhe para ele arranjar um substituto temporário e ir falar com eles. Não perdera tempo e seguira a sugestão. Era fácil deixar de ensinar a lei de Grimm a estudantes aborrecidos, quando surgia a perspectiva de uma verdadeira investigação.
A noite veio e Fairlie pôs de parte o jornal. O passageiro que estava ao lado dele, um homem de negócios de meia-idade, pelo que parecia, apontou para o título e disse-lhe:
- Devíamos obrigar esses malandros a calarem-se.
Fairlie, pouco disposto a trocar frases feitas, disse:
- Talvez tenha razão.
- Por certo que tenho - disse o outro. - Sempre que podem dizem que nós é que queremos a guerra. Foi Berlim, Suez, Cuba, e agora esse negócio de Gassendi. que demónio têm eles que ver com o que fazemos em Gassendi?
O homem continuou a falar e por fim Fairlie fechou os olhos, fingindo dormir. Acabou por adormecer de facto, até que a hospedeira lhe tocou no ombro e lhe disse que estavam a chegar ao aeroporto de Washington.
Quando Fairlie desceu do avião, vestiu apressadamente o sobretudo. Um vento frio, de Março, soprava através do aeroporto e limpara o céu, tornando-o estrelado e brilhante. Fairlie entrou no terminal cheio de gente e bem iluminado e ia procurar a bagagem, quando um homem se dirigiu para ele e lhe estendeu a mão.
- Mr. Fairlie? Sou Owen Whiters, e represento o Smithsonian.
Fairlie mostrou-se surpreendido, e depois lisongeado.
- Não fazia ideia de que alguém viesse esperar-me.
Whiters sorriu-se ligeiramente. Era um homenzinho de uns quarenta anos que parecia um advogado de província.
- Você é mais importante do que pensa. Vou tratar da sua mala. E tenho um carro à sua espera.
O carro era um sedan negro e Whiters conduziu-o hábilmente quando saíram do terminal através de uma multidão de táxis e contra uma catarata de faróis, na outra via. Por fim saíu da estrada para uma larga rua periférica. Não se dirigiam para as luzes do centro de Whashington, mas Fairlie concluiu que o outro estava a seguir um caminho menos congestionado.
A sua conclusão mostrou-se falsa quando Whiters disse com toda a naturalidade:
- Tivemos a sorte de lhe arranjar um transporte directo, de modo que não fosse obrigado a parar em Washington.
Fairlie voltou-se e olhou para ele:
- Transporte para onde?
- Para o Novo México. É onde vai trabalhar.
- Ninguém me tinha dito isso!
Foi a vez de Whiters se mostrar surpreendido e um pouco desnorteado.
- Não lhe disseram? Meu Deus! Outro exemplo de ineficiência burocrática.
- Mas porquê o Novo México? Que quer o Smithsonian que eu vá lá fazer?
Whiters encolheu os ombros, sem tirar as mãos do volante.
- Não sei. Sou apenas um funcionário administrativo. Tudo quanto sei é que é trabalho de campo.
Depois acrescentou:
- Chegámos.
Na escuridão da estrada, havia uma longa fila de luzes e uma torre com muitas outras luzes. Uma alta vedação de rede separava tudo isso da estrada, e Whiters virou o carro para uma entrada onde havia um posto de guarda. Parou e um jovem de uniforme, com uma expressão grave, olhou para os papéis que Whiters lhe entregou.
- Muito bem, pode seguir directamente para a pista - disse ele.
Whiters entrou no campo.
- Que é isto: um aérodromo da Força Aérea? -  perguntou Fairlie.
 Whiters moveu a cabeça afirmativamente.
- É verdade. Como disse, tivemos a sorte de lhe conseguir transporte num avião da Força Aérea que vai sair daqui esta noite. Poupa o seu tempo e o nosso dinheiro. Como sabe, os nossos fundos não são ilimitados.
Passou por um edifício comprido e baixo e entrou com o carro na pista. Fairlie olhou em volta. Nunca estivera numa instalação militar e sentiu-se confundido. Imaginara sempre que houvesse por lá muitos aviões a descerem e a subirem, mas não havia nada disso. As luzes estendiam-se a perder de vista, em filas, e um pequeno jacto, negro e silencioso, estava na pista. Nada mais do que isso.
Por outro lado, tinha esperado por uma visita ao Instituto, no dia seguinte, um gabinete calmo, uma calma discussão com outros estudiosos. Em vez disso, com a maior indiferença, ia ser transferido para o Novo México, onde possivelmente só havia um problema qualquer com línguas indígenas. Fosse como fosse, Farlie pensou, ressentido, que poderiam ter dito a alguém para o avisar. Aquilo era um procedimento indigno de uma instituição científica.
Whiters parou o carro junto dos pequenos aviões. Fairlie não sabia muito de tipos de aviões, mas aquele parecia um jacto muito rápido. Havia luzes perto dele, e um mecânico de fato-macaco afastava-se do aparelho, limpando as mãos.
- É este - disse Whiters. - Eu levo a sua mala. 
Fairlie ficou estupefacto.
- Este avião? Ms eu pensei...
Sai dentro de pouco tempo. É um R-404, um aparelho de reconhecimento. - Quando um homem desceu do avião, Whiters disse: - Aí está o capitão Kwolek. Capitão... Mr. Fairlie
Fairlie sentiu-se agoniado. Por Deus! Um daqueles foguetes de lata que corriam pelos céus, uivando, a velocidades fantásticas. Ele não queria viajar numa coisa daquelas. Mentalmente, amaldiçoou Whiters por ter sido prestimoso ao onto de lhe arranjar um transporte daqueles.
Mas Whiters e Kwolek pareciam encarar aquilo com toda a naturalidade. Possivelmente as pessoas ali, em Washington, consideravam muito natural que se partisse de noite, num jacto, para o Novo México, para a Formosa, ou para Inglaterra. O capitão Kwolek, um jovem de rosto largo com um nariz redondo, deu-lhe um forte aperto de mão e olhou-o de modo que levou Fairlie a tornar-se de súbito consciente da sua aparência desajeitada e nada dinâmica. Calou o protesto que ia fazer. A sua vaidade não lhe permitia mostrar-se assustado.
- Obrigado por me dar uma boleia, capitão - disse Fairlie, com que ele desejava que fosse um ar natural. 
- Não incomoda nada - disse Kwolek. - Quer subir? Levarei a sua mala. Adeus, Mr. Whiters.
Fairlie subiu, tropeçando uma vez na aba do seu sobretudo e sentindo que estava a fazer figura de parvo. Espreitou e entrou num interior incrívelmente repleto de metais e outras coisas que cheiravam a óleo. Outro jovem, de uniforme, moreno e de aparência boa mas dura, ajudou-o a enfiar-se num assento estreito junto do qual estava uma estranha estrutura metálica.
Tenente Buford - disse ele, apresentando-se. - É melhor que aperte imediatamente o cinto. É o lugar do fotógrafo, mas esta noite Charlie não irá connosco.
Isso pouco significava para Fairlie. Teve dificuldade em passar o cinto por cima do sobretudo, e entretanto Kwolek passara com dificuldade por ele e sentara-se na frente.
Ouviu-se um rugido infernal e Fairlie teria dado um salto vertical se não fora o cinto. Espreitou pela janela, mas não estavam a mover-se. Kwolek fez qualquer coisa com as mãos e o rugido reduziu-se. O piloto voltou-se e disse:
- Devo ter autorização de partida dentro de um momento, Mr. Fairlie.
- Ah, sim - disse Fairlie. Sentia-se furioso porque o tratavam como se ele fosse um velhote, num avião de passageiros. Ele tinha apenas mais seis ou sete anos que eles, no máximo, e ainda que tudo aquilo fosse novo para ele...
O rugido tornou-se num uivo e o avião saltou em frente. Fairlie sentiu que estavam a acontecer coisas, na boca do seu estômago. Agarrou-se ao suporte da máquina fotográfica, a seu lado, e apesar disso, tentou mostrar-se despreocupado. Diabos o levassem se deixasse que aqueles dois jovens o tratassem paternalmente. Subiram depresssa, as luzes a fugirem, e por estranho que parecesse o uivo pareceu ficar para trás, enquanto o avião rasgava a própria noite.
Kwolek olhou de novo para trás e ergueu a voz:
- Sente-se bem?
Fairlie disse que sim com a cabeça e sublinhou: - Muito bem! - Ao fim de algum tempo perguntou: - Onde é que descemos, no Novo México?
- Na base Morrow - respondeu Kwolek, sem se voltar.
Fairlie olhou para o capacete do piloto - que era tudo quanto via dele - e, depois de hesitar algum tempo, disse:
- Deve haver algum engano.
Kwolek encolheu os ombros:
- Não houve engano nenhum.
Mas tinha que haver! - pensou Fairlie. Sabia muito bem o que era a base Morrow. Todo o mundo sabia. Era o espaço árido do Novo México de onde os foguetes da grande expedição lunar americana tinham subida e de onde os foguetes de abastecimento ainda estavam a ser enviados para a base de Gassendi. E era um lugar bem guardado. Havia quem dissesse que seria mais fácil entrar nos subterrâneos de Fort Knox que em Morrow, especialmente agora, com toda aquela controvérsia furiosa sobre as bases lunares americanas e soviéticas.
Fairlie soltou o cinto e avançou, a tropeçar e a escorregar, para se agarrar às costas do assento de Kwolek e dizer enfáticamente ao seu ouvido:
- Oiça, há aqui um engano qualquer. Eu sou o Professor Robert Fairlie, da Universidade de Massachusets, Departamento de Linguística. Nada tenho que fazer em Morrow e não quero suportar por mais tempo as consequências de um erro que alguém cometeu.
Kwolek abanou a cabeça.
- Não há erro algum. Por favor sente-se e aperte novamente o cinto, Mr. Fairlie.
- Mas use o seu bom senso, homem! - disse Fairlie. - Eles não querem um perito em linguística em Morrow!
Kwolek encolheu os ombros.
- Deram-me ordem de receber o passageiro Robert Fairlie em Washington e de o levar o mais depressa possível a Morrow. Compreende? Não há erro algum.

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