nº 338 - Onde Mora o Mal



Autor: Clifford D. Simak
Título original: Where the Evil Dwells
1ª Edição: 1982
Publicado na Colecção Argonauta em 1985
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca 

Súmula - Foi apresentada no livro nº337 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

A meio caminho entre a fantasia e a ficção-científica, as obras de Clifford D. Simak são inigualáveis. No mundo alternativo que Simak descreve em Onde Mora o Mal, as Terras Vazias separam os bárbaros do Leste da civilização duas vezes milenária de Roma e da Igreja. mas as Terras Vazias não estão realmente vazias - estão cheias com os mitos mais tenebrosos da humanidade e um poder mais horrível que o de todos os mitos.
É então que quatro seres humanos decidem invadir a terra do Mal. Cada um deles tem uma razão pessoal. Harcourt, ainda que com relutância, decide socorrer a sua noiva, raptada pelo Mal num ataque terrorista. Sonhando com a restauração do prestígio, cada vez menor da sua abadia, um abade resolve reconquistar um prisma fabuloso dentro do qual a alma de um santo foi aprisionada por um feiticeiro. O Homem dos Caracóis, vai procurar uma morte mais bondosa do que a vida. E a jovem Yolanda... as suas razões são, para ela própria, um mistério, pois procura uma resposta a um pergunta que não sabe qual seja.
E assim entram nas Terras Vazias, em segredo. Mas a notícia da sua chegada e dos seus intentos já é conhecida e os habitantes da Terra preparam-se para o combate. Têm atrás de si o mais tenebroso dos Velhos Poderes, aguardando cuidadosamente as vítimas cujas almas procura para se libertar.
Eis como se inicia esta estranha aventura:

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Harcourt viu o dragão quando voltava para casa, da caçada da manhã. Voava pelo rio abaixo, a bater as asas como um pano ao vento, o pescoço de serpente esticado, como se a cabeça e o pescoço estivessem a esforçar-se formidavelmente para transportar o pesado corpo através do ar. A cauda longa e torcida arrastava-se atrás dele.
Apontou-o ao Homem dos Caracóis, que cavalgava atrás dele, antes de um terceiro cavalo que estava carregado com o veado e o javali que abatera no começo do dia.
- O primeiro dragão do ano - notou Harcourt.
- Agora vemo-los poucas vezes - comentou o Homem dos Caracóis. - Já não restam muitos.
"Tinha razão" - pensou Harcourt. Não havia muitos daquele lado do rio. A maior parte deles, através dos anos, tinha-se deslocado para o Norte. Ali, segundo geralmente se acreditava, trabalhavam com o Mal, actuando como batedores para espiarem os movimentos da nuvem de bárbaros que pairava, esfomeada, na orla da Terra Vazia.
- Em tempos havia um ninho de dragões a montante do rio - lembrou Harcourt. - Pode ser que ainda restem lá alguns.
O Homem dos Caracóis riu-se:
- Foi onde tu e Hugh tentaram apanhar o dragão.
- Era uma cria pequenina.
- Pequenino ou grande, um dragão não é coisa com que se brinque. Creio de que descobriste isso. Onde poderá estar Hugh agora?
- Não tenho a certeza. Talvez Guy saiba. A última vez que tive notícia dele, estava em qualquer parte nos matos da Macedónia. Era encarregado de um posto de comércio. Vamos deixar a caça na abadia. Bastar-nos-á o javali. Esses fradinhos aflitos, de Guy, poucas vezes têm uma refeição aceitável. Guy têm-na, evidentemente. Creio que ele visita o castelo, tantas vezes quantas pode, mais pela mesa que pomos do que pela companhia que encontra. Pedir-lhe-ei notícias de Hugh.
- Pomposo como ele é, mesmo assim gosto do abade Guy.
- Para mim - disse Harcourt, - é um velho e valioso amigo. Ele e Hugh são irmãos e não posso contar as vezes que, nos velhos tempos, ele nos extraía a Hugh e a mim das lixeiras onde estávamos sempre a cair, mas não sei o que ele faria se eu lá estivesse sozinho.
Saíram do bosque para a terra arada, verde com o nascer do trigo, seguindo um estreito carreiro que corria entre os dois campos. Uma calhandra saiu do trigo, subiu como uma seta para o céu e deixou atrás o seu trinado.
Em frente, mas ainda a distância, podiam ser vistas as duas torres redondas do castelo. Não era bem um castelo - recordou Harcourt, pensativo, - nem um daqueles belos edifícios que haviam sido construídos por senhores de grande riqueza em séculos idos. Mas era o seu lar e isso era tudo o que um castelo devia ser. Sete anos antes, resistira ao assalto quando o Mal atravessara, em massa, o rio para atacar a abadia e o castelo. Tinham saqueado a abadia e, durante três dias e três noites, tinham lançado um assalto contra o castelo. O preço, no entanto, fora demasiado alto para eles, e por fim recuaram e retiraram-se através do rio para a Terra Vazia. Harcourt era então um jovem. Ao pensar nisso, recordou-se como os homens do castelo tinham defendido a muralha e dado largas ao seu contentamento quando o Mal abandonara o sítio.
À direita, na beira da ravina que ia até ao rio, levantavam-se as agulhas altaneiras da abadia. A terra lavrada escondia o resto do edifício, com as agulhas a distinguirem-se acima do espesso arvoredo que cobria a ravina e as margens do rio. 
- O teu avô estava a dizer, outro dia, que o teu tio Raul também desapareceu durante muito tempo. Disse que nunca esperara voltar a vê-lo. Essa longa ausência deitou o velho muito abaixo. Ele preocupa-se muito com a vagabundagem do filho.
- Bem sei. O tio Raul partiu pouco depois do assalto.
- Disse ao teu avô que ele voltaria. Um destes dias reaparecerá, foi o que eu disse. Gostaria de estar certo disso.
- Neste mundo não se pode ter a certeza de nada - respondeu Harcourt.
À distância, as duas agulhas da abadia, com toda a sua leveza, tinham dado a impressão de que se tratava de um alto edifício, de grande majestade. De perto, o aspecto era outro. As agulhas mantinham a sua frágil beleza, mas a estrutura de suporte, ainda que adequadamente sólida, mostrava os sinais da idade e do descuido da manutenção. A fuligem das fogueiras de lenha, o verde-gris do cobre oxidado, os sucos pegajosos das folhas caídas, alojadas em centenas de recantos e nunca limpas, coloriam a pedra com manchas feias e sujidade. Aqui e ali as próprias pedras estavam lascadas pelo sol e pelo gelo. Todo o edifício tinha um aspecto de desmazelo.
No pátio as galinhas corriam, cacarejando e arranhando o chão. Um pavão decrépito tropeçava ridiculamente, abrindo uma cauda na qual faltavam metade das plumas. Patos chapinhavam e gansos bufavam. Um porco quase adulto, torcendo o rabo energicamente, chafurdava num maciço de ervas, procurando arrancá-las. 
A aproximação de Harcourt e do Homem dos Caracóis fora notada. Monges apareciam de toda a parte e corriam em todas as direcções. Um dos monges pegou na rédea da montada de Harcourt e outro dirigiu-se ao Homem dos Caracóis.
- Não é preciso - disse o Homem dos Caracóis. - Não vou ficar. Levarei o veado à cozinha e, depois, irei para o castelo. Queremos o javali para o jantar e demorará algum tempo a prepará-lo.
O monge que segurava o cavalo de Harcourt propôs: - Comida para o animal e água também... 

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