nº 550 - O Inverno de Helliconia 2



Autor: Brian Aldiss
Título original: Helliconia Winter
1ª Edição: 1983
Publicado na Colecção Argonauta em Dezembro de 2003
Capa: António Pedro
Tradução: Alexandra Rolão Tavares
Revisão: Dália Moniz

Súmula - foi apresentada no livro nº549 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Na lareira, ardia uma fogueira de gás biológico. Perante ela, os dois irmãos conversavam. De vez em quando, o irmão mais magro estendia o braço para passar a mão sobre o mais forte, enquanto este último relatava a sua história. Odirin Nan Odim, conhecido por todos os seus parentes como Odo, era um ano e seis meses mais velho do que Eedap Mun Odim. Era muito parecido com o seu irmão, a não ser na figura crucial, pois a Morte Gorda ainda teria de fazer a sua terrível aparição em Rivenjk.
Os dois irmãos tinham muito para contar um ao outro, e muitos planos para fazerem. Tinha chegado recentemente ao porto um navio com soldados do Oligarca, e a atribuição das leis contra as quais Odim tinha lutado estava a começar a preocupar também Odo. No entanto, os shiveninki estavam menos dispostos a receber ordens do qeu os uskuti. Rivenjk era ainda um local agradável para se viver. 
O que restara da preciosa porcelana que Odim tinha trazido para o seu irmão tinha sido bem recebido.
- Em breve essa porcelana se irá tornar ainda mais preciosa - disse Odo. - Tal qualidade excelente nunca mais poderá a voltar ser conseguida.
- Isso porque o clima se está a deteriorar à medida que avançamos para o Inverno. 
- E o que se segue, irmão, é que o combustível para acender as fornalhas irá começar a esgotar-se, e o seu preço a subir. E a vida das pessoas também se irá tornar mais dura, de forma que estas se irão satisfazer com pratos de latão.
- O que tencionas fazer nessa altura, irmão? - perguntou Odim.
- As minhas ligações comerciais com Bribahr, o país vizinho, são excelentes. Até consigo enviar os meus bens para Kharnabahr, muito para norte daqui. A porcelana não é a única mercadoria de quer preciso para fazer tais rotas. Temos de nos adaptar, negociar com outras mercadorias. Tenho algumas ideias para...
Mas Odirin Nam Odim nunca conseguia estar sossegado durante muito tempo. Tal como o seu irmão, albergava na sua casa uma série de parentes. Alguns deles, volúveis e volumosos, apressaram-se a ir para junto da lareira, numa discussão que apenas Odo poderia resolver. Alguns dos parentes de Eedap Mun, que tinham sobrevivido à peste e à viagem, tinham-se alojado nas casas dos seus parentes de Rivenjk, e mais uma vez se tinha levantado a questão do espaço ficar a abarrotar.
- Talvez não te importes de vir comigo  para ver o que está a suceder - disse Odo.
- Ficaria muito satisfeito. A partir de agora, serei a tua sombra, irmão. 

***
Meu querido Clive,

Cá está. Passaram-se sete anos desde que comecei a pensar nestes assuntos. Este volume irá ser publicado pela primeira vez num ano em que ambos alcançamos uma nova década, e quando a minha idade será exactamente o dobro da tua.
Enquanto passeava no jardim de Hilary a pensar no tipo de palavras a utilizar, ocorreu-me que a pergunta a fazer, será: por que motivo desejam tanto os seres humanos uma união próxima uns com os outros e no entanto, se mantêm isolados com tanta frequência? Será que o factor do isolamento é parecido com o que nos faz sentir, como espécie, tão afastados do resto da natureza? Talvez a Mãe Natureza que é descrita nestas páginas tenha provado não ser perfeita. Tal como uma mãe verdadeira, também ela teve os seus problemas - a uma escala cósmica.
Assim sendo, a culpa não é de todo nossa, ou dela. Temos de aceitar a falta de perfeição nos esquemas das coisas, aceitar a mosca das listas amarelas. O tempo, no qual todo o drama é representado, é, tal como J. T. Fraser descreve, "uma hierarquia de conflitos por resolver". Temos de aceitar essa limitação com a equanimidade de Lucretius, e aborrecermo-nos apenas com as coisas com as quais podemos efectivamente zangarmo-nos, como a loucura de produzir e dispor de armas nucleares.  
Tais assuntos não são geralmente o objectivo da literatura. Mas eu senti a necessidade, como estás a ver, de me arriscar a incorporá-los.
Agora terminei, por fim. A composição desorganizada de Helliconia encontra-se perante ti, e espero que aprecies os resultados.

Do teu pai afectuoso.
Boars Hill
Oxford

Nota: o vídeo de apresentação sobre os livros do nº501 ao nº550 que em princípio seria colocado aqui, está no tópico da obra nº552. A razão é que é nesse livro que termina o formato de sempre da Colecção Argonauta, que se manteve durante cinco décadas, pelo que fez logicamente mais sentido fazer o vídeo até esse número.

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