nº 290 - O Labirinto Mágico 2



Autor: Philip José Farmer
Título original: The Magic Labyrinth
1ª Edição: 1980
Publicado na Colecção Argonauta em 1981
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca 

Súmula - Foi apresentada no livro nº289 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta": 

Eis o começo do segundo volume de O Labirinto Mágico:

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Ele chegara a Virolando havia trinta e três anos. Fora sua intenção ficar ali somente o tempo suficiente para falar algumas vezes com La Viro, se tal lhe fosse permitido. Depois iria a qualquer parte para onde a Igreja o mandasse. Mas La Viro pedira-lhe para ficar ali, ainda que não tivesse dito porquê ou por quanto tempo. Ao fim de um ano ali, Goering adoptara um nome em esperanto, o de Fenikso (Fénix). 
Aqueles tinham sido os mais felizes anos das suas vidas. E não tinha razão para pensar que não passasse mais ali.
Aquele dia seria muito semelhante aos outros, mas a semelhança era agradável e pequenas variedades o embelezariam. 
Depois do pequeno almoço subiu a um alto edifício construído no cimo de uma agulha rochosa na margem esquerda. Ali fez uma prelecção aos estudantes do seminário até meia hora antes do meio-dia. Desceu rapidamente para o solo e juntou-se a Kren numa pedra-graal. Depois disso subiram a outra agulha e suspenderam-se de planadores, lançando-se da agulha a cento e oitenta metros de altura.
O ar acima de Virolando resplandecia com milhares de planadores que subiam e desciam, girando, mergulhando, subindo, rasando, dançando. Hermann sentia-se como um pássaro - ou antes: como um espírito livre. Era uma ilusão de liberdade, toda a liberdade era ilusão, mas aquela era a melhor.
O seu planador era vermelho vivo, assim pintado em memória da esquadrilha que ele comandara depois de Manfred von Richthofen. O escarlate era também o símbolo do sangue dos mártires da Igreja. Havia muitos nos céus, misturando a sua cor com o branco, negro, amarelo, laranja, verde, azul e roxo de outros aparelhos. Aquela terra tinha a bênção da hematite e de outros minérios de que podiam ser obtidos pigmentos. Era abençoada sob muitos aspectos. 
Hermann passou por cima e por baixo das pontes que uniam as casas, cobrinto os espaços entre as agulhas. Passava perto dos pilares de madeira e pedra, por vezes demasiado perto. Era um pecado arriscar a vida, mas ele não podia resistir àquilo. A velha emoção do voo, na Terra, voltara, dobrando de êxtase. Não havia rugido de motor nos seus ouvidos nem fumos de óleo nas narinas, nem sensação de estar encerrado.
Por vezes passava um balão e acenava às pessoas nas barquinhas de vime, por baixo deles. Durante os feriado, ele e Kren embarcavam num balão, subiam a mil metros e deixavam que o vento os levasse Rio abaixo. Nas férias flutuavam todo o dia, falando, comendo, fazendo amor naquele espaço tão pequeno, enquanto vogavam sem um sobressalto, sem um golpe de vento, pois o balão avançava à mesma velocidade dele.
Evacuando o hidrogénio ao pôr do Sol, desciam na margem, metiam o invólucro dobrado na barquinha e regressavam por barco no dia seguinte.
Ao fim de meia-hora, Hermann passou a rasar ao longo d'O Rio, voltou e desceu para a margem. Como centenas de outros, desmontou o planador e depois voltou com um fardo incómodo à agulha da qual saltara.
Um mensageiro com um rosário de flores amarelas e vermelhas deteve-o. - Irmão Fenikso, La Viro deseja vê-lo.
- Obrigado - respondeu Hermann, mas sentiu um pequeno choque. O bispo-chefe teria decidido que chegara o momento de o enviar para outro lado?
O Homem aguardava-o nos seus aposentos particulares, no templo de pedra vermelha e negra. Hermann foi conduzido através das salas de altos tectos até um pequeno quarto e a porta de carvalho fechou-se atrás dele. O quarto estava mobilado de uma maneira simples. Uma grande secretária; algumas cadeiras de couro de peixe; outras mais pequenas de bambu; dois catres; uma mesa com jarros de água e alguém álcool perfumado, copos, caixas de charutos, cigarros, acendedores e fósforos; um bacio; dois "graais"; cavilhas nas paredes nas quais estavam penduradas roupas; uma mesa ao lado de um espelho de mica, na parede; outra mesa com os "batôns", pequenas tesouras e pentes que os "graais" por vezes forneciam. Havia alguns tapetes de fibra de bambu e uma pele de peixe em forma de estrela no chão. Quatro archotes ardiam, as pontas enfiadas em suportes nas paredes. A porta privada na parede do exterior estava aberta, deixando entrar ar e luz. Frestas no tecto forneciam uma ventilação adicional.
La Viro levantou-se quando Hermann entrou. Era enorme, com quase dois metros de altura e muito moreno. O seu nariz era o bico de uma águia gigante.
- Bem-findo sejas, Fenikso - disse ele numa voz profunda. - Senta-te. Queres uma bebida, um charuto?
- Não, Jacques. Obrigado - respondeu Hermann. Sentou-se na cadeira que lhe foi indicada.
O bispo-chefe voltou ao seu lugar. - Ouviste falar no barco gigante de metal que vem pel'O Rio acima? Os tambores dizem que está a cerca de oitocentos quilómetros da fronteira sul. Isso significa que deve alcançar a nossa fronteira centro de dois dias. 
- Disseste-me que conhecias esse homem chamado Clemens e o seu sócio João Sem-Terra. Não sabes o que aconteceu depois de te terem morto, evidentemente. Mas aparentemente eles conseguiram repelir os inimigos e construir o barco. Não tardarão a passar através do nosso território. Pelo que ouvi não são guerreiros e portanto não temos de recear problemas. No fim de tudo dependem da cooperação daqueles que são proprietários das pedras-graal ao longo d'O Rio. Têm o poder bastante para obterem tudo quanto quiserem, mas não o usam a menos que sejam obrigados a isso. No entanto ouvi alguns relatos perturbadores sobre o comportamento de alguns tripulantes quando o barco parou para - como se chama? - a folga em terra. Houve alguns incidentes muito maus, principalmente com bebedeiras e mulheres.
- Perdoa-me, Jacques. Isso não me parece o tipo de pessoas que Clemens teria a bordo. Ele estava obcecado e fez algumas coisas que não devia ter feito para conseguir que o barco fosse construído. Mas não é, ou pelo menos não era, pessoa para aceitar tal comportamento.
- Depois de tantos anos, quem sabe se ele não mudou? Mas há uma coisa: o nome do seu barco não é o que me disseste. Em vez de "Não se Aluga" é "Rex Grandissimus".
- Isso é estranho. Parece mais um nome escolhido pelo rei João.
Pelo que me disseste desse João, ele pode ter morto Clemens e tomado posse do barco. Qualquer que seja a verdade, quero que vás receber o barco na fronteira.
- Eu?
- Conheces os homens que construíram o barco. Quero que vás a bordo quando ele chegar à fronteira. Deverás avaliar a situação e saber que tipo de pessoas há a bordo. Além disso, estimarás o potencial militar do barco.
Hermann mostrou-se surpreendido.
- Fenikso, falaste-me da história que esse gigante narigudo - Joe Miller? - contou a Clemens e que Clemens contou a outros. Se for verdadeira, há uma grande torre no meio do mar no pólo norte. Esses homens querem entrar lá, se puderem. Penso que a intenção é má.
- Má?
Porque essa torre é, por certo, obra dos Éticos. A gente do barco quer penetrar na torre para descobrir os seus segredos e talvez para tornar cativos ou mesmo matar os Éticos.
- Não tens a certeza disso - observou Hermann.
- Não, mas é razoável supor.
Nunca ouvi Clemens dizer que desejasse o poder. Ele queria apenas alcançar as nascentes.
- O que ele diz publicamente e o que pensa em particular podem ser coisas diferentes.
Hermann retorquiu:
- De mesmo modo, que nos importa o que eles façam, mesmo que possam vir a alcançar a torre? Por certo que não pensas que as suas pobres máquinas e armas possam fazer algum mal aos Éticos. Os humanos devem ser como vermes perante eles. De qualquer modo, que podemos fazer quanto a eles? Não podemos usar da força para os deter.
O bispo inclinou-se para a frente, as grandes mãos morenas a agarrarem-se à borda da secretária. Fitou Hermann como se o fosse descascar, camada por camada, até ver o que estava no centro.
- Há qualquer coisa errada neste mundo, terrivelmente errada! Primeiro, as pequenas ressurreições pararam. Parece que isto aconteceu pouco depois da tua última ressurreição. Lembras-te da consternação que essa notícia causou? 

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