nº 334 - Os Dias Futuros



Autor: Arthur C. Clarke
Título original: The Best of Arthur C. Clarke, 1937-1955
1ª Edição: 1973
Publicado na Colecção Argonauta em 1985
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca 

Súmula - Foi apresentada no livro nº333 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Os melhores contos escritos por Arthur C. Clarke, de 1937 a 1955 - eis o conteúdo de Os Dias Futuros! Com uma introdução escrita pelo próprio Clarke, contando os princípios da sua carreira - incluindo até um trecho da primeiríssima história que ele viu publicada... em 1933, aos dezasseis anos de idade!
Dito isto, nada mais seria necessário dizer sobre a importância tremenda, para o coleccionador e para o amador de ficção-científica, do próximo volume da Colecção Argonauta. Mas há alto que não pode ser ignorado: entre as onze histórias incluídas no volume, há uma que é das mais humanas, das mais pungentes, das mais espantosas que alguma vez foram escritas, em qualquer género literário: A Estrela (The Star).

Nota do Editor:

Muitos são os que conhecem Arthur C. Clarke com autor do argumento do filme 2001, Uma Odisseia no Espaço. Nem todos sabem, todavia, que ele foi o consultor técnico desse filme - o cérebro que esteve por detrás de todas as imagens maravilhosas que prenunciaram a viagem à Lua e que, em boa parte, só virão a tornar-se realidade quando o Homem puder ir até muito mais longe - até Marte ou às Luas de Júpiter. E menos são os que sabem que isso não aconteceu por acaso: Clarke é uma das raras pessoas que conjuga em si o cérebro de um verdadeiro cientista e o de um grande escritor. Foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do radar, na Grã-Bretanha; foi um dos primeiros presidentes da British Interplanetary Society, e foi o inventor do satélites de comunicações. A chamada "órbita das 24 horas", aquela em que são colocados os satélites geoestacionários, é também denominada, muito apropriadamente, como "Órbita de Clarke".
Há mais e muito mais: foi Clarke que, na sua obra As Areias de Marte, sugeriu pela primeira vez a possibilidade de se "terraformar" - transformar - um planeta, criando nele um ambiente semelhante ao da Terra, usando somente os meios naturais. Foi ele quem sugeriu pela primeira vez a possibilidade de usar o campo gravitacional dos planetas para impelir - como o roçar de bolas num jogo de bilhar - as sondas e as naves de modo mais profundo no espaço. E quando em 2010 sugeriu a presença de vida em Europa - uma das Luas de Júpiter -, pareceu pela primeira vez ter falhado: as sondas Voyager revelaram que esse satélite não passa de um grande bola de enxofre, expelido continuamente por enormes vulcões. No entanto, simultaneamente, as Voyager mostraram que outra das luas - Io - estava perpétuamente coberta de gelo... e cientistas da NASA sugeriram que debaixo dessa crosta gelada podia existir vida.
As histórias contidas no presente volume - escolhidas pelo próprio autor - são, elas próprias, a história de Arthur C. Clarke. Incluem uma das primeiras que ele viu publicada, aos 20 anos de idade - e também uma deliciosa referência ao seu primeiríssimo texto de ficção-científica, publicado em 1933. Isso e muito mais - e uma das mais extraordinárias em todos os tempos e em qualquer género literário: A Estrela (The Star), publicada pela primeira vez na revista Infinity Science Fiction, em 1955.
Para começar, será bom ler o que o próprio Arthur C. Clarke diz sobre si e sobre os seus contos.

1933 - Uma Odisseia na Ficção-Científica - (por Arthur C. Clarke)

Que faz "funcionar" um escritor? Um elemento na sua composição é certamente o desejo de se mostrar. A minha mais antiga memória dos tempos da escola, é a de estar em frente da turma a contar histórias sobre animais pré-históricos. Nisso devo ter sido encorajado pelo professor da aldeia, Mr.Tipper. Tive sorte com os meus professores; ainda que alguns fossem melhores do que outros, não me recordo de um que fosse mau.
Quando tinha cerca de nove anos de idade (do outro lado do Atlântico, Goddard acabara de lançar o seu primeiro foguete a propulsantes líquidos...), Mr.Tipper sentiu que eu necessitava de horizontes académicos mais largos do que os que podiam ser proporcionados por Bishop Lydeard, que tinha uma população de cerca de 500 pessoas. Portanto, fui transferido para o Liceu de Huish, Tantou, onde recebi a minha educação secundária e permaneci até entrar no Serviço Civil, em 1936, aos dezanove anos. (Arthur C. Clarke diplomou-se depois no King's College, em Londres, com distinção - First Class Honours - em Física e em Matemática).- (N. do T.)
Em Uish, sob a influência do professor de Inglês, o Comandante E.B.Mitford, comecei a escrever episódios e histórias curtas para a Revista da Escola. Um terço de século mais tarde, tive a oportunidade de pagar um pouco do meu débito ao dedicar "The Nine Billion Names of God" a "Mitty, o meu primeiro editor".
Ainda me recordo dessas sessões editoriais no princípio dos anos 30. Mais ou menos uma vez por semana, depois da aula, Mitty juntava a sua redacção de garotos da escola, e sentávamo-nos todos em torno de uma mesa em que havia um grande cartucho de caramelos. As ideias brilhantes eram compensadas imediatamente; Mitty inventou o reforço positivo anos antes de B.F. Skinner. Empregava também uma pesada régua de metro para o reforço "negativo", mas isso só era usado na aula - nunca, tanto quando me lembre, em reuniões editoriais.
As minhas primeiras palavras impressas, apareceram assim na "Huish Magazine", na qual eventualmente publiquei pelo menos meia dúzia de peças, num total de alguns milhares de palavras. A maior parte dessas peças eram somente de efémero, cheias de alusões utópicas que nem mesmo o autor consegue hoje identificar. No entanto, mesmo nesses dias as minhas tendências para a ficção-científica eram óbvias, como se pode ver pela seguinte carta de um "Ex-Aluno do Sexto", colocado num tórrido e altaneiro Posto Avançado do Império Vrigideira, Malásia Britânica.

"É quase impossível manter líquido nesse estado excepto sob uma forte pressão. No entanto, com a poderosa instalação de refrigeração das minhas de borracha daqui é possível reduzir a água ao seu ponto de fervura, o que é muito conveniente para nós quando o tempo está quente.
As precauções que temos que tomar para conservar as nossas vidas são extraordinárias. As nossas casas são construídas segundo o princípio do vaso de vácuo de Dewar, para manter de fora o calor, e os exteriores são prateados para reflectir a luz do sol... Temos de ter muito cuidado em não nos cortarmos de qualquer maneira, porque se isso acontece o nosso sangue ferve depressa e evapora-se.
A electricidade é muito barata aqui, pois podemos obter grandes quantidades por meio de termopares. O lado quente fica ao sol e o terminal frio na casa da caldeira das minas, que é o local mais frio de Vrigideira...
No entanto, tenho de deixar isto agora, porque a minha tinta se evaporou, apesar da minha caneta ter uma camisa para refrigeração por água."

Este esforço, deu a sua graça ao número de Natal de 1933 da "Huish Magazine" - a qual, para reforçar a medida, continha também duas outras peças curtas, fortemente disfarçadas sobre o pseudónimo "Clericus": devem assinalar o meu primeiro aparecimento em letra de imprensa.
Mesmo em 1933, eu já estava obviamente a escrever sobre a Lua, e sei porquê. Tinha sucumbido ao velho feitiço das revistas de ficção-científica, e posso ainda recordar o  primeiríssimo número que comprei. A capa de Março de 1930 de "Astounding Stories of Super Science", contendo "Brigands of the Moon", de Ray Cummings (obras de Ray Cummings publicadas na Colecção Argonauta: "A Invasão dos Insectos" (nº196) e "Exploradores do Infinito" (nº261) - (N. do T.) está ainda bem claro e brilhante na minha memória.
Durante a minha hora do almoço, costumava deambular pelos "Woolworth", onde números da "Astounding Amazing" e da "Wonders" podiam ser comprados por três dinheiros. Muito do dinheiro ganho a custo pela minha mãe viúva e poupado para a minha alimentação foi para essas revistas; considero-o como um dos melhores investimentos que fiz em toda a minha vida. Estabeleci a mim próprio o objectivo de obter uma colecção completa de todas as revistas de FC, e tinha praticamente alcançado isso, quando o eclodir da guerra em 1939 determinou uma ligeira alteração nas prioridades.
Metade de uma vida depois, ainda me recordo do êxtase de receber pacotes - até um "caixote!" de revistas de FC que eu comprara por poucos dinheiros. A seu tempo, tive uma colecção de trezentas ou quatrocentas revistas, que se evaporaram em certo momento durante a guerra. Hoje, valeriam uma pequena fortuna.
Os jovens leitores de hoje, nascidos num mundo onde muitas das maravilhas da década de 30 se tornaram já em realidade, e onde revistas, livros e filmes de FC são coisas comuns em vez de raridades que tinham de ser procuradas como ouro, mas podem imaginar o impacto desses velhos cadernos. De resto, o nível literário de então era de uma baixeza abismal - mas as histórias eram cheias de ideias, e invocavam amplamente a famosa "sensação de maravilha" que é o objectivo da melhor ficção. Não vejo nada incongruente na aplicação a essas garridas revistas dos imortais versos de Keats:

"Encantadas e mágicas janelas, abrindo-se na espuma
de mares perigosos, em terras esquecidas de fadas."

Pouco depois de 1930, caí sob o feitiço de uma influência muito mais literata. Na biblioteca pública de Minehead, a pequena vila de Oeste da Inglaterra onde nasci, descobri um exemplar do titânico "Last and First Men", de Olaf Stapledon (1930). Nenhum livro teve, antes ou desde então, maior impacto em mim. As visões "Stapledónicas" de milhões e centenas e milhões de anos, a ascensão e queda de civilizações e raças inteiras de homens, alteraram toda a minha atitude perante o universo e influenciaram desde então muito da minha escrita.
Vinte anos depois, conheci Stapledon e persuadi-o a fazer uma palestra sob o título de "Homem Interplanetário", na British Interplanetary Society da qual eu era então o presidente. O seu espírito era um dos mais nobres e civilizados que alguma vez encontrei. Sinto-me contente por agora haver um renascimento do interesse pela sua obra e pelo seu pensamento.
Mas os livros encadernados de FC ainda eram raros, e as revistas eram o meu esteio principal. Através das suas colunas de correspondência fiz muitos amigos, em particular o escritor inglês Eric Frank Russel, que encorajou os meus primeiros esforços. Foi graças a Eric que ganhei o meu primeiro dinheiro - em vez de caramelos - pelos escritos. Ele usou uma das minhas ideias numa história curta e pagou-me muito razoavelmente. Gostaria de ter conservado as suas longas e espirituosas cartas, escritas com a letra mais bela que jamais vi. Nesta era permissiva, a maior parte delas seria muito bom material para imprimir - mas, infelizmente, também elas se perderam durante os anos da guerra. Obrigado, Eric, pela tua bondade para com um aborrecido e persistente rapazinho de escola.
A ficção-científica encorajou sempre uma enorme quantidade de escritores amadores, e tem havido literalmente milhares de revistas feitas em duplicador (por vezes impressas) por "fans" entusiásticos. Têm servido muito utilmente como plataformas de lançamento para muitos escritores profissionais em campo. As primeiras histórias que completei, apareceram em algumas dessas revistas, e alguns exemplos ainda podem ser de interesse hoje. Quanto mais não seja, podem servir como uma espécie de zero absoluto a partir do qual os meus escritos posteriores podem ser calibrados.
"The Awakening" apareceu no número de Fevereiro de 1942 (nº41) de "Zenith", editado em Manchester por Harry Turner e Marion Eadle. Uma versão da revista foi publicada em "Reach for Tomorrow".
"Travel by Wire", foi publicado no segundo número (Dezembro de 1937) da "Amateur Science Fiction Stories", editado em Leeds por Douglas W. F. Mayer. "Retreat from Earth", apareceu no terceiro (e último!) número, datado de Março de 1938 - que também continha outra história minha, "How We Went to Mars".
"Wacky" apareceu em "Fantast", editado por Douglas Webster, de Aberdeen, em Julho de 1942 (Vol. 3, nº2, ao todo 14). O mesmo número contém a minha primeira série, de interesse enorme somente para os "fans" de FC: "A Short Story of Fantocracy". Sinto-me feliz por ver quantas das personagens nela intervenientes ainda estão activas, trinta anos depois. 
Ao mesmo tempo, descobri com muito interesse que algumas dessas revistas, continham peças perfeitamente terríveis de um certo Ray Bradbury. Guarda-se cuidadosamente para fins de chantagem.
Imediatamente antes da guerra, a primeira revista britânica de FC, "Tales of Wonder", foi lançada por Walter H. Gillings. Walter fez mais do que comprar os meus primeiros artigos e contos - "deu-me" a minha primeira máquina de escrever, a qual eu transportei num autocarro londrino desde sua casa, em Ilford. E ele foi o único editor que encontrei em toda a minha vida que rejeitou uma história, dizendo que era demasiado boa para ele e que um editor rival poderia pagar mais. O menos que pude fazer, por gratidão, foi dedicar-lhe a minha primeira colectânea, "Expedition to Earth".
Mas apesar das tradições de Wells, Doyle, Haggard e Kipling, a FC não floresceu na Grã-Bretanha e a sua pátria espiritual encontrava-se estabelecida nos Estados Unidos - tal como sob muitos aspectos ainda está. Vendi uma das minhas primeiras histórias a John Campbell, da "Astounding" (mais tarde "Analog") durante os últimos meses da guerra, enquanto ainda estava na Royal Air Force. A sua primeira aquisição foi "Rescue Party" - ainda que "Loophole", vendido algum tempo mais tarde, tivesse na verdade aparecido primeiro. No tempo dessas vendas (1945), eu estava estacionado perto de Stratford-on-Avon e recordo-me de pensar modestamente que isso era de algum modo singularmente apropriado. 
As histórias que se seguem foram escritas, portanto, durante um período de trinta anos, de 1933 a 1963. dvem falar por si próprias e eu não creio que seja adequado fazer mais comentários sobre elas. No entanto, para uma das que escrevi nessa época - "Death and the Senator" (não incluído no original da presente colectânea - N. do T.) - há uma nota de rodapé que pode ser de algum interesse. Esta história foi publicada em 1961, muito antes dos grandes dias do programa espacial dos EUA, e previa uma era em que ela caíra em tempos muito duros - como de facto veio a acontecer. E então a Natureza imitou a Arte, porque essa descrição fictícia de um inquérito promovido por uma comissão especial do Congresso dos Estados Unidos foi "lida" como prova à Comissão de Astronáutica da Câmara dos Representantes em 14 de Março de 1972. Devo dizer de imediato que conheci todos os administradores da NASA e nenhum deles se reflecte no carácter do Dr. Harkness
Suponho que toda a gente sabe o que aconteceu a "The Sentinel", dezasseis anos mais tarde depois de a ter escrito no Natal de 1948. Aqueles que gostariam de possuir as instruções necessárias para transformar uma grande pirâmide refulgente num monólito negro, encontrá-las-ão em "The Lost Worlds of 2001". 

Arthur C. Clarke

O presente texto, foi escrito por Arthur C. Clarke em Dezembro de 1972 - N. do T.

Ao contrário do que muitas vezes se escreve e diz, o argumento do filme "2001, A Space Odissey", não foi extraído de qualquer obra de Arthur C. Clarke: o livro com o mesmo nome foi publicado posteriormente, com base no argumento. Este era, na verdade, uma composição baseada em histórias como "The Sentinel" - incluída na presente colectânea - e novelas como (principalmente) "Childhood End", publicada no nº 26 da Colecção Argonauta, sob o título "A Idade do Ouro". - N. do T.

Índice dos Contos:

Viaje por Fio ................................................................ 5
Retirada da Terra ...................................................... 23
O Despertar .............................................................. 41
Pancada na Tóla ....................................................... 47
Abandonado ............................................................. 51
Lição de História ....................................................... 63
Esconder e Procurar ................................................. 77
Segunda Alvorada .................................................... 95
A Sentinela ............................................................. 139
A Estrela ................................................................. 155
Refugiado ............................................................... 165

2 comentários:

  1. Caro João Vagos, uma pequena gralha no titulo e data original.
    Cumprimentos,

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