nº 509 - Conduzindo às Cegas



Autor: Ray Bradbury
Título original: Driving Blind
1ª Edição: 1997
Publicado na Colecção Argonauta em 2000
Capa: António Pedro
Tradução: Alexandra Santos Tavares

Súmula - foi apresentada no livro nº508 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Versão portuguesa do original Driving Blind, este livro leva os leitores pelos caminhos sinuosos, mas cativantes, do tempo, da memória e da fantasia, tal como os imaginou o grande mestre Ray Bradbury. Neles, as surpresas espreitam a cada curva ou mesmo logo atrás de um qualquer marco quilométrico. 
Quer a caminho de um modesto circo desmantelado numa cidade fronteiriça do México, quer circulando lentamente por um sítio triste no qual colidem primeiro amor e primeira morte, a viagem é tão memorável que pode referir-se com inteira justiça: "cada história é uma obra-prima" 

Contos Publicados:

O Comboio da Noite para Babylon - (pág. 5) 

Se Matarem a MGM, quem Fica com o Leão? - (pág. 16)

Olá, Tenho de me ir Embora - (pág. 25)

Casa Dividida - (pág. 34)

O Grande Roubo - (pág. 44)

Lembra-se de Mim? - (pág. 56)

Fi Fá Fó Fum - (pág. 67)

Conduzindo às Cegas - (pág. 81)

Que Será feito de Sally? - (pág. 103)

Nada Muda - (pág. 112)

Aquele Velho Cão Deitado sobre a Poeira - (pág. 125)

Alguém à Chuva - (pág. 141)

Madame et Monsieur Isco - (pág. 152)

O Reflexo do Espelho - (pág. 161)

O Final do Verão - (pág. 170)

Trovoada Matinal - (pág. 177)

O Ramo Mais Alto da Árvore - (pág. 187)

Uma Mulher é um Piquenique Rápido - (pág. 199)

Virgo Resuscitas - (pág. 212)

Mr. Pale - (pág. 223)

O Cuco que Sai do Relógio - (pág. 233)


Um Breve Posfácio:

Na minha já longa vida, nunca tirei carta de condução nem aprendi a guiar. Mas, há algum tempo, sonhei certa noite que estava a guiar um carro por uma estrada rural com a minha Musa grega inspiradora. Ela ia sentada ao volante enquanto eu seguia no assento do passageiro com um segundo volante, como um aluno duma escola de condução.
Não pude deixar de reparar que ela guiava, serenamente, com uma venda branca sobre os olhos, enquanto as suas mãos mal tocavam no volante.
E, enquanto conduzia, sussurrava palavras, conceitos, ideias, verdades imensas, mentiras fabulosas, que eu me apressava a anotar.
Chegou um momento, porém, em que eu, por curiosidade, estendi a mão e ergui a sua venda para espreitar por baixo dela.
Os seus olhos, como os olhos de uma estátua antiga, eram arredondados, de puro mármore branco. Olhavam, sem ver, para a estrada em frente, o que me fez, em pânico, agarrar no meu volante e quase sair da estrada.
- Não, não - sussurrou ela. - Confia em mim. Eu conheço o caminho.
- Mas eu não - exclamei.
- Não faz mal - sussurrou ela. - Não precisas de o conhecer. Se tiveres que tocar no volante, recorda-te do conselho de Hamlet, "usa-o gentilmente". Fecha os olhos. Agora, tranquilamente, toca-o. 
Assim fiz. Ela fez o mesmo. - Pronto, vês? - sussurrou. - Já estamos quase lá. 
Chegámos. E todos os contos deste novo livro estavam terminados e prontos.
O Comboio da Noite para Babylon, é uma história quase verdadeira; quase fui atirado de um comboio, há alguns anos, por tentar interferir com um vigarista do jogo das três cartas. Depois disso, fico de boca fechada. 
Aquele Velho Cão Deitado na Poeira, é um relato absolutamente exacto de um encontro que tive com um circo de uma só pista, numa cidade mexicana da fronteira, quando tinha vinte e quatro anos. Uma tarde triste e feliz que recordarei até ao fim da minha vida.
Nada Muda, surgiu certa tarde ao crepúsculo diante de pilhas de livros na Acres of Books, uma livraria de Long Beach, quando encontrei uma série de livros de curso de 1905, em que (impossível!) os rostos dos meus camaradas do curso de 1938 pareciam repetir-se. Correndo para longe dos livros, escrevi o conto.
Se a MGM Morrer quem Fica com o Leão? - é mais uma variante de uma divertida realidade. Durante a II Guerra Mundial, a MGM foi camuflada como Companhia de Aviação Hughes, enquanto a Companhia de Aviação Hugues era camuflada de MGM. Como poderia eu deixar de descrever esta comédia?
Finalmente, Conduzindo às Cegas, é uma recordação de uma Mosca Humana que conheci, que trepava pelas fachadas dos prédios quando eu tinha doze anos. Não se encontram heróis desses todos os dias.
Como podem ver, quando a Musa fala, fecho os olhos e escuto. Em Paris, certa vez, dactilografei num quarto às escuras, sem luzes, só pelo tacto, e escrevi 150 páginas de um romance em dezassete noites, sem ver o que escrevia. Isso não será conduzir às cegas?

Ray Bradbury
Los Angeles
8 Abril de 1997 

Nota: A Colecção Argonauta não teve infelizmente nesta obra a atenção de incluir um índice dos contos para os leitores. Quem o fez foi este vosso escriba.

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