nº 142 - Terra Insólita 2



Autor: Clifford D. Simak
Título original: The Werewolf Principle
1ª Edição: 1967
Publicado na Colecção Argonauta em 1969
Capa: Lima de Freitas
Tradução: Eurico da Fonseca

Súmula - foi apresentada no livro nº141 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Com este volume, concluímos este excepcional romance de Clifford D. Simak, Terra Insólita, de que damos, seguidamente, um dos seus excertos mais expressivos:

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A pirâmide estava à esquerda, em frente da fila das cadeiras. Tinha um brilho mortiço, pulsva ligeiramente e desprendia-se dela uma cortina de luz.
- Não se aproxime muito - disse o Capitão. - Pode assustá-lo.
Elaine não respondeu. Fitou a pirâmide e o horror e a admiração subiram à sua garganta e sufocaram-na. 
- Pode avançar mais duas ou três filas. Mas pode ser perigoso se tentar aproximar-se demasiado. Na verdade, não sabemos.
As palavras saíram-lhe a custo: 
- Assustá-lo?
- Não sabemos - disse o capitão - É a maneira como isso actua. Como se tivesse medo de nós. ou suspeitasse de nós. Ou talvez não deseje nada connosco. Até há pouco não era assim. Não se via nada, era como um pedaço de nada, como se nada existisse lá. Criara um mundo só para si, com todas as defesas erguidas.
- E agora ele sabe que não lhe faremos mal?
- Ele... quem?
- Andrew Blake.
- Conhecia-o? Mr. Wilson disse que sim.
- Vi-o três vezes.
- O facto de nos conhecer não parece impressioná-lo. Alguns dos cientistas assim pensam. Uma porção deless tentou ajudá-lo. Mas não foram longe. Não podiam fazer muita coisa.
- Têm a certeza de que se trata de Andrew Blake?
- Veja em baixo, sob a pirâmide. Mesmo na base, do lado direito.
- O manto! - gritou ela. - Aquele que eu lhe dei.
- Sim. Aquele que vestia. Está ali no chão. Só uma ponta está de fora.
Ela deu um passo em frente, na coxia.
- Não vá muito longe - avisou o capitão. - Não se aproxime demasiado.
Ela deu outro passo e parou.
Era uma loucura. Se ele estava ali, sabia de tudo. Sabia que era ela e não estaria assustado - saberia que ela não lhe levava nada além do seu amor.
A pirâmide pulsou suavemente.
Mas talvez ele não soubesse. Talvez se tivesse fechado a si mesmo contra o mundo e, se fora isso que fizera, tivesse razões para o ter feito.
Como seria o saber-se que o nosso espírito é o de outro homem - um espírito de empréstimo porque não se tem nenhum seu, porque o engenho do homem não é suficiente para fabricar um espírito? Suficiente para fabricar ossos, carne e cérebro, mas não um espírito. E muito pior ainda o saber-se que se é uma parte de dois outros espíritos - pelo menos.
- Capitão?
- Miss Horton?
- Os cientistas sabem quantos espíritos estão ali? Serão mais do que três?
- Creio que não. Dada a situação verificada, pode não haver limite algum.
Não havia limite. Havia espaço para uma infinidade de espíritos, para todos os pensamentos do Universo. 
Estou aqui, desse ela, falando silenciosamente à criatura que fora Andrew Blake. Estou aqui. Não me reconheces? Se alguma vez necessitares de mim, se voltares a ser um homem...
Mas porque deveria ele voltar a ser homem? Talvez ele se houvesse transformado naquilo por já não ter necessidade de ser um homem. Por não ter necessidade de enfrentar uma Humanidade de que naõ podia voltar a fazer parte.
Elaine voltou-se e deu um passo hesitante na direcção da frente da capela. Depois voltou para trás, mais uma vez.
A pirâmide brilhava suavemente e parecia tão pacífica e tão sólida, ainda que alheia a tudo, que a sua garganta se apertou e os seus olhos encheram-se de lágrimas.
Não chorarei, disse ela a si própria, com ardor. Não chorarei. Por quem devia eu chorar? Andrew Blake? Eu mesma? A confundida espécie humana?
Não morrera. Mas fora talvez pior do que a morte. Se ele fosse um homem e estivesse morto, ela poderia ter-se retirado. Poderia ter-se despedido dele.  
Uma vez dirigira-se a ela, pedindo auxílio. Agora estava para além das suas possibilidades de auxílio e de todas as possibilidades humanas. Talvez se situasse para além de toda a humanidade.
Voltou-se de novo.
- Vou sair - disse ela. - Capitão, por favor, pode acompanhar-me?
Ele deu-lhe o braço e caminhou ao lado dela pela coxia fora.
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Introdução:

Andrew Blake foi encontrado numa cápsula espacial num planeta distante e trazido a uma Terra diferente da que conhecera - uma Terra insólita em que o automatismo e a biologia progrediram de uma maneira inconcebível.
Esta é a segunda parte da sua espantosa aventura. O dramatismo que Clifford D. Simak soube imprimir ao primeiro volume - cuja leitura é indispensável para a compreensão da obra - acentua-se ainda mais, ampliando-se à própria natureza das relações entre a Humanidade e o Universo, com uma nobreza e elevação poucas vezes atingidas em qualquer género literário. 

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