nº 523 - A Porta da Montanha do Fogo



Autor: C.J. Cherryh
Título original: The Morgaine Saga Omnibus - The Gate of Ivrel
1ª Edição: 1976
Publicado na Colecção Argonauta em Março de 2001
Capa: António Pedro
Tradução: Alexandra Santos Tavares
Revisão: Dália Moniz

Súmula - foi apresentada no livro nº522 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta": 

As portas eram relíquias de outras épocas. O Comissariado da Ciência da União admitia que outrora elas tinham servido de ligação, através da galáxia, a uma série de civilizações - que, por sua vez, haviam formado um império, regido por um povo desapiedado, conhecido como o povo dos ghal.  
Quem é então a viajante misteriosa, esguia e altiva como o mais nobre dos homens, pálida e elegante, que percorre os mundos, acompanhada apenas pelo fiel Vânya, o guerreiro solitário que jurou servi-la? Será ela capaz de chegar à Montanha do Fogo, à terrível Ivrel, e de aí fechar a última das portas? 
A Porta da Montanha do Fogo dá início à trilogia de A Saga de Morgana, uma obra prima da ficção-científica e da literatura de fantasia, que a Livros do Brasil se orgulha de apresentar aos leitores portugueses. 
Ao cair do crepúsculo, chegaram novamente a uma floresta de pinheiros. As nuvens acinzentadas iam encobrindo a lua com uma frequência cada vez maior, à medida que a noite se tornava mais profunda, mas eles continuavam o seu caminho, receosos de novas tempestades, receosos pelos cavalos, porque restava pouca aveia nos alforges das selas, e pretendiam avançar o mais depressa possível, na esperança de alcançar o terreno mais baixo antes que o Inverno se apoderasse dos desfiladeiros. O claro luar mostrava-lhes o caminho.
Mas por fim as nuvens adensaram-se e o caminho tornou-se difícil, com as árvores muito próximas e a obscurecer o céu com as suas sombras eriçadas. Uma árvore caída, junto ao caminho, prometia-lhes, pelo menos, um local mais seco para repousar a lenha para a fogueira. Pararam e Vanye partiu pequenos ramos e amontoou-os na forma devida para fazer uma boa fogueira com a lenha húmida.
Vanye não chegou a ver como o fogo nasceu: voltou as costas para ir buscar mais lenha e, quando regressou, já a anterior tinha começado a arder, com uma minúscula língua de fogo entre os ramos húmidos. Fazia muito fumo, por a madeira estar molhada, mas resistiu, com a ajuda de Morgaine, inclinada sobre o fogo, para o encorajar, e dele, a dispor cuidadosamente mais lenha em volta. 
- Há um certo perigo nisto - comunicou a Morgaine, fitando-a por cima da fogueira incipiente. - Poderão andar homens por aqui e verem as chamas ou sentirem o cheiro a fumo, e nestas florestas os homens não são amistosos. Não me agrada ter de defrontar o que isto possa atrair, de modo que é melhor manter a fogueira pequena e não durante a noite.
Ela abriu a mão e, à fraca luz, mostrou-lhe uma coisa negra e brilhante, estranha e assustadora. Aquilo causou-lhe repugnância; não conseguia determinar porquê, mas sabia que não podia ser feito por mãos normais, e dava um aspecto desagradável e horrível à pequena mão branca.
- Isto basta para assaltantes e feras - disse ela. - E espero que sejais suficientemente hábil com a espada e o arco. Caso contrário os "llinin" não sobrevivem muito tempo.
Ele assentiu silenciosamente com a cabeça.
- Ide buscar as nossas coisas - pediu ela. 
Ele obedeceu, limpando a neve da grande árvore e pousando sobre ela tudo o que poderia ser danificado pela humidade. Morgaine começou a fazer uma refeição para ambos com a carne quase congelada, enquanto ele preparava uma parte da aveia restante para os pobres cavalos. Eles empurravam-no com o focinho, chamando lamentosamente a sua atenção, porque queriam mais; mas endureceu o seu coração, desgostoso e sem apetite para a boa carne que eles tinham para comer. Kurshin como era, não conseguia comer quando faltava comida aos seus animais. Um homem podia ser avaliado pelos seus cavalos e pelo estado em que estes se encontravam, e se fosse aveia o que eles estavam a comer, tê-la-ia cedido de boa vontade aos seus animais e passado fome.
Foi instalar-se sombriamente junto da fogueira, massajando a mão rígida que o frio afectava.
- Temos que, seja com for, sair desta atitude - disse. Tem que ser amanhã, mesmo que isso nos obrigue a tomar um caminho mais perigoso. Só temos aveia para mais um dia. Estes cavalos não podem suportar todo este esforço e passar fome. Acabaremos por os matar se continuarmos assim.
Ela acenou silenciosamente com a cabeça.
- O caminho é curto - disse.
- Senhora, eu não conheço este caminho e já percorri a pista de Morija à fronteira de Koris até Erd por diversas vezes.
- É um caminho que eu conheci - disse ela, erguendo o olhar para o céu encoberto pelas nuvens, com os negros cumes dos pinheiros recortados contra a lua velada. - Nessa altura as árvores não eram tão altas.
Ele fez um gesto contra o mal, impensada e instintivamente. Receou que pudesse irritá-la. Em vez disso, Morgaine olhou rapidamente para o chão, como se quisesse evitar uma resposta.
- Onde vamos? - Inquiriu ele. - Procuramos alguma coisa?
Não - disse ela. - Eu sei onde se encontra.
- Senhora - insistiu ele, porque lhe pareceu que ela estava prestes a mergulhar num dos seus silêncios. Fez uma vénia, respeitosamente. - Senhora, para onde? Para onde vamos nós?
- Para Ivrel. - E quando, receoso, ele abriu a boca para protestar que era loucura. - Ainda não vos disse que serviço pretendo de vós. 
- Não - concordou ele. - Ainda não.
É isto, "illin". Matar Thiye, o senhor Hjemur e destruir a cidadela se eu morrer.  

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