nº 545 - A Primavera de Helliconia 2



Autor: Brian Aldiss
Título original: Helliconia Spring
1ª Edição: 1982
Publicado na Colecção Argonauta em Julho de 2003
Capa: António Pedro
Tradução: Alexandra Rolão Tavares
Revisão: Dália Moniz

Súmula - foi apresentada no livro nº544 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

A sala onde Shay Tal se encontrava era mais antiga do que ela jamais poderia calcular. Tinha-a mobilado com o pouco que tinha: uma velha tapeçaria, que tinha pertencido a Loil Bry, e depois a Loilanun - aquela ilustre linhagem de mulheres mortas; a sua cama humilde a um canto, feita de madeira trabalhada de feto-dos-ventos importando de Borlien (o feto-dos-ventos mantinha afastados os ratos); os seus materiais de escrita encontravam-se sobre uma pequena mesa de pedra; havia algumas peles no solo, sobre as quais se encontravam sentadas ou agachadas treze mulheres. A academia estava reunida.
As paredes da sala estavam manchadas por leprosos líquenes brancos e amarelos, que, tendo começado a alastrar a partir da única janela estreita, tinha, naqueles incontáveis anos, colonizado toda a pedra trabalhada adjacente. Aos cantos, havia teias de aranha; a maior parte dos seus titulares tinha havia muito morrido de fome.
Atrás das treze mulheres, encontrava-se sentado Laintal Ay, com as pernas cruzadas sobre o corpo, com o queixo pousado no punho e um cotovelo sobre o joelho. Estava a fitar o solo. A maioria das mulheres estava a olhar ociosamente para Shay Tal. Vry e Amin Lim estavam a escutá-la; as outras, ela não tinha a certeza. 
- Os efeitos no nosso mundo são complexos. Podemos fingir que são todos um produto da mente de Wutra na sua eterna luta pelo Céu, mas isso é demasiado fácil. Seria melhor nós próprias tentarmos descobrir as coisas. Precisamos de outra chave para a nossa compreensão. Wutra importa-se connosco? Talvez nós sejamos afinal os únicos responsáveis pelas nossas acções...
Shay Tal deixou de ouvir o que estava a dizer. Tinha feito a pergunta eterna. Não havia dúvidas de que qualquer ser vivo existente tinha tido já de se confrontar com essa questão, e de lhe responder à sua própria maneira: seremos os únicos responsáveis pelas nossas próprias acções? Shay Tal não conseguia descortinar a resposta no seu próprio caso. Como consequência, sentia-se completamente inapta para ensinar.
E no entanto, elas ouviam-na. Shay Tal sabia o motivo por que a ouviam, mesmo que o fizessem sem a compreender. Ouviam-na porque ela tinha sido aceite como sendo uma grande feiticeira. Desde o milagre no Lago do Peixe que ela se tinha isolado pela sua reverência. O próprio Aoz Roon encontrava-se ainda mais distante do que antes.
Shay Tal olhou pela janela em ruínas, para o mundo heteróclito, que se libertava agora do frio recente, com a neve e o lodo manchados de verde, e o rio a fluir rapidamente coberto com as lamas vindas de locais remotos que Shay Tal jamais iria visitar. Os milagres encontravam-se para além daquela janela. E no entanto... teria ela realizado um milagre, como toda a gente julgava?
Shay Tal deteve-se a meio da frase. Apercebeu-se de que havia uma forma de testar a sua própria sanidade.
Os "fagores" que os tinham atacado no Lago do Peixe tinham-se transformado em gelo. E isso devia-se a algo nela - ou a algo neles? Shay Tal recordou as lendas que diziam que os "fagores" tinham medo da água; talvez tivesse sido esse o motivo pelo qual se tinham transformado em gelo dentro dela. Isso poderia ser testado; havia um ou dois velhos escravos "fagores" em Oldorando. Ela iria tentar enfiar um deles no Voral e ver o que sucedia. De uma forma ou de outra, iria descobrir.
As treze mulheres estavam ainda a fitá-la, à espera de que prosseguisse. Laintal Ay parecia estar intrigado. Shay Tal não fazia a mínima ideia do que tinha estado a dizer. Apercebeu-se de que teria de realizar a experiência para seu próprio descanso.
- Temos de fazer o que nos dizem... - disse uma das mulheres que se encontrava sentado no chão, num tom de voz lento e intrigado, como se estivesse a repetir uma lição.
Shay Tal estava a escutar alguém que subia as escadas no andar de baixo. Não havia forma de poder responder educadamente a uma declaração que ela tinha estado a contradizer desde que o Anunciador da Hora tinha assobiado; qualquer interrupção era bem-vinda naquela altura. Algumas daquelas mulheres eram irremediavelmente estúpidas.
A porta abriu-se. Aoz Roon entrou, parecendo um enorme urso negro, seguido pelo seu cão. Atrás dele, vinha Dathka, que se deteve com o rosto inexpressivo, sem sequer lançar um olhar a Laintal Ay. Este último estava pouco à vontade, e ficou à espera com as costas encostadas à parede fria. As mulheres abriram a porta ao ver os intrusos, e algumas riram-se com nervosismo.

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