nº 47 - Salto no Tempo


Autor: Yves Dermeze
Título original: Via Velpa
1ª Edição: 1955
Publicado na Colecção Argonauta em 1958
Capa: Lima de Freitas
Tradução: Mário Henrique Leiria

Súmula - foi apresentada no livro nº46 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta:

Quando Nel Gavard, verdugo ajuramentado de Altair, decidiu brincar aos experimentadores, não tinha a menor ideia das transformações radicais que ia causar não só na sua constelação, como em toda a galáxia. Mesmo cérebros muito mais desenvolvidos do que o seu, não poderiam ter imaginado a milésima parte daquilo que um pequeno gesto ia provocar.
Nel Gavard era um ente meio animal, a quem seis traços verticais indeléveis ornavam a testa baixa. Sob umas espessas sobrancelhas negras, tinha uns olhos esbugalhados de bovídeo. Quando, na sua adolescência, lhe haviam medido o índice intelectual, tinham-no ridicularizado sem piedade, e Nel Gavard também troçara, incapaz de compreender a ironia ou a piedade. Os testes habituais tinham-no classificado em último lugar. Que fazer com esse degenerado? A partir da sétima categoria, a Lei ordenava que tais entes fossem suprimidos, para que se não tornassem nem uma carga nem um perigo para a civilização. Nel Gavard fora salvo por uma fugaz centelha que subsistia nele. No momento em que o submetiam ao controlo da Máquina de Guerra, ele rira, e tentara delicadamente com a ponta dos dedos desaparafusar um dos parafusos de ajustamento. Com os estalidos habituais, a Máquina dera o seu veredicto: Nel Gavard era ligeiramente superior a um animal doméstico. Subsistiam nele ligeiros vestígios de instinto científico. No painel visual da Máquina haviam aparecido seis traços verticais: seis e não sete. Nel Gavard escapara à morte.
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O Grande Conselho Supremo de Altair governava ditatorialmente sobre um vasto sistema planetário. Além dos planetas habitados, milhares e milhares de outros havia que tinham sido explorados, na mesma e noutras galáxias.
A Lei era severa. Eram admitidas seis categorias de indivíduos: desde os altairianos de "primeira zona", cérebros super-inteligentes, indivíduos de excepção, até aos "sexta zona", verdadeiros animais, obedientes, dóceis, incapazes de pensar.
A unanimidade no Conselho fazia Lei. Simplesmente, essa unanimidade não era fácil de obter. Glarson, "segunda zona", não estava disposto a deixar que a civilização de Altair no sentido da mais completa das ditaduras, segundo os desejos de Kox e Sidan, dois velhos altairianos de  primeira categoria, que pretendiam reduzir o Universo à escravidão. E Glarson lamentava que, pela primeira vez, a tradição que exigia que todos os altairianos de "primeira zona" fossem automáticamente admitidos no Grande Conselho, não tivesse sido respeitada, e Alik Hermes, jovem "primeira zona", o único dessa categoria dessa geração, tivesse sido excluído, por temor e inveja dos dois candidatos a ditadores.
E Alik Hermes fez uma descoberta que poderia modificar a estrutura da civilização altairiana. mas deixêmo-lo explicar ele mesmo:

 - Durante séculos, considerou-se o Tempo como uma noção subjectiva, uma abstracção. Mais tarde, na época das primeiras descobertas atómicas, fez-se dele uma dimensão... Registos  que há do século XXI falam já de Espaço-Tempo, da curvatura do Universo... supunha-se que o Tempo existia, como os comprimentos, as larguras e as espessuras. Que era uma quantidade finita e mensurável... Por Altair! É difícil de explicar! Há mais de dez séculos que vivemos com esta concepção. Conseguimos atingir os planetas que gravitam em redor de Sol 3 e depois, ultrapassando a velocidade da luz, saímos do Universo de Sol 3 para passarmos aos das estrelas mais próximas, e por fim povoámos a galáxia. Mas aquilo que aparentemente ninguém notou, é que tivemos para isso que utilizar veículos interastrais que ultrapassam a velocidade da luz. Porque essa teoria do Espaço-Tempo em que vivemos há mais de dez séculos, é precisamente baseada na premissa de que nada pode ultrapassar a velocidade da luz no vácuo. E na prática, isso foi feito. 

Em suma, Alik Hermes descobrira os "nós do Tempo", pontos onde a intensidade se anula, para a tensão se tornar máxima, tal como as ondas hertzianas. Ora, por esses nós no tempo, é possível passar para outras épocas, talvez para outros mundos.
Devido ao perigo representado pela sua teoria, Alik Hermes é condenado à morte. E Nel Gavard, verdugo ajuramentado de Altair, é quem o deve executar. Mas Alik e Nel foram companheiros de infância. Os dois extremos na escala de valores intelectuais de Altair estão ligados por uma amizade que nada pode quebrar. E é assim que Nel Gavard, que também, à sua maneira descobriu os "nós do Tempo", a que chama a "Grande Passagem", tem a oportunidade de "passar", juntamente com Alik Hermes e Gerda, misteriosa mulher que não se sabe de onde vem, para um "outro mundo", sem relação quer no espaço quer no tempo com o mundo de Altair.
Alik Hermes e Nel Gavard completam-se. Mas isso não fora casual. A Máquina de Guern, formidável cérebro electrónico de Altair, preparou o encontro e sugeriu as teorias.
Os "nós do Tempo" existem na realidade? Sim, afirma Alik Hermes. Não, responde a Máquina de Guern. Seja como for, Alik Hermes, Nel Gavard e Gerda, encontram-se num Universo-antípoda, no planeta Velpa. Os Mobiks, seres de pesadelo, atacam Velpa. Só há um único meio de os vencer definitivamente: destruir no Passado a civilização que os produz. Mas esta civilização, é precisamente a de Altair! Que deve fazer Alik Hermes? Destruir o seu próprio mundo para salvar o Universo-antípoda? Não haverá outra solução, utilizando a Grande Passagem?
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"Salto no Tempo", o romance que a Colecção Argonauta publicará a seguir, é a história de uma aventura fantástica, passada em dois universos distintos, de um homem que quer evitar que o seu próprio mundo se torne no futuro uma civilização de guerra e extermínio.
Um romance de ficção-científica europeu, que foge ao tom de ironia e sátira tão frequentemente presente nas obras deste género escritas por  autores latinos, e pode alinhar ao dao das obras de FC norte-americanas conhecidas pelo à vontade com que se jogam nelas os destinos de galáxias inteiras, de civilizações completas.
"Salto no Tempo" é um livro de Yves Dermeze que não receia confronto e que não deixará de ter por parte do público português o mesmo acolhimento entusiástico que teve junto do público francês, quando da sua publicação.

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