nº 368 - Mundos Sem Fim



Autor: Clifford D. Simak
Título original: Worlds Without End
1ª Edição: 1955
Publicado na Colecção Argonauta em 1988
Capa: A. Pedro
Tradução: Raul de Sousa Machado

Súmula - Foi apresentada no livro nº367 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Mestre da corrente hoje designada por ficção especulativa, Simak revela-nos em três contos o seu perfeito domínio sobre assuntos tão díspares como a luta pelo poder político, o futuro da fé e das religiões e as transformações da Economia e do sindicalismo após uma catástrofe nuclear.
Como seria de esperar, fá-lo no seu inconfundível estilo simples, directo e ao mesmo tempo profundamente reflexivo, colocando-nos perante questões com as quais já hoje nos deveríamos começar a preocupar. 
Eis as primeiras páginas deste volume:

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Ela não se parecia com o género de pessoas dispostas a recorrer a um Sonho. No entanto, como reflectiu Norman Blaine, nunca se podia ter a certeza. 
Escreveu o nome que ela lhe dera no bloco-notas, em vez de o colocar logo no impresso da inscrição; escreveu-o lenta e deliberadamente, para se conceder uns momentos de reflexão, pois aquele caso predizia algo de enigmático.
Lucinda Silone.
Um nome deveras peculiar. Nem parecia um nome verdadeiro; era mais como um nome artístico, para esconder um simples Susan Brown, um ordinário Betty Smith, ou qualquer outro apelido mais do que vulgar.
Escreveu-o lentamente, para poder pensar, mas não o conseguia fazer com lucidez. Tinha muitas outras coisas a enxamear-lhe o cérebro: o espantoso boato que grassava já há dias dentro do Centro, para trás e para a frente; a sua própria ligação com o boato; e o conselho que lhe fora facultado - havia qualquer coisa de engraçado sobre o trabalho. O conselho fora: não confie em Farris (como se isso fosse um aviso necessário!), e analise bem as implicações no caso de lhe oferecerem o encargo. Era um conselho bem intencionado, mas nunca acabava por não ajudar praticamente em nada. 
Para além disso havia o Botão de Lapela que o apanhara essa manhã no parque de estacionamento, e que se agarrara a ele quando o tentara afastar; e havia a Harriet Marsh, com quem tinha encontro marcado lá mais para a noite.  
E agora, para cúmulo, havia esta mulher sentada em frente à sua secretária. 
No fim de contas, disse Blaine para os seus botões, era disparatado pensar numa coisa dessas, associá-la com os outros problemas, com os outros pensamentos que se entrechocavam como troncos à deriva dentro do seu cérebro. Não podia haver qualquer ligação - era simplesmente impossível. 
Ela afirmara chamar-se Lucinda Silone. Havia qualquer coisa em redor do nome e, ainda por cima, a forma como fora pronunciado - as pequenas entoações feitas de propósito para o tornar musical, para lhe dar graciosidade - tinha feito disparar minúsculas campainhas de alarme dentro da sua cabeça.
- Você trabalha nos Divertimentos - disse ele em tom casual, como se nada se passasse; mas no fundo era uma pergunta complicada e tinha de ser correctamente colocada.
- Não, nada disso! - replicou ela. - Quem me dera!
Blaine nada descortinou de errado na forma como ela respondeu. A voz da mulher trazia um toque de felicidade descuidada que traía o prazer de ver que ele a julgara funcionária dos Divertimentos, e era isso precisamente o que seria de esperar numa resposta àquela pergunta tão especial. Era exactamente nesse tom que a maioria das pessoas respondia - lisonjeadas pela implicação de pertencerem à fabulosa guilda dos Divertimentos.  
Ele resolveu continuar a ser insinuante: 
- Pois olhe que era capaz de jurar que trabalhava para eles.
Fitou Lucinda Silone nos olhos, atento à expressão do rosto da mulher sem no entanto descurar todos os outros pontos de atracção.
- Neste sítio acabamos por adquirir uma boa experiência na avaliação das pessoas - continuou. - É muito raro cometermos um erro de apreciação. 
A mulher nem sequer mexeu uma sobrancelha; nenhum indício de sensação de culpa, nenhum trejeito de confusão.
O cabelo dela era de cor de mel, os olhos azuis profundos, e a  pele era de um branco tão leitoso que se tinha de olhar segunda vez para nos assegurarmos de que era verdadeira.
"Não nos aparecem muitas como esta", pensou Blaine. "Só velhos, doentes e desiludidos. Os desesperados e os que sabem o que é a frustração."
- O senhor está enganado, Sr. Blaine - disse ela. - Trabalho na Educação. 
Ele escreveu "Educação" no bloco-notas e por fim comentou:
- Deve ter sido por causa do nome. É um nome muito bonito, fácil de dizer. Musical, se quiser. Ficaria mesmo bem no cartaz de um teatro.
Levantou os olhos do bloco e sorriu - melhor, forçou-se a sorrir contra a inexplicável tensão que o estava a invadir.
- Contudo não foi só o nome - disse. - Tenho a certeza disso.
Ela não sorriu, o que o levou a recear que tinha sido desajeitado. Reviu mentalmente as palavras que dissera, numa rápida retrospectiva, mas decidiu que não tinha sido minimamente desajeitado. Quando se é director da Fabricação não se pode ser desajeitado; sabe-se lidar com as pessoas, ou melhor, tem de se saber lidar com elas. Por outro lado, tem de se saber lidar consigo próprio - como levar o rosto a dizer uma coisa enquanto a mente está a pensar em algo totalmente diferente. 

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Contos publicados da obra:

Mundos Sem Fim - pág. 7
O Van Gogh do Espaço - pág. 101
O Ciclo Total - pág. 127  

Nota: adoro o Clifford Donald Simak... é o meu autor preferido da Colecção Argonauta, juntamente com o Robert A. Heinlein. Este Mundos Sem Fim todavia, não é das suas obras mais inspiradas, na minha opinião.

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