nº 395 - A Nave das Sombras



Autor: Editado por Isaac Asimov
Título original: The Hugo Winners
1ª Edição: 1977
Publicado na Colecção Argonauta em 1990
Capa: A. Pedro
Tradução: Raul de Sousa Machado

Súmula - Foi apresentada no livro nº394 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

O Prémio Hugo, é para a ficção-científica o que o Óscar é para a indústria cinematográfica. Anualmente, por ocasião da convenção mundial de ficção-científica, é concedido um Prémio Hugo ao autor do melhor conto ou romance do género.
Isaac Asimov - o Mestre - reuniu algumas das obras premiadas, precedendo cada uma delas de uma introdução da sua lavra. A característica especial deste prémio é a de serem as histórias escolha dos leitores e não resultado de opiniões dos editores: a primeira história - A Nave das Sombras - conta a vida dos tripulantes de uma nave em órbita em redor da Terra, esquecidos já da existência do planeta imerso em guerra. O autor, Fritz Leiber, leva o leitor a penetrar nos dramas individuais, colocando-o sempre na perspectiva de antecipação do momento em que alguém descobrirá a verdade. A vida na nave decorre aparentemente sem problemas, até que alguém descobre de facto o que se passou, e a partir de então a Nave das Sombras tem o destino marcado. 
No segundo conto de Fritz Leiber - Maus Encontros em Lankhmar - passamos para um local que pode ser a Terra ou outro ponto ideal, perdido no tempo, que o autor tingiu do colorido ambiente medieval com a fantasia própria da literatura especulativa. 
No conto Escultura Lenta, entramos num outro tipo de narrativa em que a emoção e a antecipação se fundem.
Para dar conta da grande diversidade de escolha dos temas a que obedeceu Isaac Asimov na compilação desta antologia, de referir o conto de Poul Anderson - A Rainha do Ar e da Escuridão -, passado num planeta colonizado por terrestres que desconhecem ser este habitado por outros seres, por uma espécie que lhes move uma guerra surda e de desgaste com armas que vão da leitura do pensamento à magia negra.
Na última história - Lua Inconstante -, um casal que passeia ao luar vê com espanto o excesso de brilho da Lua. Pelo telescópio, observam um fenómeno que lhes indica ter o Sol explodido e que é a última noite em que verão o Luar, pois sabem estar condenados. A Lua, normalmente tão suave e romântica, surge-lhes como uma ameaça mortífera. Como será essa última noite de inconstância da Lua?  

Introdução: 

Não Há Duas Sem Três - Isaac Asimov  

Em 1962, coordenei a edição de uma antologia de vencedores do Prémio Hugo - isto é, as histórias galardoadas com os prémios baptizados com o nome Hugo, em homenagem a Hugo Gernsback, pioneiro das revistas de ficção-científica, prémios esses votados anualmente pelos participantes nas Convenções Mundiais de Ficção-Científica. 
Graças a um golpe de brilhante inspiração, designei esta antologia dos vencedores do Prémio Hugo como The Hugo Winners. The Hugo Winners, abarca as convenções compreendidas entre a décima terceira, realizada em 1955 em Cleveland (a primeira em que foram atribuídos Hugos para todas as categorias) e a décima nona, realizada em Seattle em 1961.
Se bem me lembro, concluí então que, perante o clímax atingido pelas atribuições dos prémios Hugo nessas convenções, graças ao aparecimento de uma antologia especialmente dedicada aos vencedores, antologia essa editada por uma pessoa de reconhecido mérito, sã e racional, corajosa e intrépida, decidida, voluntariosa e, acima de tudo, diabolicamente elegante, então só restaria às convenções soltarem um suspiro de alívio e abandonarem tal prática. (Eu próprio queria que assim sucedesse, pois todas essas magnas reuniões revelavam uma lamentável tendência para ignorar os meus trabalhos quando se chegava à altura de atribuir os prémios.)
Contudo, e para minha grande confusão, não foi essa a rota escolhida. As sucessivas convenções continuaram a conferir Prémios Hugo anos após ano e, ano após ano, surgia uma tal profusão de novos vencedores do Prémio Hugo que até eu próprio, talvez por distracção, recebi um par deles. 
Só me restava coligir uma nova antologia sobre o assunto, desta feita cobrindo as convenções compreendidas entre a vigésima, de Chicago (1962) e a vigésima oitava, realizada em Heidelberg em 1970. Socorri-me da minha portentosa imaginação para conceber um novo título para esta nova antologia, e acabei por dar com um dos melhores possíveis: The Hugo Winners, volume Dois. Foi publicada em 1971.
Esta nova iniciativa, contribuiu para mudar o estado das coisas? Antes pelo contrário, parece ter-se acentuado uma tendência para a concepção de histórias cada vez mais compridas, para além de se intensificar a incidência dos empates. O segundo volume tinha o dobro da espessura do primeiro, se bem que cobrisse nove anos enquanto o primeiro abarcava uns meros seis; por seu lado, este terceiro volume, apesar de só englobar seis anos, é tão espesso como o antecedente. (Nota do editor: este parágrafo, bem como o que se segue, referem-se à edição original publicada pela Doubleday & Company.)
De facto, e apesar do presente livro ter sido publicado em 1977, só conseguimos espaço para as convenções desde a vigésima nona (Boston, 1971) à trigésima terceira (Melbourne, 1975). A trigésima quarta convenção - Kansas City, 1976 -, apesar de já ter passado à história, terá de aguardar pelo quarto volume. 
Despachadas que estão as estatísticas relativas às convenções, permitam-me que vos explique uma ou duas coisas acerca destas antologias, tomando como certa a compreensão dos Gentis Leitores (como é meu hábito) quanto ao facto de nada vos estar a esconder. Repararão que estes volumes com os vencedores dos Prémios Hugo são publicados a longos espaços; porque não editá-los com um carácter anual, como se passa, por exemplo, com os volumes anuais dos Prémios Nebula? Há várias razões para isso. (Nota do editor: os Prémios Nebula são conferidos anualmente pela Science Fiction Writters of America; são prémios conferidos pelos escritores, enquanto os Hugos são prémios galardoados pelos leitores.)
1ª - Nem a Doubleday nem eu próprio jamais pensámos em tomar uma iniciativa destas. Em 1961 nem sequer sonhávamos que o apetite dos leitores por antologias seria tal que os poderíamos brindar com uma por ano, em especial porque, de modo a coligir-se um volume digno desse nome, teríamos de incluir também  os diversos concorrentes ao prémio - como se passa com as edições anuais dos Nebula. 
2ª - Os volumes Nebula são publicados em cada ano por um editor diferente. (Por exemplo eu fui o editor do volume de 1973.) Isto significa que nenhum editor terá de ser incomodado ou persuadido mais do que uma vez. (Por acaso faz uma ideia do quão difícil é lidarmos com os vencedores de qualquer prémio? Nenhum deles é tão cordato e simpático como eu.) Para as antologias dos vencedores dos Prémios Hugo, contudo, seria impensável imaginarmos um editor que não fosse eu próprio - ou pelo menos não me estou a lembrar de mais nenhum -, e pelo que me toca tenho que ser cuidadosamente racionado. Como (apesar das aparências) não sou sobre-humano, só consigo editar um volume de tempos a tempos.
3ª - Para além disso, a coisa até resulta. Como estes volumes de vencedores dos Hugos só aparecem a longos intervalos, o público louco com sempre por tudo o que sejam antologias, passa a comprá-las em largas quantidades durante um dilatado período de tempo. A propósito, nem a Doubleday nem eu nem os autores representados nestes volumes nos interessamos pelas recompensas financeiras - estamos muito acima dessas coisas -, preferindo desfrutar do profundo prazer espiritual que sempre foi a satisfação do Gentil Leitor.
Vejamos agora um segundo aspecto. Quando me encarreguei do primeiro volume, vi-me na necessidade de escrever introduções não só às histórias como ao volume como um todo. O padrão habitual dos intróitos deste género sempre foi o de se escrever um trecho filosófico como introdução genérica e umas linhas claramente sicofânticas e louvaminheiras para cada uma das histórias. 
Não sou pessoa para isso. Por um lado, não sou eu que escolho as histórias, são os leitores - pelo que não me compete enaltecer os respectivos conteúdos. Esta realidade é especialmente palpável se por acaso eu não concordar com as decisões dos leitores, como por exemplo sucede quando uma das minhas histórias perde. Em casos como este, tenho de recorrer a todo o meu desportivismo, fingindo que não nutro o mais profundo desprezo pela injustiça daí resultante... mas só o consigo se não me referir em absoluto à história vencedora. 
Por outro lado, nunca tive grande vontade de enaltecer os autores, pois quando esta coisa começou eu nunca tinha ganho um Hugo e, como tal, sentia uma justa indignação perante todos aqueles que perpetuavam a injustiça ao aceitarem os prémios. Assim sendo, resolvi agarrar a oportunidade que me era oferecida para, nas introduções aos volumes, denunciar o regime e, nos intróitos a cada história, insultar o autor. 
Resultou em cheio, e fez-me sentir muito melhor.
Repeti a graça no segundo volume, só que desta vez as dificuldades foram bem maiores.
Não sei se compreende, mas nos velhos tempos, quando eu vivia completamente imerso na ficção-científica, o campo de actuação era bastante reduzido. Por outras palavras, conhecia pessoalmente todos os autores; frequentávamos as mesmas convenções e embebedávamo-nos em grupo (não, não bebo porque preciso; já nasci alcoolizado). Como tal, quando chegava o momento de apresentar uma história escrita por um desses meus queridos amigos, tinha à minha disposição uma mão-cheia de anedotas e episódios pouco dignificantes sobre a pessoa em questão.
Ah, não imaginam o quanto mudaram as coisas!
Para começar, e apesar de ter mantido as minhas ligações à ficção-científica, aproveitando para ir escrevendo histórias e artigos para as revistas especializadas (fundando uma nova revista, a Isaac Asimov's Science Fiction Magazine, publicada pelas Davis Publications e editada por George Scithers, pessoa que mencionei na introdução do segundo volume), não posso deixar de admitir que passei a ocupar o meu tempo com muitas outras actividades. Por outro lado, o número de novos escritores bafejados pelo talento tem vindo a aumentar de ano para ano, pelo que deixei de conhecer pessoalmente a grande maioria.
Não sou pessoa para morder selvaticamente um qualquer desconhecido. Isso é coisa que só se faz aos amigos.
Receio, portanto, que em certos casos o leitor venha a achar-me muito mais brando com o autor do que é meu hábito. Poderá até ver-me a discorrer sobre outro assunto qualquer; em desespero de causa, poderei mesmo violar a minha bem conhecida modéstia e começar a falar de mim próprio. 

1970: 28ª Convenção, Heidelberg - (Isaac Asimov a propósito do conto A Nave das Sombras, de Fritz Leiber) 

Como já deve ter percebido, esta história foi uma das vencedoras da vigésima oitava convenção, a de Heidelberg, em 1970. Obviamente, não participei na convenção. Recuso-me a voar e detesto viajar, pois é coisa que me afasta da máquina de escrever. (Não se ria. Gosta que o afastem da "sua" máquina de escrever?)
Consequentemente, quando consultei um planisfério e constatei que Heidelberg ficava a uns bons dezoito centímetros de Nova Iorque, empalideci e tive de me sentar à máquina para escrever umas boas sete páginas antes de me recompor. Que raio, só muito contrariado é que me sento ao volante do carro para guiar até New Haven, e New Haven só fica a meio centímetro de Nova Iorque...
Seja como for, o que eu queria dizer é que não estava presente quando A Nave das Sombras recebeu o seu Hugo em Heidelberg. Foi por isso que não absorvi devidamente a história, como certamente teria acontecido se tivesse participado na convenção, já que o Fritz ganhara um outro Hugo dois anos antes, na vigésima sexta convenção, a de São Francisco - e eu sempre detestei pessoas gananciosas.
Deste modo, quando lancei mãos à obra e coligi o Volume Dois desta série - o qual cobria as convenções de 1962 a 1970 inclusive -, cometi um pequeno erro. Sabia que tinha havido dois vencedores nas categorias de novelas curtas incluídas naquele volume, mas quando se me deparou "Tempo Considerado como Uma Hélice de Pedras Semi-Preciosas", de Samuel R. Delany, o título pareceu-me tão comprido que o tomei como abarcando ambos os vencedores. Não procurei mais, e foi assim que "A Nave das Sombras" foi inadvertidamente omitida.
Como seria de esperar, fiquei a saber da história mal foi publicado o Volume Dois. Com efeito, o Apêndice, no qual eram listados todos os vencedores de cada categoria revelou-me imediatamente - na coluna relativa à vigésima oitava convenção - a "Nave das Sombras", de Fritz Leiber, galardoada com o Prémio Hugo para a melhor novela.
Naturalmente, muitos dos leitores mais argutos repararam na discrepância, o que me levou a receber uma carrada de cartas escritas por aqueles que tinham escrutinado minuciosamente o volume acabado de publicar (alguns deles devem mesmo ter espreitado para debaixo da mesa, não se fosse dar o caso da novela ter caído ao chão), sem que ali encontrassem esta novela. Fui então acusado de ter sido subornado pela notória facção anti-Leiber dos Science Fiction Writters of America.
(O que nem de longe corresponde à verdade. Não há nenhuma facção anti-Leiber, toda a gente gosta do Fritz. Confesso que já aceitei luvas para excluir o Harlan Ellison, mas como o ponho sempre ao corrente da tramóia, ele faz-me o favor de duplicar o suborno para que eu o inclua.)
Prometi a toda a gente que a história seria incluída numa antologia na primeira oportunidade, e a oportunidade surgiu agora. Peço-te imensa desculpa, Fritz. Sei que já devias estar a receber direitos de autor por esta história há mais de seis anos, pelo que dou graças aos céus por seres daqueles que entregam todos os direitos de autor às instituições de caridade. 

1971: 29ª Convenção, Boston - (Isaac Asimov a propósito do conto Maus Encontros em Lankhmar, de Fritz Leiber)

Retiro o que disse: sinto-me satisfeitíssimo por ter omitido a "Nave das Sombras", do Fritz, no Volume Dois. Imaginem o que eu não sofri durante todos esses anos, roído de remorsos sempre que pensava no prejuízo financeiro que impus ao Fritz. Momentos houve em que me senti tão infeliz e contrito que cheguei a encarar seriamente a possibilidade de lhe enviar uma certa verba para o compensar das perdas - do meu próprio bolso, entenda-se Talvez cinco dólares, ou mesmo uns dez.
Agora já não. O miserável nem um tostão merece.
Como já devem ter reparado, não acredito que se sintam espantados perante a minha honesta indignação. Depois de ter arrebatado o "Hugo" para a categoria de novelas em 1970, não é que o rapaz conseguiu idêntico galardão no ano seguinte? Tanto a vigésima oitava como a vigésima nona convenções foram vítimas das suas depredações - a única vez em toda a história deste prémio em que um mesmo autor é distinguido em dois anos sucessivos. Só um patife dos piores conseguiria semelhante proeza.
Acham que o Fritz teve pena dos outros? Julgam por acaso que terá pensado uma vez que fosse em todos aqueles virginais autores à espreita da sua oportunidade, sentados a roerem as unhas de nervoso, as maçãs do rosto coradas de timidez e antecipação, momentos antes de ser anunciado o nome do vencedor? 
Portanto aqui têm: duas histórias do Leiber com um total de quarenta mil palavras logo a abrir o Volume Três. Só estas duas abocanham o espaço correspondente a mais ou menos meio romance. Será possível que haja mais alguém capaz de escrever histórias dignas de um "Prémio Hugo", para além do nosso velho Fritz? 
A propósito, com esta convenção se realizou em Boston, aproveitei para lá ir. Poucos meses antes, tinha-me mudado definitivamente para Nova Iorque, de modo que uma deslocação a Boston não era coisa que me preocupasse sobremaneira, isto se atendermos à maneira como sempre encarei as viagens longas. A vigésima nona foi a convenção mais bem organizada a que me foi dado assistir; se bem me lembro, o Robert Silverberg era o anfitrião.
Portou-se à altura do seu ar solene e satânico, sempre altaneiro em relação a tudo o que o rodeia. É curiosos como o Robert nunca altera a expressão quando nos inunda com os seus habituais comentários satíricos; o marcado contraste entre a cara que faz e as palavras que diz leva qualquer assistência ao delírio.
Eu cá fico cheio de inveja, pois a sorte não me bafejou com os seus dotes naturais. A minha expressão franca, aberta e ingénua revela sempre um bom humor inigualável, de modo que as pessoas estão sempre à espera de uma piada, o que me leva a perder o tão apetecido efeito de surpresa. Sei bem que é assim, pois as mais das vezes, quando me levanto para falar, as pessoas começam a rir-se antes mesmo de eu abrir a boca. 

1971: 29ª Convenção, Boston - (Isaac Asimov a propósito do conto Escultura Lenta, de Theodore Sturgeon)

Conheci o Ted pela primeira vez já lá vai perto de um terço de século, quando era um rapaz novo, agarotado e bonito. Vi-o há bem pouco tempo a bordo de um belo navio, o "Statendam", na primeira quinzena de Dezembro de 1972.
Descíamos então a costa da Florida, para assistir ao lançamento da Apolo 17 para a Lua, na última das viagens tripuladas ao nosso satélite natural. O lançamento foi ainda mais belo por ter sido feito de noite, mas no meu caso a viagem foi formidável desde o princípio, já que no cais, quando aguardava a hora do embarque, com quem eu daria eu de caras se não com o bom do Ted, vestido com um casaco de antílope e acompanhado pela mulher e pelo filho mais novo.
Lembro-me muito bem que a mulher dele, a Weena, era nova, feminina e muito bonita, mas aquilo de que me lembro melhor foi o interesse dela pelos alimentos naturais, assunto sobre o qual me falou com toda a seriedade já a bordo do navio. (Nunca percebi muito bem porque é que as pessoas estão sempre a dar-me conselhos sobre esta ou aquela dieta. Sei tudo o que há a saber sobre isso: para ter a certeza de que não me faltam nenhumas das vitaminas e minerais importantes, como por norma tudo o que me aparece pela frente. O mais curioso é que, depois de ter acabado a palestra, a rapariga acendeu um cigarro.)
Tive de lhe responder:
- Se estás assim tão preocupada com a minha saúde, talvez seja melhor preocupares-te com a tua.
Tirei-lhe o cigarro da boca (junto com um pedacinho de lábio, se bem me lembro), atirei-o ao chão e pisei-o com a sola do sapato. Tempos depois, Weena disse-me que ficara tão impressionada com a lógica subtil da minha argumentação que deixara de fumar (espero que para sempre.)
Só mais uma coisa a propósito da vigésima nona convenção antes de arrumar na gaveta. O Bob Silverberg nas suas alocuções de abertura, costuma contar vez sim vez sim uma piada que nasceu de um incidente ocorrido durante a vigésima sétima convenção, realizada em 1969 em St. Louis, quando Harlan Ellison, depois de ter feito uma colecta para uma boa causa, descobriu ter arranjado dinheiro a mais, oferecendo então esse excedente a uma conferência de escritores de ficção-científica que adoptara o nome de "Clarion Colledge". Não se pode dizer que não fosse também uma boa causa, mas o Harlan, levado sem dúvida pelo seu coração benevolente, esqueceu-se de cumprir a simples formalidade de perguntar às pessoas que tinham contribuído se poderia dar tal destino ao dinheiro a mais. Verificou-se assim uma discussão pública entre o Harlan e o resto dos participantes da convenção, na qual, como seria de esperar, esses restantes estavam em minoria.
Como tal, no fim do discurso do Bob, tirei uns versos do bolso e, quando chegou a minha altura de ser eu a dizer umas palavras, recitei-os perante a magna audiência, conseguindo a maior gargalhada colectiva da noite. Publiquei recentemente dois livros intitulados "Lecherous Limericks" (Walker, 1975), e "More Lecherous Limericks" (Walker, 1976), cada qual contendo cem quintilhas da minha autoria; a que recitei na convenção, por ser demasiado picante, não foi incluída em nenhum deles. Como não a quero perder para a posteridade, aqui vai ela:

Havia uma despe-despe chamada Marion
Que saltava, dançava e nunca se cansava.
O resultado da sua alegria
Foi um belo filho bastardo
Que ela prontamente doou à Clarion

1972: 30ª Convenção, Los Angeles - (Isaac Asimov a propósito do conto A Rainha do Ar e da Escuridão, de Poul Anderson)

Gostava de lhes falar um pouco do Poul.
Em 1971 publiquei um livro intitulado "Isaac's Asimov Treasury of Humor" (Houghton Mifflin). Gostei tanto deste que desde então tenho vindo a planear um segundo volume, este chamado "Isaac's Asimov Laughs Again". (Desconfio que muitos dos leitores já devem estar a achar suspeitas as contínuas referências a livros meus nestas introduções - para não falar em outras ocasiões -, como meio expedito de auto-promoção. Se me têm em tão pouca consideração, então permitam-me que me explique: é isso mesmo.) Já escrevi uma parte, mas à semelhança de tantos outros livros que planeio, o seu término vê-se permanentemente adiado devido aos meus numerosos compromissos.
Contudo, o Poul sabe que eu ainda estou a trabalhar nele, de modo que está sempre a mandar-me páginas e páginas de anedotas que vai ouvindo aqui e ali - sem qualquer encargo e sem mencionar absolutamente nada a propósito de eu lhe conceder um crédito ilimitado.
Por aqui podem aperceber-se do género de pessoa que o Poul é. 
Naturalmente, não me passa pela cabeça ir contra aquilo que ele pretende. Manda-me anedotas à borla? Okay, não sou eu quem irá estragar este esplêndido gesto oferecendo-me para lhe pagar. Quer que eu lhe dê crédito? Nunca contrariei uma solicitação tão razoável.
Excepto agora. Uma das anedotas que costumo contar com considerável sucesso foi ele quem ma contou em primeira mão. Aqui vai ela (na minha versão, claro):
"Um inglês, um francês e um russo estão a discutir o significado da verdadeira felicidade. 
O inglês diz de sua justiça:
- Meus amigos, permitam-me que vos apresente um exemplo. Imaginem-se montados num cavalo espadaúdo ao amanhecer de um dia límpido do princípio de Outono; galopam à solta pelos campos, saltando sebes e arbustos, com os cães a ladrar à vossa volta, perseguindo uma raposa. Imaginem que voltam para casa com a cauda do animal pendurado na sela, para se sentarem triunfantes em frente a uma lareira descomunal, com um cálice de uísque velho na mão. É esta a verdadeira felicidade.
- Bah! - exclama o francês. - Isso, meu amigo e com o devido respeito, não passa de um puro prazer animalesco. Se me permitem que lhes dê um exemplo, então imaginem-se a jantar num restaurante recatado da margem esquerda, onde as melhores iguarias podem ser acompanhadas com um esplêndido champanhe e na companhia de uma mulher de sonho. Depois do jantar, levam a vossa companheira para o vosso apartamento (ou para o dela) e fazem amor durante a noite inteira. Isso é que é a verdadeira felicidade.
- O russo desata a rir à gargalhada e diz:
- Ah, meu amigo, isso não é mais do que passar uns bons momentos. Ouçam antes o meu exemplo: imaginem que regressam a casa depois de um árduo dia de trabalho na fábrica de tractores e acabam de se sentar na vossa cadeira em melhor estado... a que só tem uma perna partida. Têm o vosso filho mais novo, o Mikhail, nos joelhos e o exemplar do "Pravda" aberto à vossa frente. Nesse momento ouvem bater à porta. Vão abrir e deparam-se-lhes três homens de fatos castanhos de péssimo corte, que entram de rompante, fitam-vos com ar acusador e perguntam: "Ivan Mikhailovich Federov?" - Vocês respondem: "Não, cavalheiros, esse senhor vive dois andares acima." Isso, meus amigos, é que é a verdadeira felicidade."

1972: 30ª Convenção, Boston - (Isaac Asimov a propósito do conto Lua Inconstante, de Larry Niven) 

No Volume Dois, e relacionado com a história do Larry que lá apareceu, "Estrela de Neutrões", mencionei às tantas que ele tinha uma "fácies escorreita, bem escanhoada".
Bom, a não ser que tenha mudado de novo, hoje deve usar barba: uma barba curta e bem cuidada, que deve certamente contribuir para lhe melhorar a aparência. (Digo "deve" porque não sou perito em rostos masculinos. Por norma não costume vê-los. Já me viram entrar numa sala cheia de homens, dirigir-me à única mulher presente e perguntar-lhe: "Então, hoje está aqui sozinha?" - Sei que se trata de uma particularidade, mas vivo resignado com ela e até hoje tenho recusado submeter-me a qualquer tratamento.)
Seja como for, aquilo que mais ficamos a dever à década de sessenta, na minha modesta opinião, é a primeira e séria recrudescência dos pelos faciais dos homens desde o dia em que Gibson, no primeiro decénio do século XX, lançou o estilo dos rostos completamente rapados.
Eu próprio tirei partido da nova moda. Em 1970 deixei crescer o cabelo, descobrindo deliciado o tempo que poupava ao não ir ao barbeiro; por outro lado, fiquei deveras aliviado ao ver que não era preso quando saía à rua.
Hoje, os cabelos caem-me graciosamente sobre os ombros, cheios de ondinhas e caracóis, e a minha maior ambição é vê-los encaracolar-se e ondular ainda mais até ao fundo das minhas costas. Infelizmente, a minha mulher, Janet, não partilha comigo esta ambição. De quando em quando, tenta persuadir-me - sempre na sua maneira meiga e compreensiva - a deixar que me corte o cabelo. Ajoelhando atrás de mim, com a tesoura numa mão e a navalha encostada à minha garganta, começa a cortar, a cortar, a cortar...
Também deixei crescer as patilhas, cada vez maiores e mais farfalhudas, em todas as alturas em que dei com a Janet distraída. Então não é que um dia ela olha  para mim e me diz que gosta delas? As mulheres são assim, misteriosas do princípio ao fim.
A mulher do Larry (que, quando estudava no MIT, tinha a alcunha de "Fuzzy Pink", talvez por causa das camisolas de lã que usava) parece-me indecentemente apaixonada pelo marido, com barba e tudo.
No Volume Dois, acho que também mencionei o facto do Larry gostar de especular sobre a vida sexual do Super-Homem. Já na altura fiquei indeciso - como agora estou - se devia ou não pôr-vos ao corrente dos pormenores tal como descritos por ele; por exemplo, a força hidráulica da...
Não, nunca o conseguiria descrever tão bem como o Larry. Os verdadeiros eretomaníacos são sempre os tipos calmos, que coram com facilidade, permanentemente agarrados ao cachimbo mal-cheiroso.

Índice dos contos:

A Nave das Sombras (Fritz Leiber) - pág. 13

Maus Encontros em Lankhmar (Fritz Leiber) - pág. 71

Escultura Lenta (Theodore Sturgeon) - pág. 141

A Rainha do Ar e da Escuridão (Poul Anderson) - pág. 171

Lua Inconstante (Larry Niven) - pág. 231

Nota: uma série de contos muito fortes, de que gostei imenso.Uma das melhores colectâneas da Colecção Argonauta, na minha opinião.

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