nº 518 - Cidade na Lua



Autor: Murray Leinster
Título original: City on the Moon
1ª Edição: 1957
Publicado na Colecção Argonauta em Setembro de 2000
Capa: António Pedro
Tradução: Alexandra Santos Tavares 

Súmula - foi apresentada no livro nº517 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Joe Kenmore tinha uma certa intuição para a história. Era por isso que tinha ido parar à Lua. Porque tinha a noção de que a sua época era uma época de grandes desafios, um tempo em que a civilização que conhecia iria tomar algumas decisões essenciais quanto ao futuro. Daí em diante, pensava ele, ou a humanidade ia em frente e iniciava o grande processo de colonização dos outros planetas, ou punha um ponto final no progresso e começava uma fase de declínio.
O anúncio de qual seria a decisão viria de uma estação espacial, colocada em órbita entre a Terra e a Lua. Aí, em condições de extremo stress, alguns peritos em energia nuclear e radioactividade tentavam levar a cabo um certo número de investigações tão perigosas que não se podiam realizar em nenhum dos dois planetas. A Cidade da Lua só tinha uma finalidade: abastecer a estação espacial de tudo o que ela necessitava. E Joe Kenmore, bem como algumas outras centenas de pessoas, esperava ansiosamente pelas notícias - que aliás podiam assumir a forma de uma enorme explosão, que anunciasse a instantânea destruição do Laboratório.
Havia porém poderes e forças na Terra que não desejavam que essas investigações chegassem a bom porto, e a sua oposição traduzia-se por vezes em inequívocas acções de sabotagem.

- Aquilo destinava-se a matar-nos, sim - disse Kenmore. - Será interessante descobrir quem, para além de nós, andava a vaguear no exterior dentro de um jeep. Serão os nossos pretensos assassinos.
Abriu uma gaveta e retirou as fotografias espaciais em larga escala que eram simultâneamente os mapas e os levantamentos desta área da superfície da Lua.
Ao fim de algum tempo, Moreau disse lentamente:
- Evidentemente, podia ser que fossem inimigos da Cidade dos Civis que não viviam na própria Cidade.
Kenmore ficou em silêncio. Pregou uma fotografia no quadro dos mapas, de modo a poder vê-la claramente, e começou a afastar o jeep da sua situação periclitante. O gigantesco penhasco mesmo em frente deles estava rodeado de pedregulhos; rodeavam-no pedras de todos os tamanhos possíveis. O jeep podia circular, saltando violentamente por cima das mais pequenas; podia rodear algumas delas, e algumas podiam passar por entre as rodas. As restantes teriam que ser evitadas, se possível. 
- Os nossos potenciais assassinos - disse Moreau com tristeza - poderiam ser concidadãos da Cidade que desaprovam todo o projecto de que fazem parte. Ou poderiam ser da Terra, tendo desembarcado secretamente operando e operando a partir de uma base estabelecida algures sem que os radares a tivessem detectado. Mas há ainda quem diga que os Estados Unidos não gostam de ter gente de outras nações na Lua. Dizem que os vossos... hã... militares podem maquinar acidentes para os desencorajar. 
- Não vais acreditar nisso! - Retorquiu Kenmore.
- Não - confessou Moreau. - Não acredito. Nem acredito sequer numa base secreta estabelecida aqui pelos nossos inimigos. Mas há quem diga que os Estados Unidos trabalham secretamente no sentido de sabotar o projecto para o qual aceitaram outros países. A ideia é estúpida, mas há quem acredite nela. 
Kenmore resmungou. Havia uma crise na Terra, que se esperava que o projecto da Lua ajudasse a vencer. No passado tinha havido vinte e tal civilizações conhecidas na Terra, recordou, e cada uma delas tinha atingido um ponto de crise e entrado em colapso. China e Babilónia, Grécia e Roma tinham alcançado o apogeu e depois a decadência - e havia pelo menos tantas civilizações quantas as nações. A actual civilização ocidental havia sido construída mais na base da força mecânica que na força humana; tinha crescido mais do que qualquer outra. Com energia suficiente, os homens poderiam fazer da Terra um jardim e colonizar as estrelas. "O homem não só pode fazê-lo", pensou Kenmore, "como deve fazê-lo, senão esta civilização também entrará em decadência. É preciso que a civilização cresça, senão morre!"
Mas havia a questão da energia - aquilo em que se baseava. O carvão e o petróleo eram limitados; apenas a energia atómica prometia permitir a continuidade do progresso. Simplesmente, a energia atómica implicava radioactividade, e a radioactividade significava perigo. A contagem de fundo da divisão dos átomos na atmosfera já se multiplicara oito vezes a partir dos reactores relativamente normais em utilização. Por muito cuidadosa que fosse a filtragem, por muito minuciosa que fosse a destruição dos desperdícios atómicos, um fluxo contínuo de veneno atómico libertava-se no ar. Havia um limite para a energia que podia ser produzida sem destruir toda a vida na Terra, e esse limite tinha sido quase alcançado, sem proporcionar energia suficiente para que a civilização humana pudesse continuar a crescer. 
Era esse o motivo da criação do Laboratório Espacial, tentar descobrir um novo princípio para a obtenção de energia atómica. Para os homens que nele trabalhavam, era o mais arriscado empreendimento em que se tinham metido. Os melhores cérebros da raça humana trabalhavam febrilmente entre explosivos atómicos mais terríveis do que bombas de fusão; cada aspiração era perigosa; cada batimento cardíaco podia ser o último. Faziam investigações demasiado perigosas para serem feitas na Terra, ou mesmo na Lua; tinham que ser feitas a quarenta mil milhas de distância, no espaço, com a Lua como escudo da Terra contra o que pudesse ocorrer no Laboratório, para que pudessem descontrair-se um pouco de vez em quando. 
"Se o Laboratório tiver êxito" - pensou Kenmore - "a Terra tornar-se-á um jardim e as estrelas poderão ser nossas." Era o sonho mais maravilhoso que os homens alguma vez tinham tentado realizar. "Mas, por causa da natureza dos seres humanos, a própria esperança tem inimigos."
Há sistemas sociais que só funcionam quando os homens morrem de fome e vivem na ignorância. Havia nações onde esses sistemas ainda prevaleciam. As suas castas dominantes seriam derrubadas, se a prosperidade alcançasse os seus povos, os seus ensinamentos não podiam sobreviver ao esclarecimento; os seus governos seriam destruídos pelo progresso. E, para essas nações, o propósito da Cidade e do Laboratório Espacial era uma ameaça real e presente. Por isso havia espiões e sabotadores que podiam ganhar fabulosas recompensas por qualquer acção que prejudicasse ou pusesse fim ao projecto lunar.
O jeep continuava o seu caminho, aos saltos, saindo do local onde deveria ter sido destruído. A roda aguentaria - ou não. Seria absurdo que Kenmore e Moreau tentassem enfrentar os autores da explosão naquele terreno tão acidentado. Não conseguiriam encontrar os culpados; além disso, o jeep não estava equipado para o combate. Nenhum jeep estava. Estranhamente, não eram permitidas armas na Lua, fora das bases militares ocultas. "Por isso, os mais implacáveis conflitos" - pensou Kenmore - "pelas mais altas paradas jamais jogadas, terão que ser travados de mãos nuas." Os jeeps não podiam lutar de outra forma que não fosse abalroarem-se uns aos outros, e os homens não podiam travar batalhas, mas apenas dedicar-se ao assassinato.

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