nº 273 - Desígnio Negro 2


Autor: Philip José Farmer
Título original: The Dark Design
1ª Edição: 1977
Publicado na Colecção Argonauta em 1980
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca 

Súmula - Foi apresentada no livro nº272 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Por razões técnicas, Desígnio Negro (The Dark Design), da célebre série Riverworld de Philip José Farmer, foi dividida em dois volumes.
Há que dizer que o segundo volume é muito diferente do primeiro. A tensão que se acumula nas páginas deste, conduz a uma acção realmente explosiva, raras vezes vista na própria ficção-científica.  

Clemens esquecera-se que as bombas do dirigível ainda não tinham sido largadas.
O segundo avião, um anfíbio de dois lugares, passou como uma bala por baixo dele. O piloto olhou para ele, frustrado. Estavam demasiado perto um do outro e ele seguia demasiado depressa para poder virar para a direita e disparar as metralhadoras da proa. Mas o atirador no posto atrás do piloto estava a virar as duas metralhadoras. Uma bala em cada dez seria tracejante, coberta de fósforo. Bastava uma, numa célula de gás, para incendiar o hidrogénio. O "Minerva" estava apenas a 150 metros do "Mark Twain" e aproximava-se cada vez mais. Os seus motores giravam à máxima velocidade. Além disso, com um vento de popa de 16 kms/h, isso significava que o barco não tinha possibilidades de escapar.
Se ele pudesse lançar as bombas antes de as balas tracejantes o apanharem... talvez o atirador falhasse. Quando acabasse de virar as metralhadoras já o avião estaria longe do dirigível.
O flanco do barco surgiu perante ele, cada vez maior. Mesmo que o dirigível não fosse atingido pelas tracejantes, estava tão perto do barco que um e outro iriam pelo ar. 
Estimando o tempo da passagem do "Minerva" sobre o barco, armou o mecanismo de lançamento das bombas com um movimento do pulso. Depois saltou do assento e mergulhou pela porta aberta. Não tinha tempo para pôr um pára-quedas. Além disso, estava demasiado perto da água para que ele se abrisse a tempo. Quando caiu, foi apanhado por uma onde de ar que parecia soprada por uma tremenda ventoinha. Trambulhou, perdeu a consciência, incapaz de pensar mesmo por um momento em como perdera o seu lugar de imediato, perante João-Sem-Terra. Ou os seus planos para se ver livre de João e assumir a capitania do "Rex Grandissimus"

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Extracto do Diário de Bordo de Peter Frigate, no Mundo do Rio:

(...) Aqui estou eu nesta tarde luminosa, sentado no convés de uma escuna de dois mastros, escrevendo com um aparo feito de um osso de peixe, com tinta de negro de fumo sobre papel de bambu. Quando acabar, enrolarei as páginas, embrulhá-las-ei em membrana de peixe e colocá-las-ei no interior de um cilindro de bambu. Martelarei um disco de bambu para ter o topo aberto. Oferecerei uma prece aos deuses, quaisquer que eles sejam. E atirarei o contentor por cima da borda. Assim ele te alcance através do Correio do Rio.
O capitão, Martin Farrington, o Frisco Kid, está ao leme neste momento. Os seus cabelos castanho-avermelhados brilham ao sol e batem com o vento. Parece meio polinésio e meio céltico, mas não é nem uma coisa nem outra. É um americano de ascendência inglesa e galesa, nascido em Oakland, Califórnia, em 1876. Não me disse isso, mas eu sei-o porque sei quem é ele na realidade. Não posso dizer quem é porque, por qualquer razão, ele viaja sob pseudónimo (o qual, pelo que parece, foi inspirado por duas das suas personagens fictícias). Sim, foi um escritor famoso. Talvez o possas vir a descobrir, ainda que duvide. Uma vez disseste-me que leras somente uma das suas obras: "Contos da Patrulha da Pesca", e tinhas pensado que valia pouco. Fiquei desanimado quando te recusaste a  ler as suas obras principais, muitas das quais são clássicas (como o autor deu a entender no volume I, Martin Farrington é, na verdade, Jack London).
Ele e o imediato, Tom Rider "Tex", e um árabe chamado Nur são os únicos membros que restam da tripulação original. Os outros afastaram-se por uma razão ou outra: morte, aborrecimento, incompatibilidade, etc. Tex e o Kid são as únicas pessoas que encontrei n'O Rio que podem dizer-se famosas. Quase encontrei George Simon Ohm (ouviste falar de "ohms"?) e James Nasmith, inventor do bate-estacas a vapor. Mas há mais: Rider e Farrington estavam perto do cimo da lista das vinte pessoas que eu mais gostava de encontrar. É uma lista muito peculiar, mas eu, sendo humano, sou peculiar. 
O sobrenome autêntico do imediato não é Rider. O seu rosto é dos que não se esquecem, apesar da ausência do chapéu branco de dez galões o fazer parecer menos familiar. Foi o grande herói de filmes da minha infância, imediatamente ao lado dos meus heróis dos livros: Tarzan, John Carter de Barsoom, Sherlock Holmes, Dorothy de Oz e Ulisses. Dos 260 filmes do Oeste em que ele participou, vi pelo menos 40. Eram apresentados em programas duplos ou triplos nos cinemas de segunda classe - Grand, Princess, Columbia e Apollo - em Peoria. (Todos desapareceram muito antes de eu chegar aos cinquenta anos). Os seus filmes deram-me algumas das minhas horas mais douradas. Não me recordo dos pormenores ou cenas de um só - tudo se confunde numa espécie de montagem resplandecente com Rider como uma figura gigantesca, no centro.
Quando eu tinha cerca de cinquenta e dois anos, interessei-me por escrever biografias. Sabes que pensei durante muitos anos escrever uma tremenda biografia de Sir Richard Francis Burton, o famoso ou infame explorador, autor, tradutor, espadachim, antropólogo, etc, do século XIX.
Mas as exigências financeiras ocuparam-me tanto que pouco pude fazer em "Um Duro Cavaleiro para a Rainha". Quando, finalmente, consegui começar a trabalhar em tempo inteiro no Cavaleiro, Byron Farwell surgiu com uma excelente biografia de Burton. Portanto, decidi esperar alguns anos, até que o mercado aceitasse outra biografia de Burton. E, quando ia começar de novo, foi publicada a biografia de Burton por Fawn Brodia - provavelmente a melhor de todas.
Portanto adiei o projecto por dez anos. Entretanto decidi escrever uma biografia do meu herói favorito da infância (ainda que considerasse Douglas Fairbanks, Sénior, como meu igual favorito).
Li muitos artigos sobre o meu herói em revistas de cinema e do oeste e em recortes dos jornais. Apresentavam-no como se tivesse levado uma vida mais aventurosa e esplendorosa que a dos heróis que ele interpretava nos filmes.
Mas eu ainda não tinha o dinheiro para deixar de escrever ficção por tanto tempo que pudesse viajar pelo interior do país a falar com pessoas que o tinham conhecido, mesmo que as pudesse encontrar. Havia algumas que podiam dar-me pormenores das carreira dele, como Texas Ranger, ou como U.S. Marshall no Novo México, ou ajudante de xerife no território de Oklahoma, ou um dos Rough Riders de Roosevelt em San Juan Hill, ou como soldado na Revolta das Filipinas, ou na Rebelião dos Boxers, ou como domador de cavalos para os ingleses, e possivelmente como mercenário na guerra dos Boers, como mercenário de Madero no México, como artista de "show" do Oeste, e como o mais bem pago actor de cinema do seu tempo. 
Os artigos sobre ele não eram dignos de confiança. Mesmo aqueles que diziam tê-lo conhecido bem, faziam relatos diferentes da sua vida. As notícias necrológicas estavam cheias de contradições. E eu sabia que a Fox e a Universal tinham publicado muitas histórias publicitárias sobre ele, a maior parte das quais tinham de ser verificadas por serem exageradas ou por serem mentiras completas.
A mulher que se pensava ser a sua primeira esposa escrevera uma biografia dele. Por ela nunca se poderia saber que ele se divorciara dela e casara depois duas vezes. Ou que tivera duas filhas de outra mulher. Ou que ele tinha um "problema de bebida". Ou um filho ilegítimo que era joalheiro em Londres.
Ela pensou que era a primeira mulher dele mas depois descobriu-se que era a segunda ou terceira. Ninguém tinha a certeza disso.
E ele continuava a ser um herói sem mácula para ela, mesmo depois de se ter dito tudo isso sobre o homem. O que diz ainda mais quanto a ela.
Um bom amigo meu, Coryel Varoll (lembras-te dele, um acrobata de circo, malabarista, equilibrista, grande bebedor de cerveja, entusiasta de Tarzan) escreveu-me por causa dele. Em 1964, segundo creio.
"Lembro-me da primeira vez que o vi pensei que estava a ver Deus... através dos anos, vivendo no mesmo bairro dele (queria dizer que no circo), a reverência desfez-se, mas ele era sempre admirado pela maior parte das pessoas e os garotos olhavam-no sempre como um ídolo, mesmo depois de ele ter abandonado os filmes... Sei que ele era um bom tipo: capaz de andar à pancada quando bêbado logo que encontrasse a mínima desculpa, e que fazia as coisas mais levadas do diabo (mas não é certo que todos nós as fazemos?)... Tenho algumas dúzias de histórias sobre ele que nunca foram publicadas. Contá-las-ei da próxima vez que estivermos juntos".
Mas isso, Cory nunca fez.
Até a data do nascimento dele esteve em dúvida. Os seus estúdios e a mulher dele diziam que nascera em 1880. O monumento perto de Florence, Arizona (onde ele morreu, a 130 km/hora numa estrada de terra batida) diz 1880. Mas há provas em contrário, dizendo que foi em 1870. No entanto, tivesse sessenta ou setenta, parecia que acabara de fazer cinquenta. Mantinha-se sempre em boa forma.
Um amigo que o vira na viagem fatal dissera que ele conduzia um conversível Ford amarelo. A mulher disse que era branco. Assim eram as testemunhas oculares. Os departamentos de publicidade dos estúdios diziam que ele nascera e fora criado no Texas. Descobri por mim próprio que era uma mentira. Nascera perto de Mix Run, Pensilvânia, e saíra de lá aos dezoito anos para ir para o Exército.
Quando eu ia para escrever uma carta ao Departamento de Guerra para obter uma cópia do seu registo militar - e saber o que ele fizera no Exército - surgiu uma novela por Darryl Ponicsan. Senti-me de novo desanimado. Mais uma vez actuara demasiado tarde. Ainda que o livro fosse uma semi-ficção, o autor fizera o trabalho de investigação que eu pensara fazer. 
Portanto o meu herói não era o neto de um chefe Cherokee. Nem nascera em El Paso, Texas. E, ainda que estivesse no Exército, não fora gravemente ferido em San Juan Hill, ou nas Filipinas.

Sem comentários:

Publicar um comentário