nº 513 - O Planeta das Virgens



Autor: Poul Anderson
Título original: Virgin Planet
1ª Edição: 1992
Publicado na Colecção Argonauta em 2000
Capa: António Pedro
Tradução: Alexandra Santos Tavares 

Súmula - foi apresentada no livro nº512 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Num futuro ainda remoto, quando as forças terrestres tiverem colonizado inúmeros planetas de vários sistemas solares muito distantes do nosso, uma frágil aliança dos mundos civilizados manterá um sistema de patrulhamento e vigilância, para evitar as formas mais gravosas de criminalidade. Trata-se do serviço de coordenação, sediado no planeta Nerthus, a cerca de um milhar de anos-luz do nosso próprio sistema solar.
É pois a partir de Nerthus que o jovem Davis Bertram inicia uma aventura solitária para tentar descobrir, no Delta Cabeça de Lobo, um novo mundo desabitado ou primitivo. Mas Bertram alimenta outra esperança secreta: três séculos atrás, um transporte de mulheres que viajava para uma área já colonizada caíra no planeta Atlantis, cuja localização exacta não era conhecida por ninguém. Iria Bertram descobrir um planeta só habitado por mulheres?
E contra todas as espectativas é isso mesmo que lhe sucede. Mas então Bertram tem várias surpresas: mas abandona a sua nave, é capturado por uma mulher guerreira, depois as habitantes do planeta consideram-no um monstro e, finalmente descobre que elas não têm nenhuma ideia do que seja na realidade um homem. 

Nota do Autor

Os leitores de ficção-científica estão interessados em ciência, e é uma pena conseguirem tão pouca. Com algumas poucas excepções honrosas, os escritores têm a propensão geral de criar ou impossibilidades tais ou variações menores sobre a Terra e a civilização ocidental que já conhecemos. Até aqui, e tanto quando sei, apenas Hal Clement conseguiu na realidade realizar os seus cálculos, e a sua Missão de Gravidade é por isso um exercício de lógica fascinante. A história actual não tem pretensões de tal estatura intelectual, mas existem alguns detalhes de fundo que não puderam ser incluídos na narrativa e podem ter algum interesse. 
Um conto é considerado fantástico apenas se partir de um pressuposto contrário aos factos. No caso presente, apresentei o postulado - que pode até ser verdade, tanto quanto se sabe - de que a relatividade dá apenas uma imagem parcial da estrutura do universo, e que algum dia novas descobertas possam ser feitas que nos forcem a modificar a nossa teoria física.
Resumindo, penso que a viagem mais rápida do que a luz é possível. Isto não quer dizer que acabe a aceleração simples; essa ideia foi excluída tanto teórica como experimentalmente. Mas apesar de a velocidade de grupo de uma sequência de onda de partículas ser limitada pela luz, a velocidade de fase não é. Segundo essa teoria, nesta "história do futuro", a invenção de um aparelho para lidar com as funções psi descontínuas, permite que uma nave espacial adquira uma pseudo-velocidade (não uma verdadeira velocidade no sentido mecânico) limitada apenas pela frequência dos osciladores do motor.  
Na base desta física postulada, parece-me razoável supor que o controlo da gravidade, tanto para gerar um campo interno e um mecanismo de propulsão para a viagem sub-luz, seja possível, e que um fenómeno como o "vórtice da trepidação" possa na realidade existir. Nenhuma destas suposições é necessária para o enredo, mas contribuiu para ele. 
Tudo o resto se encontra estritamente no interior da ciência actual. Uma arma de raios poderia ser construída hoje, embora fosse uma enorme máquina desajeitada. (A arma da história depende de um dieléctrico quase perfeito, algo em que os laboratórios Bell estão agora a trabalhar.) O ajustamento electrónico de um padrão emocional é prenunciado por técnicas terapêuticas como as dos electrochoques e medicamentos tranquilizantes. Os nossos computadores actuais e autómatos são robôs embriónicos. A partogenése foi já experimentada em mamíferos, e não existe qualquer motivo conhecido para que uma pesquisa nesse campo não se possa aplicar ao ser humano. 
Com a viagem interestelar, existem certas consequências sociais lógicas. Os homens irão emigrar para novos mundos por um motivo ou outro; nesta história, não existe qualquer motivo económico para deixar a Terra, mas existe uma migração psicológica análoga a toda a migração de liberais europeus para a América depois de mil oitocentos e quarenta e oito, em que a maioria dos homens não encontra a cultura mecanizada e altamente intelectualizada habitual na Terra.
A guerra interestelar e o governo interestelar são ambos improváveis: o espaço é demasiado grande, e um planeta inteiro, demasiado auto-suficiente. Mas uma aliança entre os mundos civilizados (a União) e uma patrulha conjunta para protecção dos indivíduos e das sociedades mais atrasadas de formas de exploração maiores (o Serviço de Coordenação) virão a ser provavelmente organizados. Outras características da minha civilização futura, com a linguagem Básica e o panteísmo filosófico do Cosmos - nenhuma delas irá substituir todas as suas correspondentes antigas - são necessariamente um trabalho de cálculo; apenas podemos ter uma certeza, a de que o futuro irá ser diferente do presente. Na realidade, uma história passada daqui a alguns séculos deverá ser assim pensada como uma tradução, não meramente de linguagem mas de personalidades e conceitos que correspondem apenas aproximadamente ao que conhecemos. 
Com as novas tecnologias, a viagem interestelar irá produzir mais problemas do que resolvê-los. Destes, é claro, a cartografia não será o último. Não que alguém mentalmente são se vá preocupar com os mapas tridimensionais da Galáxia; um catálogo de dados astronómicos dá muito mais jeito. Mas a Galáxia é de tal forma enorme que numerar cada estrela individualmente iria ser um sistema demasiado inepto e demasiado propenso ao erro.
Imaginei, em vez disso, que as regiões maiores fossem consideradas de forma mais ou menos arbitrária, e que fossem nomeadas as constelações, tal como aparecem em algum planeta base dentro de cada região. Assim sendo, todas as outras estrelas da região podem ser relacionadas com este sistema de constelações da forma habitual da astronomia do século XX. 
Desta forma, o Manual do Piloto irá catalogar estes planetas base, ou melhor, as suas estrelas, e cada uma dessas entradas fará referência a toda uma região. Naturalmente, as estrelas maiores, como por exemplo Canopus, visíveis através de diversas regiões, terão uma designação diferente em cada um deles, mas esta é uma simples questão de remissão recíproca.
O planeta do género da Terra que é Nerthus é uma dessas bases. Está a cerca de mil anos-luz do Sol na direcção de Argus. A Cabeça de Lobo é uma constelação conspícua nos seus céus. A designação correcta dos sóis duplos de Atlantis, traduzidos do Básico para o latim que usamos hoje, é, assim (Ar293) Delta Capitis Lupi. Como é usado na astronomia do século XX, o "Delta" indica que esta estrela é a quarta mais brilhante em Capitis Lupi como é vista de Nerthus. 
Os membros de um sistema de uma estrela dupla giram em volta do seu centro comum de gravidade. Na prática, a estrela mais maciça é escolhida como sendo a central e chamada "A", e a sua companheira, "B".  (É claro que  geralmente se lhes dão nomes mais populares.) Os planetas de uma estrela são numerados do interior para o exterior, I, II, III, etc., e o mesmo se aplica aos satélites de qualquer planeta.
(Não pretendi dizer que quase todas as estrelas - de População I, pelo menos - possuem planetas. Isto foi estabelecido como um facto e mil novecentos e cinquenta e nove.)
Os nomes dos corpos celestes no interior de um dado sistema, com oposição aos números, são geralmente escolhidos para se enquadrarem num padrão coerente. Os vulcões e o hemisfério exterior aquoso do nosso mundo sugeriu-me o nome de Atlantis; os motivos míticos cretenses e gregos seguiram-se logicamente aos outros corpos, uma vez que a Atlantis da lenda pode bem ser uma reminiscência do Império de Minos.
Delta Capitis Lupi A (mais tarde chamada Daedalus) é do tipo "AO", uma estrela quente azulada, com a massa de quatro Sóis e a luminosidade de oitenta e um Sóis (tirado do diagrama da massa-luminosidade). A sua companheira "B" (Icarus) é do tipo "GO", quase idêntico ao Sol. Se considerarmos "A" como sendo o centro, o que podemos legitimamente fazer, então "B" gira em volta de "A" a uma distância média e noventa e oito Unidades Astronómicas, com um período de quatrocentos e oitenta e cinco anos. Devido à proximidade de "B", "A" possui uma luminosidade aparente 0,0085 vezes maior do que o Sol visto da Terra. Isto é comparável ao Sol a onze Unidades Astronómicas, bastante depois de Saturno, mas o diâmetro angular de "A" para "B" é muito menor. Olhando à vista desarmada para "B", "A" pouco mais é do qeu uma estrela super-brilhante. 
"A" tem três planetas próprios, nenhum deles habitável para o homem. "B" possui dois, dos quais Minos é o primeiro. Para além disso, devido aos efeitos gravitacionais estelares, existem apenas asteróides. 
Minos está a uma distância média de "B" de uma Unidade Astronómica. Por esse motivo, recebe quase em média a mesma quantidade de calor e luz que a Terra. No entanto, a atracção gravitacional de "A" alongou a sua órbita em direcção a si própria, de forma que o eclipse tem uma excentricidade de 0,2. Daqui resultam as estações de Atlantis, com o Inverno a chegar quando Minos se encontra mais afastada de "B" e mais  próxima de "A", e no Verão, as condições são invertidas. 
Minos é do tipo geral de sessenta e um Cygnus C, o planeta extra-solar descoberto por Strand em mil novecentos e quarenta e cinco. A sua massa é cinco mil vezes a da Terra, o seu diâmetro equatorial de cinquenta e um mil e duzentos quilómetros, e o seu período de rotação tem cerca de dez horas. Tal como todos os planetas gigantes, possui uma atmosfera densa, composta na sua maior parte por hidrogénio. 
Possui também dezoito satélites. A maior parte deles é de tal forma pequena e afastada que se torna insignificante, mas os inferiores são visíveis de Atlantis, que é o terceiro planeta satélite do tamanho da Terra de Minos.
Na tabela que se segue, a coluna 1 dá-nos o diâmetro equatorial de cada um dos primeiros cinco satélites, em quilómetros. (A sua densidade é mais ou menos a mesma da Terra, 5,5 g/cc.); na coluna 2, estão descritos os raios orbitais médios em volta de Minos, em quilómetros; na coluna 3, o período de cada órbita em horas. A coluna 4 exibe o diâmetro angular como é visto de Atlantis numa aproximação, em graus de arco. (Para se poder fazer uma comparação, a Lua vista da Terra tem cerca de 0,5 graus de través); na coluna 5, temos o tempo entre as oposições sucessivas a Atlantis, em horas. Por fim, na coluna 6, estão exibidos os respectivos nomes.

  Lua 123 4 56
  I - 162161,0002,45 Ponto 3,1 Aegeus
 II - 3218 272,0005,20,9 9,05 Ariadne
III - 12,502483,00012,2 Atlantis
IV - 4793 720,00022,2 0,7 26,9 Theseus
 V - 16101,920,000 97,00,07 114,0 Pirithous

Todas estas órbitas são eclipses de pouca excentricidade, aproximadamente no plano equatorial de Minos, embora ligeiramente inclinadas em relação umas às outras. 
O arrastamento do planeta maior deu a estes satélites um período de translação igual ao da rotação, de modo que voltam sempre a mesma face à sua primária. Pelo mesmo motivo, este hemisfério interior é arqueado na direcção de Minos e existe pouca inclinação axial, embora haja uma precessão considerável.
No caso específico de Atlantis, esta deformação permanente concentrou a maior parte da terra no hemisfério interior e produziu o continente principal, no qual onde a acção se desenrola, extremamente montanhoso. (Mais tarde, este continente foi denominado Labirinto.)
O hemisfério interior de Atlantis tem um céu espectacular. Minos exibe um diâmetro angular de cerca de sete gruas, e tendo um albedo de quarenta e cinco por cento, é brilhantemente luminoso, o equivalente na fase total a cerca de mil e duzentas fases cheias da Lua. Para além disso, Ariadne e Theseus dão cada um deles diversas vezes tanta luz como a Lua. Aegeus e Ariadne nunca se põem, mas são vistos a moverem-se através de Minos de oeste para leste, e depois novamente por trás de Minos na direcção oposta. Como nos é demonstrado na coluna cinco, para um observador acostumado à lua da Terra, aqueles satélites pareceriam quase colidir. Aegeus é visto inteiro no seu percurso através do céu em 3,1 horas e a atravessar um ciclo completo de fases em cerca de trinta horas; o percurso aparente tem cerca de dezoito graus de través. Este satélite, no entanto, apenas surge como uma estrela pequena e rápida de brilho flutuante. Ariadne completa o seu percurso aparente, cerca de trinta e dois graus de largura, em 9,05 horas e um ciclo de fases em cerca de sessenta e três horas e meia ou cerca de cinco dias de Atlantis. Devido à sua inclinação orbital, todos os satélites se encontram geralmente "acima" ou "abaixo" de Minos quando passam por ele. Uma visão ocasional é a de uma Ariadne cheia a transitar por um Minos cheio à meia-noite e tornando-se de uma coloração acobreada quando entra no cone de sombra de Atlantis. O satélite exterior maior, Theseus, nasce e põe-se de forma habitual, movimentando-se um pouco mais lentamente do que a Lua, e completa um ciclo de fases em cerca de cento e trinta e cinco horas, ou onze dias de Atlantis. 
O hemisfério exterior nunca vê Minos, somente os satélites interiores que nascem e se põem lentamente no céu apenas perto do limite hemisférico, e vê menos de Theseus.
O sistema Ariadne-Atlantis-Theseus começa um novo ciclo de movimentos a cerca de cada trezentas e cinquenta horas.
Durante cerca de metade do Inverno do ano de Minos, que tem a mesma duração do da Terra, a estrela companheira "A" ilumina Atlantis após "B" se ter posto. No Verão, as duas estrelas parecem aproximar-se gradualmente uma da outra, até que, a meio do Verão, "A" é ocultada por "B".
O hemisfério interior de Atlantis vê o eclipse total de "B" todos os dias, quando Minos se encontra entre ele e a estrela. A altura precisa depende da longitude; é quase ao meio-dia, no local desta história. Uma duração teórica deste eclipse será de cerca de onze minutos, na realidade talvez um pouco menos, devido ao efeito refringente da atmosfera de Minos. "A" é eclipsado algures durante o dia no Verão e algures durante a noite no Inverno. Existem também eclipses ocasionais de qualquer uma das estrelas causados pelos outros satélites.
Ariadne e Theseus produzem fortes efeitos de maré nos oceanos de Atlantis, sendo as primeiras marés altas iguais às da Terra, e as segundas marés quase seis vezes maiores. Para além disso, existe a atracção mais ou menos influente de Minos e os efeitos variantes e mais fracos de "B" e dos satélites mais pequenos. Isto dá origem a oceanos turbulentos, com padrões de ondas fantasticamente complicados, de fluxo e refluxo. As margens mais baixas são transformadas em pântanos salgados, e as mais elevadas são fustigadas por ondas violentas. Os orifícios causados pela maré são bastante comuns ao longo das saliências irregulares continentais dos rochedos. Só os mares interiores é que se aproximam das condições terrestres. 
As mesmas forças gravitacionais tornam o diastrofismo de Atlantis mais rápido do que o da Terra. O satélite possui extensas regiões vulcânicas e muitas zonas são sísmicas. A libertação do dióxido de carbono através dos vulcões nos períodos tectónicos, seguida do seu consumo igualmente rápido na rocha exposta de montanhas recentes, faz com que a história geológica dependa de alterações climáticas súbitas. Devido à atracção maior de Coriolis, as tempestades ciclónicas em Atlantis são mais frequentes e mais violentas do que as da Terra. 
Nesta altura da história, no entanto, existe um clima ameno interglaciar e a vida, cuja bioquímica é bastante terrestre - como seria de esperar num planeta tão parecido com a Terra - está florescente. Não existem calotas polares, mas as montanhas mais altas retêm alguns glaciares e as terras altas têm neve durante o Inverno. 
Poderia parecer inevitável que os mamíferos se desenvolvessem sob tais condições alteráveis, mas nada existe de inevitável na evolução. O progresso da vida em Atlantis foi, na realidade, retardado pelas condições climatéricas inseguras e pela geologia cataclísmica, que tendia a matar todas as novas formas terrestres antes que se estabelecessem. Apenas as aves estão equipadas para escapar a alterações mais súbitas e poderosas do que qualquer outra coisa que a Terra tenha conhecido - e os geólogos do século XX começam a acreditar que as revoluções climatéricas do nosso próprio planeta se deram mais rapidamente do que se pensou anteriormente. Sempre que as condições se tornavam novamente favoráveis, as aves de Atlantis explodiam numa nova multiplicidade de espécies, incluindo tipos gigantes que não voavam.
Na realidade, existem alguns poucos mamíferos primitivos em Atlantis; no hemisfério exterior, onde a grande superfície de água torna o clima um pouco mais estável. Mas eles ainda não chegaram à secção interior, e os seres humanos proscritos, incapacitados de navegar para longe naqueles mares traiçoeiros, nunca os viram.
E é esta a base científica da história.  O leitor é convidado a fazer os seus próprios cálculos, baseando-se nos meus dados fictícios, e a desafiar-me, se pensar que me enganei em qualquer parte. Essa é uma das coisas que torna a ficção-científica divertida.

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