nº 211 - Entre Planetas



Autor: Robert A. Heinlein
Título original: Between Planets
1ª Edição: 1955
Publicado na Colecção Argonauta em 1975
Capa: Lima de Freitas
Tradução: Eurico da Fonseca

Súmula - foi apresentada no livro nº210 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Hoje sabe-se que Vénus é um mundo de pesadelo, coberto por nuvens espessas, e em cuja superfície, varrida por ventos de pesadelo, há temperaturas tão altas como as do Inferno. Quando Robert A. Heinlein escreveu ENTRE PLANETAS, supunha-se que Vénus bem era diferente - uma segunda Terra, talvez habitada, talvez coberta d seres semelhantes aos que tinham existido no nosso planeta, milhões de anos atrás. Ou talvez inteligentes.
Poderá considerar-se ultrapassada uma obra de ficção-científica que apresenta Vénus sobre essa visão que foi clássica? Certamente que não. O que importa são os pormenores, não é o sonho. É a análise das relações entre os homens, tal como os conhecemos, e as inteligências que não conhecemos. É, acima de tudo, o autêntico cântico em louvor da liberdade, que se encontra em ENTRE PLANETAS. Porque essa obra de Heinlein - talvez o autor de ficção-científica mais admirado no mundo - é um verdadeiro panfleto anti-colonialista. Ainda que situado num futro em que as colónias são os planetas do Sistema Solar.
Reproduzimos em seguida alguns trechos bem eloquentes. Trechos que mostram que a ficção-científica, longe de ser uma "literatura de evasão", é uma literatura de reflexão:

Mr. Reeves fitou as unhas.
- Tem a certeza absoluta do lado a que é leal? - disse ele, numa voz arrastada.
Don meditou por um instante. O pai nascera na Terra: a mãe era uma colona venusiana, da segunda geração. Mas nenhum dos planetas era a verdadeira pátria deles. Tinham-se conhecido e casado na Lua e tinham prosseguido os seus estudos de planetologia em muitos sectores do Sistema Solar. O próprio Don nascera no espaço e a certidão de nascimento, passada pela Federação, deixara em aberto a questão da nacionalidade. Podia atribuir-se uma dupla nacionalidade por derivação paternal. Não se considerava um colono de Vénus; passara-se tanto tempo desde que a sua família visitara Vénus que o planeta se tornara irreal no seu espírito. Por outro lado, só depois dos onze anos de idade os seus olhos tinham visto pela primeira vez as adoráveis montanhas da Terra.
- Sou um cidadão do Sistema - disse, numa voz rouca.
- Hummm - disse o director do colégio - é uma bela frase e talvez um dia signifique alguma coisa. Entretanto, falando como amigo, concordo com os teus pais. Marte virá provávelmente a ser um território neutro, ficarás aí em segurança. Mais uma vez, falando como amigo... as coisas podem tornar-se um pouco duras aqui para qualquer pessoa cuja lealdade não seja perfeitamente clara.
- Ninguém tem o direito de pôr em dúvida a minha lealdade! Perante a lei, sou como se tivesse nascido aqui!
O homem não respondeu. Don explodiu.
- Tudo isto é estúpido! Se a Federação não tencionasse sangrar Vénus até à morte, não se falaria em guerra.
Reeves ergueu-se.
- Basta, Don. Não pretendo discutir política contigo.
- É a verdade! Leia a Teoria da Expansão Colonial, de Chamberlain!
Reeves pareceu estupefacto.
- Onde foi que puseste as mãos nesse livro? Por certo que não na biblioteca da escola!
Don não respondeu. O pai enviara-lho, mas avisara-o de que não deixasse que alguém o visse; era um dos livros proibidos- na Terra, pelo menos.

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O comodoro prosseguiu:
- A piedade detém a nossa mão. As cidades da Terra não serão bombardeadas. Os cidadãos livres da República de Vénus não querem massacrar os seus irmãos na Terra... Ao fazê-lo, afirmamos a nossa posição de homens livres e oferecemos o nosso auxílio a todas as nações oprimidas e empobrecidas que sigam o nosso exemplo. Olhem para o céu... Os gordos estúpidos chefes da Federação fizeram da Circunterra o chicote de um capataz. A ameaça desta base militar no céu protegeu o seu império da justa fúria das suas vítimas durante mais de cem anos.
"Destrui-la-emos agora!
Povos escravizados da Terra, nós, homens livres da República Livre de Vénus, vos saudamos com este sinal!"

Introdução:

Entre Planetas é mais um clássico de Robert A. Heinlein, o mais antigo e mais célebre dos autores de ficção-científica. Sendo um clássico, dá de Vénus a Marte a imagem clássica, bem diferente da que a ciência, ajudada pelas sondas cósmicas nos trouxe. Mas o que verdadeiramente importa é que Heinlein soube, nesta obra, apresentar o problema do imperialismo e do colonialismo sob um novo aspecto. Que acontecerá quando os habitantes da Terra construirem colónias noutros planetas? Que dimensão terão esses problemas? Qual será o carácter da luta?
Eis o tema de Entre Planetas, o tema de uma obra que não é apenas mais uma novela de ficção-científica, mas sim um verdadeiro libelo.

Nota: uma das obras de Robert A. Heinlein que gostei mais. Um autêntico ritual de passagem de um jovem da juventude até à idade adulta, num contexto de guerra político-militar tipico do autor, ele próprio militar da Academia Naval dos Estados Unidos, uma experiência que foi determinante na sua produção literária.

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