nº 316 - O Homem Duplo



Autor: Philip K. Dick
Título original: A Scanner Darkly
1ª Edição: 1977
Publicado na Colecção Argonauta em 1983
Capa: A. Pedro
Tradução: Eurico da Fonseca 

Súmula - Foi apresentada no livro nº315 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Como será o mundo em 1994? Até que ponto o consumo da droga afectará os homens e a sua sociedade? Este o tema de A Scanner Darkly, uma das obras mais notáveis, se não a mais notável, de Philip K. Dick, cuja versão portuguesa sob o título O Homem Duplo constituirá o próximo volume da Colecção Argonauta.
E porquê O Homem Duplo? Porque o protagonista, Bob Arctor, tem uma dupla identidade, a sua, de passador de droga, e a de um tal John, que de vez em quando usa algo a que ele chama o confusor e que o faz aparecer como algo semelhante a um súbito raio de luz, dando-lhe uma identidade, a de um tal Fred que é um informador da polícia. Até que Fred recebe ordem para vigiar por meios electrónicos um tal Bob Arctor... 
Para o leitor menos prevenido, O Homem Duplo poderá parecer, mais do que uma novela de ficção-científica, uma apologia da droga. Não é. O facto de Philip K. Dick contar a sua história tal como ela seria engendrada pelo cérebro de um drogado deve ser olhado como um exemplo da inigualável profundidade psicológica dos seus derradeiros trabalhos, antes do seu falecimento em Março de 1982 - e é bom notar que o autor não se socorreu apenas da imaginação, mas também de trabalhos científicos sobre a dualidade do cérebro humano, trabalhos esses que são parcialmente reproduzidos.

Introdução:

Tal como algumas das derradeiras obras de Philip K. Dick, A Scanner Darkly, ora apresentado sob o título de O Homem Duplo na versão portuguesa, poderá ser tido como uma apologia da droga. Mas uma conclusão dessas será muito errada. Os objectivos de Philip K. Dick foram muito mais profundos e muito mais sérios, como o provam as referências que o autor fez, a trabalhos científicos de primeiro plano, como The Other Side of the Brain: An Appositional Mind, do Dr. Joseph E. Bogen, publicado no Bulletin of the Los Angeles Neurological Societies, vol.34, nº3, Julho de 1969, e The Split Brain in Man, de Michael S. Gazzaniga, Scientific American, Agosto de 1967.
E quem, mesmo assim, tiver alguma dúvida, que veja a Nota do Autor, no final. 

Nota do Autor:

Esta novela tratou de pessoas que foram punidas demasiadamente pelo que fizeram. Queriam passar uns bons momentos, mas eram como crianças brincando na rua; podiam ver que de vez em quando uma delas era morta - atropelada, aleijada, destruída - mas continuavam a brincar, de qualquer maneira. Na realidade éramos todos muito felizes durante algum tempo, sentados sem trabalhar e só a trampear e a brincar, mas foi um tempo terrivelmente breve e depois o castigo foi além de tudo quanto se podia crer; mesmo quando se podia vê-lo, não se acreditava nele. Por exemplo enquanto estava a escrever isto, soube a pessoa na qual a personagem Jerry Fabin fora baseada se suicidara. O meu amigo que me serviu de modelo para Ernie Luckman morreu antes que começasse a novela. Eu era como o resto deles, tentando brincar em vez de crescer, e fui punido. Estou na lista seguinte, que é a daqueles a quem esta novela é dedicada, e o que aconteceu a cada um. 
O abuso das drogas não é uma doença, é uma decisão, como a de se colocar em frente de um carro em movimento. Não se deve chamar a isso uma doença, mas sim um erro de julgamento. Quando um grupo de pessoas começa a fazê-lo, é um erro social, um estilo de vida. Neste estilo particular de vida a divisa é: "sê feliz porque amanhã estás a morrer". Mas o morrer começa quase imediatamente e a felicidade é uma memória. É, portanto, só uma aceleração, uma intensificação da existência humana vulgar. Não difere do nosso estilo de vida, é apenas mais rápido.Decorre em dias, semanas ou meses, em vez de anos - "Peguem no vosso dinheiro e deixem o crédito sumir-se", como Villon disse em 1460. Mas é um erro se o dinheiro é um tostão e o crédito uma vida inteira.
Não há moral nesta novela; não é burguesa; não diz que fizeram mal em divertir-se quando deviam trabalhar, diz somente quais as consequências. No drama grego estavam a começar, como sociedade, a descobrir a ciência, o que significa a lei causal. Aqui, nesta novela, é Nemesis, não o destino, porque qualquer de nós podia ter decidido deixar de brincar na rua, mas, como narro da mais profunda parte da minha vida e do meu coração, uma terrível Nemesis para aqueles que continuaram a brincar. Eu próprio, não sou uma personagem desta novela; sou a novela. Segundo penso, era assim a nossa nação inteira nesse tempo. A novela é sobre mais algumas pessoas do que as que conheci pessoalmente. De algumas lemos todos nos jornais. Foi isso, esse ficar com os nossos amigos e trampear enquanto fazíamos gravações, a má decisão da década, dos anos sessenta, tanto dentro como fora da sociedade estabelecida. E a natureza caiu sobre nós. Fomos forçados a parar por coisas terriveis.

Se houve nisso qualquer "pecado" foi o dessa gente querer continuar a ter para sempre um bom momento, e fomos punidos por isso, mas, como disse, sinto que a punição foi excessiva, e prefiro pensar nela somente de uma maneira grega, ou moralmente neutra, como simples ciência, como um efeito determinista e imparcial de causa e efeito... Amava-os a todos. Aqui está a lista daqueles a quem dediquei o meu amor:

A Gaylene - morta
A Ray - morto
A Francy - psicose permanente
A Kathy - lesão cerebral permanente
A Jim - morto
A Val - lesões cerebrais maciças, permanentes
A Nancy - psicose permanente
A Joanne - lesões cerebrais permanentes
A Maren - morta
A Nick - morto
A Terry - morto
A Dennis - morto
A Phil - lesões pancreáticas permanentes
A Sue - lesões vasculares permanentes
A Jerri - psicose permanente e lesões vasculares

... etc, etc.
"In Memorian". Este foram os companheiros que eu tive; não havia melhores. Permaneceram no meu espírito e o inimigo nunca será esquecido. O "inimigo" foi o seu erro no jogo. Deixem que brinquem todos de novo, de qualquer outro modo, e que sejam felizes.

Philip K. Dick morreu aos 53 anos de idade, em 3 de Março de 1982. Como tantos dos seus amigos e pelas mesmas razões, ainda que pensasse ter fugido a tempo. (Nota do Tradutor).

Nota: em 2006, Richard Linklater realizou o filme A Scaneer Darkly, entre outros com os actores Keanu Reeves, Winona Ryder, Robert Downey Jr. e Woody Harrelson.


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