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nº 551 - Os Vigilantes do Imaginário 1



Autor: Pat Cadigan
Título original: Mindplayers
1ª Edição: 1987
Publicado na Colecção Argonauta em Janeiro de 2004
Capa: Rogério Silva
Tradução: Alexandra Rolão Tavares
Revisão: Dália Moniz

Súmula - foi apresentada no livro nº550 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

Fi-lo por atrevimento. É o tipo de coisa que sabemos que é um erro mas que fazemos na mesma porque nos parece ser a Altura dos Erros.
É claro que sempre que fazia algo com Jerry Wirerammer era Altura dos Erros. Era essa a finalidade da vida de Jerry. Era um indivíduo de aspecto bastante alegre, muito transparente, com bons dentes, cabelos limpos, e roupas novas. Era também bastante louco. O seu ângulo era oblíquo no que dizia respeito ao resto da realidade; era uma daquelas anomalias localizadas na pele humana que tornava sempre as coisas interessantes. 
Ele veio ter comigo com o Capacete de Alienação, não fui eu quem foi à sua procura, o que prova que quando é Altura dos Erros, não vale a pena escondermo-nos na nossa própria eficiência, enquanto nos perguntamos como evitar exageros antes do tempo terminar. 
Mesmo assim, suponho que já deveria saber que não o devia ter deixado entrar, mas pensei, que se lixe, ele tinha tido todo aquele trabalho para descodificar a entrada para o programa de segurança, que já agora bem podia ver o que andava ele a fazer. 
O Capacete de Alienação era surpreendente. O trabalho de Jerry estava relacionado com contrabando de alguns produtos farmacêuticos - hipnóticos, psicotrópicos, facilitadores de meditação, e alucinogéneos. Geralmente o hardware não estava ao seu alcance, a não ser que o roubasse, e ele não gostava de roubar. Roubar era algo demasiado físico, tinha-me dito certa vez.
- Emprestaram-mo, simplesmente - disse ele, entregando-me o Capacete de Alienação. Ergui-o e examinei-o enquanto ele se punha à vontade no meu divã. Parecia ter um acabamento profissional, e não era feito em casa - era um capacete alcochoado, com um escudo ocular para prender em volta da cabeça, reservatórios embutidos para as doses calculadas de anestésico, sedativo, e loucura. - Experimenta-o, Allie - disse ele. - Trouxe-o para ti. Põe-no. Atreve-te.
A psicose é um gosto cultivado e eu não tinha a certeza de o ter conseguido cultivar. Mas eu gostava de jogos. Afinal, o jogo era o nome do jogo. Enfiei-o na cabeça. A almofada interior moldou-se à minha cabeça com um aconchego de tal forma confortável que me esqueci de que me encontrava em pé e quase tombei.
- Upa! Cuidado - Jerry riu-se, fazendo-me sentar no divã. - Ficarás bem daqui a um minuto.
Menos de um minuto. Atrás do escudo ocular, estava já a receber uma anestesia local. As ligações serpentearam sob as minhas pálpebras e em cada volta das minhas órbitas até ao nervo óptico. Quando o contacto se realizou, emergiram grandes explosões de cor. Onde é que o Jerry tinha arranjado uma coisa tão boa? Apercebi-me de que os meus olhos se encontravam parcialmente fora das órbitas, mas o capacete segurava-os de tal forma que mal podia na realidade senti-los. Foi então que a psicose começou a funcionar.
Muito subtilmente - a transição entre a sanidade e a insanidade foi muito suave. Todos os neurónios envolvidos foram atingidos de uma só vez, de forma que não houve uma sensação desagradável de encaixe. As coisas certas foram inibidas precisamente quando as outras eram estimuladas, produzindo uma alteração na química do cérebro que parecia ser tão natural como mudar de ideias. Nem sequer houve tonturas ou dor. Fiquei louca.
A própria psicose inserida era bastante convencional; eram alucinações paranóicas que se desenvolviam rapidamente, que se incentivavam umas às outras para adquirirem substância. Jerry estava a usar uma camisa branca, e isso significava que se eu ouvisse alguém, incluindo a mim própria, a tossir nos próximos minutos (e ouvi) podia ter a certeza de que havia uma máquina no telhado a enviar-me os pensamentos. Exactamente quais eram esses pensamentos não era claro, mas eu tinha de os receber: eu tinha sido a "Escolhida", e pouco depois de me ter apercebido disso, ouvi uma voz ao meu ouvido que mo confirmou. 
"Tu és a escolhida" - disse uma voz masculina agradável. - "Não o reveles a Jerry, no entanto. Sabes bem que isso iria ser um erro."
Não havia dúvidas disso. Deixei que os pensamentos fluíssem até mim e observei algumas alucinações pouco interessantes durante algum tempo até que o alarme fez anunciar o fim. O Capacete de Alienação tinha separado a química que tinha acrescentado à minha, tinha-a limpo, tinha-me sedado e desligado, substituindo os meus olhos com um movimento suave.
Jerry tirou-me o capacete da cabeça. - É bom, heim?
- Não é nada mau. Como é que o arranjaste?
Jerry encolheu despreocupadamente os ombros. - Já te disse. Foi-me emprestado.
- Sim, mas quem é que tu conheces que tu iria emprestar?
Ele encolheu novamente os ombros. - Não perguntei.
- Provavelmente, foram as mesmas pessoas que puseram a máquina no telhado.
- O quê? - disse Jerry, ainda animado.
- A máquina no telhado. Aquela que...
"Eu disse-te para não lho dizeres" - disse a voz masculina, que provinha agora de um lugar ligeiramente acima e à direita. Olhei na sua direcção. Jerry apercebeu-se disse a a sua alegria desvaneceu-se um pouco.
- Oh-oh - disse ele.
- O que queres dizer com isso?
- Nada.
- Não, tu querias dizer alguma coisa com isso e eu quero saber o que é.
- Nada, Allie, juro. É apenas uma expressão.
- Pois. 
- É . A sério. É só algo que eu digo de vez em quando. Oh-oh. Estás a ver?
Tentei parecer que estava. - Muito bem, Jerry. Como queiras. Mas estou metida em maus lençóis.
- Estás?
- Podes crer. E ninguém pode fazer seja o que for. 
Bem, tinha-me enganado acerca disso. Jerry ficou à espera que o sedativo me animasse mais um bocado e depois deixou-me numa sala de emergência de um serviço de limpeza onde, quando me encontrei novamente sã, a Polícia do Cérebro me prendeu.
É claro que seguiram a psicose até ao Jerry e ao seu capacete emprestado e também o apanharam. Jerry não era propriamente um vendedor licenciado de psicoses, e afinal veio a descobrir-se que o Capacete de Alienação era um modelo experimental que ele tinha roubado a alguém.
Fiquei durante bastante tempo sem saber o que tinham feito a Jerry. Mas o que me fizeram foi bastante interessante.

nº 552 - Os Vigilantes do Imaginário 2



Autor: Pat Cadigan
Título original: Mindplayers
1ª Edição: 1987
Publicado na Colecção Argonauta em Fevereiro de 2004
Capa: Rogério Silva
Tradução: Alexandra Rolão Tavares
Revisão: Dália Moniz

Súmula - foi apresentada no livro nº551 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

- Miúda - disse o homem grande que se encontrava no sofá - ainda bem que és uma Exploradora de Sofrimentos e não uma Vendedora de Neuroses. - Voltou-se de costas e observou os dançarinos no tecto. Um ano antes, também eu me poderia ter voltado para os observar, levada pela música clássica suave que fluía sob a nossa conversa, mas Jascha tinha-me avisado para não cair nessa táctica. Deixar que os patrões em potência dispersem a nossa atenção dessa forma pode levar a que acabemos por concordar com todos os tipos de coisas sem darmos por isso, e os menos escrupulosos usam ainda sugestões hipnóticas enraizadas de símbolos. Ou usam subliminares para nos convencerem de que não queremos o trabalho, se "eles" não nos quiserem. Mantive assim a minha posição, inclinada para o lado esquerdo com as mãos dispostas à minha frente, a tentar resistir à vontade de mexer nos estofos de lamê. Só uma pessoa com o sucesso de Nelson Nelson podia ter sofás de lamê. Estava morta por olhar para o tecto; o que quer que aqueles dançarinos ali estivessem a fazer, ele estava a divertir-se imensamente. Mas continuei a observá-lo a examinar o holograma até ele reconhecer o meu auto-controlo e se voltar para mim. 
- Muito bem - disse ele, enquanto alisava uma prega da sua túnica solta. As túnicas soltas estavam em moda agora; até eu estava a usar uma. - Muito bem. - Pressionou um botão na secretária baixa que se encontrava entre nós e a música desvaneceu-se. - O Bolshoi, há cerca de setenta anos, antes de eles perderem a importância. Agora são muito importantes. Gostas de bailado? 
- Muito. - Estava contente por não ter olhado para o holograma. Ter-me-ia perdido na actuação até ele me levar para uma saída, com sofá e tudo.
- Eu também. És boa. Estou a ver que é preciso mais do que um holograma para te dispersar a atenção, não é verdade? Claro. Mas ias ficar surpreendida com a quantidade de gente que cai nessa armadilha. - Acendeu um cigarro. - Queres um? É importado. Tabaco bom, eu não te iria tentar drogar. Detesto drogas. - Atirou-me o pacote e apanhei-o no ar.
- Obrigada - disse eu, enquanto acendia um no isqueiro do orifício do sofá.
- Estás impressionada? Por eu poder andar a dar tabaco importado?
- Na realidade, estou é mais satisfeita.
Nelson Nelson riu-se.
- Serves. Muito bem, podes trabalhar para mim. E isso é um privilégio, miúda, não dou trabalho a muita gente. Tenho uma lista de clientes em espera que podia chegar até à lua e eu gosto que seja assim. Iremos começar o teu treino assim que te mudares.
- Já tive o meu treino - disse eu, sentindo que não tinha nada a perder. Se ele me tinha deixado chegar até ali, não me ia mandar agora embora. - O J. Walter tornou-me na melhor Exploradora de Sofrimentos da cidade.
- Eu sei disso. E sei ainda mais uma coisa: os melhores institutos do país não treinam as pessoas sobre como devem trabalhar. Eu costumo treinar todo o meu pessoal. Vou tirar-te tudo e recuperar-te novamente. E quando eu terminar, irás ser a melhor do país. Se não fores, podes processar-me e eu irei concordar com qualquer quantia. Diz-me novamente qual é o teu nome completo e legal?
- Alexandra Victoria Haas.
- OK, Allie, só mais uma coisa antes de te mostrar o local. Se não gostares do que ouvires, podes ir-te embora agora. Estamos de acordo? - Ele olhou para mim. - Estamos. Vais ter de tirar esses olhos. - Deteve-se, à espera da minha reacção. - Isso assusta-te?
- Não, eu... 
- Muito bem. Eu não sabia. Não vemos muita gente hoje em dia a utilizar os olhos com que nasceram. Pensei que talvez tivesses a mania dos orgânicos, ou coisa parecida. Muitas agências permitem que as pessoas os mantenham até ao seu desgaste, mas eu digo, para quê esperar? Vais ficar ligada ao sistema com mais frequência do que qualquer outra pessoa em qualquer outra profissão. Os olhos vivos não foram feitos para saírem e entrarem das órbitas assim com tanta frequência. Em breve terias um par de olhos em mau estado, que poriam em perigo o teu nervo óptico. Os olhos que eu te vou dar, irão prender-se com mais facilidade aos músculos, para não falar do nervo óptico, de que já falei. - Nelson Nelson retirou outro maço de cigarros da secretária, recusando com um gesto o maço que me tinha atirado. - Fica com ele. Feliz aniversário. - Acendeu-o e exalou o fumo na direcção de um canto recôndito da sala. - Eles vêm para aqui vindos dos melhores institutos do país, a pensarem que podem safar-se com um pouco de palavrório. Mas não podemos fazer isso neste negócio. A última vez que tive o melhor Explorador de Sofrimentos da cidade nesse sofá, ele era um tipo pequeno e anafado que se queria ligar ao sistema através das orelhas. Disse que era a mesma coisa. Eu disse-lhe: - como é que vais ouvir-me dizer que o teu trabalho é uma porcaria, com os ouvidos tapados dessa maneira? Foi dar uma volta. Não é o melhor explorador de sofrimentos do país, disso podes ter a certeza. Depois havia o tipo que tinha uma "tomada" na parte de trás da cabeça. Eu disse-lhe: o que é que tu é, um empregado federal ou apenas um zombie autónomo? Ele disse que podia ligar-se directamente ao centro de visão do seu cérebro, fazendo um desvio completo do nervo óptico. Tive de o mandar embora. Não quero esse tipo de equipamento. - NN inclinou-se para a frente e semicerrou os olhos enquanto me observava: - Tu não tens tomadas na tua cabeça, pois não?
- Não, eu...
- Era só para ter a certeza. Pode haver um método melhor do que o sistema óptico, mas na minha opinião, este ainda não foi inventado. Ligar-se através dos ouvidos é muito complicado, leva muito tempo. Já alguma vez viste o interior de um ouvido? Que confusão! Fazer uma ligação através de um ouvido é como avançar por uma selva quando existe uma auto-estrada perfeitamente boa sem trânsito que se pode utilizar. E a ligação ao centro visual do cérebro é mais directa, claro, mas o cérebro não gosta disso. Gosta que as imagens atravessem o nervo óptico, da forma que sempre as recebeu. Tomadas na cabeça! Raios o partam, por que motivo pensam sempre as pessoas que têm de invadir o crânio como ladrões, quanto têm duas entradas perfeitas boas aqui? - Aponto com os dois dedos para os seus próprios olhos e pensei por um momento que se poderia acidentalmente magoar. 
- NN, eu estou de acordo com o sistema óptico - disse rapidamente, antes que ele pudesse inspirar novamente. 
- O sistema do J. Walter pode acomodar os orgânicos ou os substitutos. Mas eu vim aqui tendo conhecimento da tua política.
- Então, não há problema. - O sorriso dele era ditoso. - É tão bom quando não há problemas. Detesto ter de mandar alguém fazer um trabalho e este depois não ser feito porque os seus olhos não estão em boas condições, ou os nervos ópticos estão infectados, e tenho de gastar ainda mais do que perdi para resolver a situação.

Nota do Editor

Há muito que a Livros do Brasil tem sentido vontade de refrescar um pouco o aspecto gráfico das obras publicadas nas colecções Argonauta e Vampiro. Pensamos, com efeito, que os leitores fiéis destas duas colecções merecem:
- poder ter acesso a volumes produzidos em papel de melhor qualidade;
- com recurso a tipos e corpos de letra que facilitem e tornem mais agradável a leitura;
- E até a formatos dos livros que evitem a frequente divisão de uma mesma obra em vários volumes, com as consequências negativas que isso sempre acarreta para a fluência da leitura.
Tentando conciliar todos estes objectivos, a Livros do Brasil orgulha-se pois de anunciar que, a partir do próximo mês de Março, estas duas colecções mudarão ligeiramente de formato e de aspecto gráfico, passando além disso a comportar a existência de volumes simples e duplos, consoante a dimensão de cada uma das obras nelas contidas.

***

Nota pessoal

Há uma pormenor curioso que um coleccionador me mencionou relativo a esta edição, que penso não será do conhecimento público: é que alguns livros desta edição têm o número da lombada errado, aparecendo o número anterior, o 551, ao invés do correcto, que é o 552.


Esta foi a última edição da Colecção Argonauta publicada pelos Livros do Brasil no formato tradicional. A partir deste número, aumentaram o tamanho dos livros e também o preço, tendo esta decisão sido o princípio do fim e constituído um exemplo, no meu entender, de uma extrema falta de sensibilidade por parte da editora Livros do Brasil. Aliás os factos falam por si: foram publicados apenas mais 10 números, que na altura não comprei. Para mim, a Colecção Argonauta tinha terminado neste número.

Considero no entanto que este projecto não ficaria completo sem incluir também os restantes onze números publicados, que pelo menos em termos formais fazem realmente parte da colecção. Esta é a razão única pela qual são disponibilizados também aqui esses onze números seguintes, que entretanto adquiri, e que são realmente os últimos livros publicados pela  Colecção Argonauta.

Colecção Argonauta do nº501 ao nº552