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nº 54 - Regresso a Zero


Autor: Stefan Wul
Título original: Retour à "O"
1ª Edição: 1956
Publicado na Colecção Argonauta em 1959
Capa: Lima de Freitas
Tradução: Maria Adelaide Correia Freire e Raúl Correia


Súmula - foi apresentada no livro nº53 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta:


"Condenado à pena capital"!
Foi essa a sentença que Jâ Benal ouviu, pronunciada pelo Juíz Supremo da Justiça Terrestre. Jà Benal, jovem e prometedor físico e matemático, era culpado de negligência, de ser o responsável da catástroffe causada pela explosão do seu laboratório, catástrofe essa que, segundo a acusação, destruíra parte da cidade de Lepolvi e causara milhares de vítimas. 
Mas a pena de morte já não existia na Terra. Fora substituída por um castigo talvez mais desumano ainda, pela deportação para toda a vida na Lua, para onde os condenados eram enviados num escafandro-foguete numa viagem que durava três dias e que, na maior parte dos casos, terminava fatalmente no espaço ou na superfície do satélite da Terra. Os sobreviventes, criminosos de direito comum e político tinham conseguido, após dezenas de anos de esforços titânicos, construir uma civilização altamente mecanizada, mercê especialmente dos cientistas deportados como criminosos de guerra e essa civilização "lunar", baseada na ciência e no ódio, detestava a Terra. 
À frente do Conselho que regia os destinos da Lua, encontrava-se o Venerável Antepassado, um dos primeiros homens a chegar à Lua como deportado e que tinha um único desejo e um único fim a alcançar: vingar-se da Terra, atacá-la e dominá-la.
O governo terrestre tinha conhecimento desses planos. Mas como saber dos meios que os "lunares" dispunham para o seu ataque, e para quando estava ele preparado?
Só havia um único sistema: enviar um espião à Lua, um espião que fosse simultâneamente um cientista precioso à técnica lunar e um fiel cidadão da Terra. Mas um espião só poderia ser enviado abertamente se fosse, aparentemente, um criminoso que merecesse a pena capital. Só assim o Conselho da Lua não suspeitaria do enviado.
...Por isso Jà Benal foi condenado à pena capital...
É este o primeiro romance de Stefan Wul, nóvel autor francês de ficção-científica considerado por Igor B. Maslovski, crítico especialista de "Fiction", como um autor que pode ombrear com a maior parte dos mestres anglo-saxónicos e americanos e até suplantá-los. Com este romance, obteve o autor o "Prémiod e Ficção-Científica de 1957".
"Livros do Brasil", sempre interessados em oferecer ao leitor o melhor em cada ramo literário, esperam continuar a apresentar na sua "Colecção Argonauta" os magníficos romances de Stefan Wul.

nº 56 - Pré-História do Futuro



Autor: Stefan Wul
Título original: Niourk
1ª Edição: 1957
Publicado na Colecção Argonauta em 1960
Capa: Lima de Freitas
Tradução: Mário Henrique Leiria


Súmula - foi apresentada no livro nº55 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta:


Numa Terra devastada, seca, onde os grandes oceanos desapareceram e os seus fundos se cobriram de selvas e de pântanos, onde a enorme civilização técnica conseguida pelos homens de mihares de anos atrás desapareceu igualmente deixando apenas os vestígios arruinados das suas cidades abandonadas, os poucos homens que restam vivem em tribos, numa vida semelhante aos seus remotíssimos antepassados de uma pré-história que, afinal, voltou de novo.
Assim vive a tribo de Thôz, o Ruivo, nas suas tendas de pele de cão selvagem, entregando-se á caça e vivendo precáriamente dessa mesma caça, por vezes rara. A tribo deambula pela grande planície coberta de florestas que foi outrora o Oceano Atlântico, junto ao sopé do monte Santiag, entre as cordilheiras de Cuba e de Hait; o monte onde se ergue Santiag, a cidade dos deuses que apenas um único membro da tribo conhece: o Velho.
O Velho é, afinal, o grande senhor da tribo, acatado por todos, venerado e respeitado até por Thôz, o chefe. Quando o Velho vai a Santiag, quando ele se prepara para a grande viagem até às alturas nevadas, toda a tribo executa a dança sagrada e o Velho parte... quando volta, vem cheio de presentes dos deuses: estranhos recipientes metálicos, pedaços de vidro onde a tribo pode ver reflectir-se a cara dos seus membros, caixas com estranhas imagens estampadas, um nunca acabar de maravilhas.
Mas a tribo também tem um outro estranho membro: o rapaz negro, um garoto de quinze anos que nasceu negro entre uma tribo de louros. Esse atavismo biológico vota-o ao ostracismo. O rapaz negro é batido, é apedrejado pelas outras crianças, é desprezado pelos adultos. O Velho odeia-o e, quando parte de novo para uma visita aos deuses de Santiag, afirma que, à sua volta, o rapaz negro será morto.
Mais uma vez a tribo realiza a dança ritual e de novo o Velho segue o caminho de Santiag... mas não volta, e os guerreiros esperam-no em vão junto ao sopé do monte, entre as primeiras neves. 
E então o rapaz negro resolve fugir. Irá procurar o Velho e irá viver a sua vida de homem livre. É assim que o rapaz negro atinge Santiag, a maravilhosa cidade dos deuses e é assim também que dá o primeiro paso para a grande aventura que o levará a encontrar a amizade do urso, a descobrir o caminho dos deuses, a conduzir a tribo para além da terra dos monstros, e até mesmo encontrar os deuses, esses deuses que, afinal, partiram da Terra...
É mais um romance de Stefan Wul, o autor europeu de ficção-científica que se está a revelar um autêntico caso neste ramo da literatura e que a Colecção Argonauta apresenta no seu próximo volume.

Nota: uma excelente obra de Stephan Wul, uma grande surpresa. Cativante, envolvente, emocionante. Merecia ser adaptada para Cinema.

nº 60 - O Vagabundo das Estrelas



Autor: Stefan Wul
Título original: L'Orphelin de Perdide
1ª Edição: 1958
Publicado na Colecção Argonauta em 1960
Capa: Lima de Freitas
Tradução: Mário Henrique Leiria


Súmula - foi apresentada no livro nº59 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta:

A astronave percorria o Espaço. Sobre o seu topo aparentemente imóvel, o nome brilhava à luz das estrelas: O Grande Max. Era também o nome do seu proprietário, um mulato enorme, conhecido em todos os sistemas da constelação de Lira.
O grande Max dormia na sua cabina. Completamente nú, o seu corpo musculoso jazia sobre a cama. Um braço rude pendia, com a mão roçando o solo. O outro estava sobrado sob a cabeça de cabelos azulados, por um sol desconhecido.
Era um pirata magnífico, contrabandista e grande conhecedor de mundos. Pertencia já ao folclore de Lira, como um deus do Espaço. Falava-se frequentemente das suas extravagâncias, da sua violência, do ouro que semeava às mãos cheias pelas luxuosas casas de jogo das capitais. Mas nunca a polícia conseguira reunir provas suficientes que denunciassem as suas actividades ilícitas. Escapava sempre a todas as armadilhas.
Ia de um lugar para outro, desaparecia durante anos, reaparecendo alguns meses mais velho, sempre jovem, conservado pela actividade das suas viagens. Ria na cara dos polícias, punia algum traidor, captava filhas de rei e, de um golpe, aumentava as economias para o dobro ou o triplo, nalgum negócio sensacional e inatacável... chegando a ceder de boa vontade, e sem fazer alarde disso, metade dos seus lucros a um pobre vigarista cujo rosto lhe agradasse. Dentro em pouco, cercado de lenda, tornara-se de certo modo um salteador estimado...
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É a aventura deste vagabundo das estrelas, para quem a amizade estava acima de qualquer lucro ou negócio, acima mesmo do valor da própria vida, que os leitores do próximo volume da colecção ARGONAUTA vão conhecer. Para salvar uma criança, o filho do maior amigo, o grande Max passa por cima de todos os obstáculos, abandona todas as rendosas empresas em que negoceia, e lança-se através dos Espaços.
Mais um romance de Stefan Wul, o best-seller e, sem dúvida, um dos mais notáveis escritores de ficção-científica em língua francesa.

nº 64 - O Mundo dos Draags


Autor: Stefan Wul
Título original: Oms en Série
1ª Edição: 1957
Publicado na Colecção Argonauta em 1961
Capa: Lima de Freitas
Tradução: Mário Henrique Leiria
 

Súmula - foi apresentada no livro nº63 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta: 

Ygam, o mundo dos Draags. Um planeta gigantesco, onde um dia tem a duração de quarenta e cinco dias terrestres. Aí vivem os gigantescos Draags, co ma sua técnica quase perfeita e os seus contientes artificiais... e aí vivem também os Oms, pequenos animais domésticos trazidos do seu planeta de origem, um pequeno planeta perdido nos confins da Galáxia e que tivera o nome de Terra.
Mas os pequenos Oms, até então quase desprovidos de inteligência e que apenas conseguiam decorar umas poucas palavras da língua Draag, começam de súbito a tentar libertar-se de uma servidão milenária, a revoltar-se, a fugir aos seus donos, a formar bandos selvagens que se escondem pelos campos e vivem da pilhagem.
Terr, um Om muito jovem ainda, sente também um dia esse apelo da liberdade e foge aos seus donos para acabar por se reunir ao bando de Bravo. Aí começa então uma odisseia, a desesperada tentativa  dos Oms para obterem uma vida livre e mais digna, lutando com um mundo que lhes é hostil, até porque os considera apenas como pequenos animais desprovidos de qualquer forma de inteligência significativa.
Da maneira como essa luta é conduzida, desde o aparecimento da primeira cidade subterrânea dos Oms, instalada no Velho Porto, até ao encontro final entre duas raças estruturalmente diferentes, dá-nos o curioso livro "O MUNDO DOS DRAAGS" uma visão movimentada e cheia de humanidade, onde o leitor não deixará de encontrar uma espécie de aviso acerca de determinados perigos de que a nossa civilização pode ser a causadora.
"O MUNDO DOS DRAAGS" é mais um livro de Stefan Wul, autor já bem conhecido dos leitores da Colecção Argonauta e talvez um dos livros mais realizados, não só pela forma como a história nos é contada, mas também e principalmente por aquilo que nos conta e pela sua mensagem final de entendimento entre todas as raças, por mais diferentes que aparentemente sejam.

Nota: René Laloux, viria a realizar em 1973 um filme tendo como argumento este romance de Stephen Wul, que ganhou um prémio especial do Júri no Festival de Cannes. Para mim este filme também tem um significado especial... foi o primeiro filme que vi no Cinema! No desaparecido Espaço Ibéria, um Cinema que ficava no Parque D. Carlos I, nas Caldas da Rainha. Quanto ao filme em dvd, sou o feliz possuidor de uma edição que me apressei a comprar assim que foi editada. Infelizmente não existe ainda (pelo menos quando escrevo estas linhas, em Setembro de 2011) nenhuma edição nacional, mas felizmente existe a Amazon inglesa, que nos permite comprar edições estrangeiras sem pagar taxas alfandegárias, e muitas vezes a preços inacreditavelmente baixos. Recomendo que leiam o livro! E que depois adquiram e vejam o filme! É uma animação muito bonita, num 2D (graças a Deus não havia ainda 3D!) ao velho estilo, a fazer lembrar aguarelas animadas. É um filme mágico, tal como o livro.


Deixo-vos com o trailer:

E com os pormenores do filme, na IMDB:
http://www.imdb.com/title/tt0070544/

nº76 - Degelo em 2157


Autor: Stefan Wul
Título original: La Peur Géante

1ª Edição: 1957
Publicado na Colecção Argonauta em 1963
Capa: Lima de Freitas
Tradução: André Varga


Súmula - foi apresentada no livro nº76 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta:  

Stefan Wul, um dos autores mais lidos e apreciados pelos leitores de FC, que se têm familiarizado com a sua obra através da Colecção Argonauta, volta a surgir por intermédio da tradução portuguesa de um dos seus romances mais curiosos e significativos: Degelo em 2157.
Quais as transformações das condições reais de existência que decorreriam de um cataclismo cósmico dessa ordem? Como reagiriam os seres vivos ao novo condicionamento da sua vida?
Perguntas perturbantes, às quais Stefan Wul responde num romance de singular originalidade, em que o imprevisto, a graça de narração e a própria intensidade do enredo conferem à leitura um interesse verdadeiramente envolvente. As qualidades que justificaram a atribuição do Grande Prémio de Ficção-Científica a Stefan Wul, manifestam-se mais uma vez em Degelo em 2157, que virá por certo robustecer e alargar a audiência de Stefan Wul junto do público leitor português. 

nº 85 - O Templo do Passado



Autor: Stefan Wul
Título original: Le Temple du Passé

1ª Edição: 1957
Publicado na Colecção Argonauta em 1964
Capa: Lima de Freitas
Tradução: André Varga

Súmula - foi apresentada no livro nº84 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta:  

A Colecção Argonauta vem apresentar agora ao leitor português mais um romance de Stefan Wul, autor francês de ficção-científica cuja obra é das mais conhecidas e apreciadas em Portugal.
Escritor de vastor recursos, os seus romances interessam e encantam pela diversidade de situaçãoes e peripécias que entrecortam a narrativa e nos mantêm numa permanente suspensão, bem como pela fluência da linguagem e sua força sugestiva. O Templo do Passado, como os demais romances de Stefan Wul que a Colecção Argonauta já publicou, exemplifica todas estas característica e reforçaria, se necessário, o vasto prestígio de que o autor já goza em Portugal.

nº 90 - Armadilha em Zarkass


Autor: Stefan Wul
Título original: Piège sur Zarkass
1ª Edição: 1958
Publicado na Colecção Argonauta em 1964
Capa: Lima de Freitas
Tradução: Álvaro Simões


Súmula - foi apresentada no livro nº89 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta": 

Stefan Wul dá-nos no presente romance uma obra cheia de movimento e acção, em que a atenção do leitor é mantida em suspenso desde o princípio ao fim da narrativa. Armadilha em Zarkass, é mais uma manifestação de talento de Stefan Wul, cuja obra tem sido largamente divulgada entre nós pela Colecção Argonauta. À riqueza de imaginação, o autor sabe aliar o sentido da aventura em romances que envolvem a atenção do leitor e que são verdadeiros best-sellers.

nº 107 - O Império dos Mutantes



Autor: Stefan Wul
Título original: La Mort-Vivante
1ª Edição: 1958
Publicado na Colecção Argonauta em 1966
Capa: Lima de Freitas
Tradução: Amadeu Lopes Sabino

Súmula - foi apresentada no livro nº106 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta": 

Mais um livro de Stefan Wul, grande escritor francês de FC que a Colecção Argonauta apresenta entre nós. Deste famoso romance, um dos mais emocionantes deste autor, transcrevemos seguidamente um expressivo texto:

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O homem emigrara para planetas-paraísos de sistemas longínquos havia muitos séculos. 
Em volta do Sol, apenas gravitavam mundos quase desertos. Apenas Vénus albergava uma sociedade organizada, relíquia do antigo Império. Mas três quartas partes da Ciência tinham-se perdido. E a grande desconfiança oficial em relação aos sábios, contribuía para apressar essa decadência. Acreditava-se ser suficiente utilizar velhas receitas herdadas do passado, mas que uma teocracia timorata considerava inofensivas.
Quanto à Terra... ! Era o planeta maldito. Era proibido tocar-lhe. Aliás o seu clima pluvioso e desesperante era suficiente para afastar os curiosos. Só contrabandistas sem fé e sem lei ousavam aventurar-se a lá chegar. Iludindo a vigilância da polícia espacial, esses bandidos praticavam o comércio das antiguidades terrestres, cuja procura continuava a ser forte por parte de certos depravados.
Em Vénus, a Ciência era tolerada. Mas o Consistório, presidido por sua Alta Prudência, encarregava-se de a manter dentro dos limites inofensivos. Do mesmo modo nos tempos antigos, certas tribos africanas tinham tolerado a presença, entre elas, dos ferreiros necessários à Economia local, mas suspeitos de comércio perigoso com os espíritos do fogo.
As gentes de Vénus ignoravam tais factos, como ignoravam toda a protohistória terrestre. Em relação aos sábios, obedeciam contudo a reflexos da mesma natureza. Podiam alguns investigadores aceder a altas posições sociais e ser cidadãos respeitados, mas o homem médio continuava a ver neles perigosos prestidigitadores. 
Felizmente, havia os padres.

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Joachim, o Mestre-biólogo, recebia todos os mesees a visita do Inspector-Padre. 
Joachim ditava o seu relato mensal ao fixo-fone. A campaínha da entrada retiniu. Joachim premiu um botão e olhou o écrã. Viu a cara do Inspector-Padre. Deixou o trabalho e dirigiu-se ao corredor para ir abrir a porta. Teria podido, por certo, abrir a porta sem sair do escritório. Mas, para sua Vigilância, seria incorrecto. Era conveniente ser ele próprio a abrir.
O Inspector entrou e fez um sinal com o dedo. Disse: - Levante a cara, Mestre-Biólogo. 
Joachim interrompeu a sua reverência ritual e apressou-se a dizer:
- Como se sente Vossa Vigilância?
Era um estranho espectáculo ver um velho encanecido desfazer-se em atenções para com um jovem. Mas esse jovem usava a insígnia sacerdotal, que impunha o respeito.
- Bem, obrigado, - disse o Inspector. - Vamos para o seu escritório, se não se importa.
Joachim precedeu-o, dizendo:
- Estou a acabar o relatório. Levo apenas dois minutos, Vossa Vigilância.
Depois, entrou no escritório:
- Queira sentar-se. Não demoro.
O Inspector abanou condescendentemente a cabeça e instalou-se numa poltrona. Joachim teve um sorriso de desculpa e premiu um contacto no fixofone. O aparelhe repetiu a última frase ditada:
- O êxito destas experiências clássicas mostra que marcamos passo há dois anos no mesmo tema...
Joachim continuou:
-  Parece incontestável que as mesmas leis são aplicáveis aos Vertebrados superiores. E não se compreende porque seria o Homem uma excepção. Sem ir demasiado longe, ousamos esperar que o Consistório estatuirá a favor de experiências mais ousadas; em aves, talvez.
Calou-se e virou o manípulo de registo para enrolar a fita em sentido contrário. O aparelhe tiniu. Joachim soltou um suspiro.
- Está pronto - disse.
O Inspector tinha o sobrolho carregado. O biólogo esperou que ele se dignasse abrir a boca.
- Vai demasiado longe - disse enfim o Inspector.
- Não lhe agrada, Vossa Vigilância?
- Digo que vai longe. Fala do Homem. Temo que essas palavras se aproximem da incorrecção.
As mãos de Joachim agitaram-se.
- Que o Grande Ser me defenda de alimentar maus desígnios, Vossa Vigilância. Não são mais do que palavras emitindo uma hipótese científica. Tocar na embriologia do Homem é um sacrilégio, sei-o. Sinto horror em pensar que... mas da palavra aos actos vai muito, não é assim?
- Sem dúvida, sem dúvida, mas esta frase é infeliz e o Consistório será desagradávelmente influenciado por ela. Não sei se a experimentação em aves lhe será concedida.
Joachim apontou para o fixofone.
- Vossa Vigilância quer ouvir de princípio?
- Não, não. Dê-me simplesmente o rolo. Será escutado a tempo e horas. Resuma-me rápidamente o seu trabalho do mês.
O Sábio abriu o aparelho e deu o rolo ao visitante. Este colocou-o na pasta e cruzou os dedos, numa atitude de espera.
Joachim torriu.
- Hum... Ei-lo! Consegui provocar num frasco a génese de um batráquio normal a partir de um ovo fecundado e depois tornado a fecundar pelo núcleo de uma célula vulgar, colhida num ser adulto. A primeira célula provinha de um simples epitélio.
- Traduzindo a sua algaraviada científica: retirou o núcleo de um ovo normal, substituíu esse núcleo pelo de uma célula qualquer, colhida noutro indivíduo. O ovo satisfez-se perfeitamente e continuou a engordar para dar um sapo...
- Uma rã!
- Se quisr... Para dar uma rã normal e... !
- Esta rã era gémea da primeira
Se dizer uma palavra, o jovem Inspector-Padre tirara um dossier da pasta. Parecia procurar aí qualquer coisa. Joachim inquietou-se.
"Que vai ele encontrar ainda - pensava - Ah! Que saudades tenho do outro!"
O outro? Era o velho Inspector bonacheirão que morrera seis meses antes. O outro arredondava sempre os ângulos, fazia-se o menos rigoroso possível, humanizava as consignas. Mas o novo mostrava-se intratável, ainda que sem malevolência. Exteriorizava um zelo de principiante.
- Ah! Cá está! - exultou ele, pondo o dedo numa página do dossier.
Joachim teve um sobressalto.
- Cá está - repetiu o Inspector. Leio isto na sua última folha: ...Autorizado a prosseguir as suas experiências genéticas com peixes.
- Sim, Vossa Vigilância?
- Com peixes, e nada mais, Mestre-Biólogo. E o senhor fala-me abertamente de rãs. Ultrapassa os seus direitos.
"E contudo é verdade", pensou Joachim com irritação. E só li a última folha. O outro ter-se-ia rido apenas e teria acrescentado á margem a palavra batráquio. "Tanta coisa por uma rã"!
- É um animal aquático - arriscou.
- Vamos, vamos, Mestre-Biólogo, os castores também são animais aquáticos. Não ouso pensar nas reacções do Consistório se o senhor tivesse trinchado embriões de castores sem autorização oficial. Mas, tal como se apresenta, o seu caso é já suficientemente feio.
- Estou desolado, Vossa Vigilância. Sou um velho distraído. Que solução pensa...?
- Vão certamente destruir os seus instrumentos de experimentação em presença de testemunhas designadas. Ouso esperar que Sua Alta Prudência...
(Os dois homens inclinaram-se) ... não se mostre severo de outro modo para consigo - concluíu o Inspector.- E agora digamos a oração. Parece-me necessitado.
Recitaram em conjunto, de face inclinada: "Oh Grande Ser, protege os que têm de meter as mãos na Ciência. Conserva-os nos limites fixados por sua Alta Prudência. Protege-os das curiosidades excessivas e das tentações perigosas."
Joachim levantou a cabeça, mas apercebeu-se que o Inspector-Padre conservava a sua inclinada, numa atitude recolhida.
Fez o mesmo e pelo canto do olho procurou ver quando dignaria endireitar-se o seu visitante.
O Inspector pareceu enfim sair da sua meditação. Estendeu a mão.
- Dê-me a chave do laboratório - disse ele.
- Eu... Oh! Sim, perfeitamente, Vossa Vigilância.
Esta severidade excedia as suas mais sombrias previsões. Obedeceu contudo. O Inspector foi fechar a porta do laboratório e pôs a chave na pasta. Teve um sorrisozinho protector. 
- Esperemos que o Consistório lha devolva brevemente - disse ele, saindo. - Não peque, Mestre-Biólogo.
Depois de uma última saudação, Joachim fechou a porta de entrada e permaneceu imóvel, a olhá-la. Lágrimas de raiva impotente brilhavam nos seus olhos. Secou-as finalmente e atirou-se para cima de uma cadeira, de cabeça entre as mãos.
- A Ciência - disse ele em voz alta. - A Ciência não é assim tão má. Sem a Ciência, Vénus nunca teria sido habitável. Foram os sábios que, noutros tempos, regularizou o seu clima.
Ainda que encolerizado, ele teve a impressão de blasfemar, enquanto uma voz interior lhe dizia: "sem a Ciência e os Sábios, a Terra teria permanecido habitável e o Homem não teria tido necessidade de emigrar".
Em Vénus, ninguém pronunciava o nome do planeta maldito sem pedir desculpa. Era uma grosseria. Joachim teve uma explosão de revolta infantil. Gritou com todas as suas forças:
- Viva a Terra! Viva a Ciência!
Depois, inquieto, correu à janela para ver se ninguém o tinha ouvido. O toque da compaínha fez-lhe tremer as pernas. Empalideceu. Admitiu o regresso do Inspector-Padre e viu rápidamente se este não se teria esquecido da pasta... Não!
Quem o visitava?
Murmurou:
- Oh! Perdão, Grande Ser, perdão.
Foi abrir.
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